LGBT
17/02/2019 12:00 -03 | Atualizado 17/02/2019 12:00 -03

Como Garrard Conley, autor de 'Boy Erased', sobreviveu à 'cura gay'

"O garoto que eu fui não existe mais", disse Conley ao HuffPost Brasil. Filme baseado no livro teve lançamento cancelado no Brasil.

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Aos 18 anos, Garrard Conley foi obrigado por seus pais a frequentar um local que prometia "converter" homossexuais.

É comum que escritores dediquem livros a seus pais. Mas para Garrard Conley, autor de Boy Erased - Uma verdade anulada (Intrínseca, 2019), fazer isso foi como um ato surpreendente de perdão. Foram justamente seus pais que lhe impuseram uma escolha: aceitar passar pela terapia de conversão sexual, conhecida popularmente como “cura gay”, ou ser exilado de sua família, amigos e religião para sempre.

″É muito fácil de entender. Eles [seus pais] foram ensinados que ser gay resultaria em dor e sofrimento”, disse em entrevista por e-mail ao HuffPost Brasil. Seu livro foi lançado no Brasil em janeiro, mas o filme baseado nele teve o lançamento cancelado no País pela distribuidora Universal Pictures.

De muitas maneiras o garoto que eu era não existe mais.
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Seu livro de memórias foi publicado e ficou na lista de melhores do ano do The New York Times em 2016.

Nascido no Arkansas, nos Estados Unidos, e filho de um pastor da igreja Batista, em 1998 Conley escolheu passar pela terapia que o transformaria em “ex-gay”. Ele tinha 19 anos. “Não há nada que me ajudaria a tomar uma decisão diferente, dadas as minhas circunstâncias na época”, lembra.

“Quando descobriram [seus pais] que eu era gay, ligaram para os líderes da igreja, que sugeriram que a terapia de conversão seria a melhor opção. Por terem sido ensinados a confiar na igreja, concordaram com eles”, explica.

Tudo veio à tona após um episódio de violência sexual. Conley foi estuprado por um potencial amante e seu agressor revelou aos pais do escritor que sua orientação sexual não era exatamente a que esperavam.

Em contrapartida, ele sentia que, tanto a violência que sofreu, quanto a terapia de conversão eram “punições de Deus” por seus desejos homossexuais classificados como “transgressões mentais” por ele mesmo.  

“Eu esperei cerca de uma década para escrever uma única palavra de Boy Erased”, conta.  Mas por quê? “Em primeiro lugar, porque eu estava muito envergonhado. Eu me sentia estúpido em ter concordado em passar por uma terapia de conversão.”

A “cura gay” nos Estados Unidos e no Brasil

Mesmo com a resolução da OMS, que retirou a homossexualidade da lista de doenças mentais, as chamadas “terapias de conversão sexual” são utilizadas mundo afora e se baseiam na teoria de que seria possível alterar a orientação sexual de uma pessoa.

A discussão a respeito do tema nos EUA é grande. Atualmente em 41 estados do país a prática é legalizada. 

Recente estudo do Williams Institute, da faculdade de direito da Universidade da Califórnia, Los Angeles, alerta que 20 mil jovens LGBTs norte-americanos passarão pelo tratamento.

No Brasil, o Conselho Federal de Psicologia já proibiu profissionais do ramo de tratar a transgeneridade como doença ou anomalia. Mas não há leis que impeçam esse procedimento. 

“As chamadas terapias de reorientação sexual produzem violências das mais variadas ordens”, avalia o diretor do CFP Pedro Paulo Bicalho, professor da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), em entrevista ao HuffPost Brasil.

“O que nós precisamos enfrentar é a LGBTfobia, que faz com que muitas pessoas sofram com a sua condição de homossexual. Não a homossexualidade em si”, completa.

Dezoito anos após fracassar no tratamento que, em 12 passos inspirados em preceitos da Bíblia, prometia livrá-lo de seus “pensamentos impuros” e corrigir sua orientação sexual, seu livro de memórias foi publicado e ficou na lista de melhores do ano do The New York Times, e na lista Top 10 Biografias do Oprah’s Book Club, da apresentadora americana Oprah Winfrey.

O livro retrata o peso que as relações entre família e fé tiveram na busca do autor para (re)afirmar sua identidade. Escrever sobre o processo foi a saída: “Decidi escrever depois de aceitar alguns dos sintomas que experimentei por causa da terapia (um profundo sentimento de vergonha permanente, por exemplo), e senti que precisava dar voz às experiências dos outros.”

Senti que precisava dar voz às experiências dos outros.
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Lucas Hedges dá vida a Jared -- personagem que protagoniza a história escrita por Garrard Conley.

Em 2018, sua história também se transformou em filme. Dirigido por Joel Edgerton, o longa traz Nicole Kidman, Russell Crowe e Lucas Hedges no elenco principal. O filme foi indicado ao Globo de Ouro 2019 em duas categorias: Melhor Ator de Filme – Drama, pela atuação de Lucas Hedges, e Melhor Música Para Filme, por Revelation.

Por decisão comercial da distribuidora Universal Pictures, o filme teve seu lançamento cancelado no Brasil. A empresa afirma que o longa será  disponibilizado apenas em plataformas de streaming.

“Espero que o filme chegue às pessoas certas e, de qualquer forma, o livro é sempre melhor - e meu livro está sendo publicado no Brasil”, brinca o autor.

Além de escritor, Conley se tornou ativista das causas LGBT nos Estados Unidos e também produz um podcast chamado UnErased (“Não apagado”, em tradução livre) em que explora o histórico das terapias de conversão no país. Hoje ele mora com seu marido em Nova York.

“De muitas maneiras o garoto que eu era durante o meu tempo na terapia de conversão não existe mais. Eu o apaguei para dar espaço a uma nova identidade que agora possuo como ativista e escritor.”

Leia abaixo a entrevista completa.

 

HuffPost Brasil: Quando e porque você decidiu escrever Boy Erased? E porque você escolheu esse título ao livro?

Garrard Conley: Eu esperei cerca de uma década para escrever uma única palavra de Boy Erased. Em primeiro lugar, porque eu estava muito envergonhado. Eu me sentia estúpido em ter concordado em passar por uma terapia de conversão. Mas decidi escrever depois de aceitar alguns dos sintomas que experimentei por causa da terapia de conversão (um profundo sentimento de vergonha permanente, por exemplo), e senti que precisava dar voz às experiências dos outros. Eu escolhi esse título porque, no nível mais profundo, eu estava sendo convidado a mudar, ou apagar quem eu era como pessoa. Mas há também outro significado para o título, porque, de muitas maneiras, o garoto que eu era durante meu tempo na terapia de conversão não existe mais, e eu o apaguei para dar espaço para a nova identidade que agora possuo como ativista e escritor.

Como foi ouvir de seus pais que você deveria passar pela terapia de conversão ou deveria deixar sua família para sempre?

Bem, eu estava lidando com as sequelas do estupro, e tinha acabado de “sair do armário” para meus pais, que pareciam estar dizendo que o amor deles não era mais incondicional, então foi horrível. Desculpe, não posso resumir isso em uma resposta curta, mas dediquei um livro inteiro para respondê-la.

O que você se lembra mais sobre o tempo que passou lá?

O que mais me lembro foi a quantidade de ódio que me pediram para direcionar para as pessoas que me criaram. Lembro-me de pensar que era estranho que uma suposta organização cristã quisesse que eu usasse o ódio como uma ferramenta em vez de amor ou compaixão, e essa talvez tenha sido a mesma coisa que me salvou, porque eu entendi naqueles momentos que esses conselheiros não eram, na verdade, cristãos.

Hoje você consegue entender porque seus pais acreditavam que você precisava de uma “cura”?

Sim, é muito fácil de entender. Eles foram ensinados ― através de seu ambiente e através de uma falta de representação na mídia ― , que ser gay resultaria em dor e sofrimento. Lembre-se, era o ano de 1998, o ano em que Matthew Shepard foi espancado e amarrado a um poste e deixado para morrer. Eles não queriam o mesmo futuro para seu filho, e, quando descobriram que eu era gay, ligaram para os líderes da igreja, que sugeriram que a terapia de conversão seria a melhor opção. Por terem sido ensinados desde seu nascimento a confiar na igreja, concordaram com eles.

Muitos leitores se perguntam: por que você concordou em passar pela terapia de conversão à época? Você faria algo diferente?

Não há nada que me ajudaria a tomar uma decisão diferente, dadas as minhas circunstâncias na época. Eu tinha sido estuprado e foi essa situação violenta que me fez falar para meus aos meus pais sobre minha sexualidade. E eles, que controlavam todas as minhas finanças, disseram que eu não apenas os perderia para sempre, mas também perderia toda minha formação educacional.

Você entrou em contato com outras pessoas que passaram pelo mesmo processo para escrever o livro? 

Sim, falei com muitos sobreviventes e continuei a me conectar com eles. Suas histórias me ajudaram a colocar minha própria história no contexto de um quadro maior. Eu também falei com John Smid, que havia administrado a instituição enquanto eu estava lá. Eu sabia que, se eu fosse fazer literatura de verdade, precisava escrever minha própria história pessoal dentro do contexto de um fenômeno cultural muito maior do que eu, então priorizei entrevistar outras pessoas.

E como você se sentiu ao saber que a história seria transformada em filme? O que isso significou para você?

Eu vi o filme como uma oportunidade para aumentar a conscientização. Joel Edgerton e o elenco que ele trouxe com o filme realmente ajudaram a trazer mais ímpeto ao movimento para acabar com a terapia de conversão. Eu sempre serei grato a ele por isso.

No livro e também no filme, a relação entre religião e homossexualidade é tratada com ênfase. Hoje existem uma série de ramificações do cristianismo que são mais receptivas à diversidade e abraçam a comunidade LGBT. Como você lida com isso nos Estados Unidos? Você acredita que um progresso foi feito?

Eu acho que tem havido muito progresso, mas eu sempre tento educar as pessoas sobre um fato que eu acho que os jovens ativistas podem, muitas vezes, perder e isso é que o progresso não avança em uma linha reta. Muitas vezes há retrocessos em qualquer movimento progressista, e temos que olhar para os direitos civis e direitos das mulheres para ver como pode haver contratempos e vitórias.

Recentemente, a Universal Pictures decidiu não lançar o filme no Brasil em circuito comercial. A decisão foi muito criticada. O que você pensa sobre isso?

Não conheço nenhum detalhe, mas espero que o filme chegue às pessoas certas por streaming e, de qualquer forma, o livro é sempre melhor - e meu livro está sendo publicado no Brasil.

O que você diria para pessoas que acreditam na “cura gay”?

Eu pediria a eles que se fizessem uma pergunta: Se é possível que eles estejam errados sobre a homossexualidade, que sua decisão de tentar “curar” alguém possa levar a dor e sofrimento e, em muitos casos, até à morte, vale a pena correr esse risco? Eles estão dispostos a arriscar as vidas de jovens e adultos em um esforço para defender suas crenças? Há algo mais importante que uma vida humana?