ENTRETENIMENTO
29/10/2020 08:27 -03

'Borat 2' é sem-vergonha, ferino e estranhamente humanista

Não devia haver outro filme de Borat, mas a tensão um pouco cruel de enganar pessoas com um falso documentário ainda tem graça.

Não devia haver outro filme de Borat. Não porque Borat 2: Fita de Cinema Seguinte seja ruim, mas é que hoje parece fácil demais reconhecer o personagem de Sacha Baron Cohen. Em 2006, Borat e seu terno cinza quadradão (ou era azul?) eram anônimos o suficiente para enganar desavisados e escancarar intolerâncias.

Era um grande teste para os envolvidos no filme e também para os espectadores, um estudo de estereótipos ofensivos transformados em armas de provocação. Nós éramos o alvo da piada, e ela era específica demais para ser repetida.

Mas aqui estamos.

O filme, que está disponível no Amazon Prime Video, ressuscita o jornalista cazaque e confronta as mudanças sísmicas pelas quais passaram os Estados Unidos desde então. A nova missão de Borat? Entregar um presente a alguém do círculo íntimo de Donald Trump ― ele decide que será o vice-presidente Mike Pence ―, para que os Estados Unidos considerem o Cazaquistão um aliado.

Mesmo que Trump também tenha preconceitos, Borat não pode dar o presente ao presidente americano, pois no passado ele defecou do lado de fora da Trump Tower. O “souvenir” é sua filha de 15 anos, Tutar (a hilária estreante Maria Bakalova, de 24 anos), treinada para acreditar que o lugar das mulheres é a jaula e descrita como “velha demais” para Rudy Giuliani (que tem 76).

A pergunta que qualquer fã (ou não-fã) de Borat quer ver respondida é se o novo filme é engraçado, e respondo que sim. O humor perspicaz de Baron Cohen ainda se destaca e em certos momentos parece ir direto ao ponto, dada a situação atual dos Estados Unidos.

A caminho de uma convenção conservadora em que Pence minimiza as preocupações com a Covid- 19, Borat visita uma influenciadora digital que defende o estilo de vida “sugar baby”, uma vendedora que ri quando Borat pergunta onde ele encontrar a seção dos vestidos “não significa sim”, um cirurgião plástico que oferece a Tutar plástica no nariz e aumento dos seios por 22.000 dólares, e dois caras que acreditam na teoria da conspiração segundo a qual Bill Clinton é culpado pelo coronavírus.

A tensão um pouco cruel de enganar pessoas que não sabem que estão participando de um documentário falso ainda tem graça. E Borat dribla o monstro da fama se disfarçando.

Amazon Studios
Maria Bakalova e Baron Cohen em "Borat 2: Fita de Cinema Seguinte".

Mas, apesar de toda a falta de sensibilidade de Borat, os filmes têm um lado surpreendentemente humanista. Em situações com americanos que realmente acreditam que ele é só um jornalista estrangeiro com sotaque, Baron Cohen permite que racistas sejam racistas e misóginos sejam misóginos. Mas ele também se depara com um punhado de pessoas muito diferentes.

No primeiro Borat, ele encontra um grupo de moradores do Alabama que lhe explica pacientemente a etiqueta rudimentar no banheiro. Em Borat 2, ele conhece duas doces senhoras judias que o abraçam, embora ele esteja usando um longo nariz de plástico e garras. Quando ele deixa Tutar aos cuidados de uma babá, ela mostra interesse genuíno pelo bem-estar da menina e a ensina que as mulheres têm direitos.

Às vezes, esses momentos se perdem no discurso Borat, especialmente considerando o número de processos sofridos depois do sucesso comercial do primeiro filme. Mas eles são ainda mais importantes agora, em parte porque o preconceito cotidiano que permeia o filme parece muito menos novo do que 14 anos atrás.

As piadas de Baron Cohen giram em torno da ideia de que os Estados Unidos não reconhecem seu próprio provincianismo, mas esse tem sido o subtexto dos programas de comédia política e de tuítes virais nos últimos quatro anos. Não é surpreendente ver uma multidão aplaudir um Borat desafinado cantando que Barack Obama deveria ser preso. O que é surpreendente é que, mais adiante no filme, Borat volta para a casa da babá durante a pandemia do coronavírus e ela ainda se dá ao trabalho de demonstrar compaixão, quando isso não seria necessário.

Humanismo à parte, temos de falar de uma cena em particular: aquela com Giuliani. Talvez você já tenha ouvido falar do assunto. No final do filme, Tutar se apresenta como uma jornalista péssima que conseguiu uma entrevista com Giuliani. Ela o incita a flertar (não que isso exija muito esforço) e pergunta se ele gostaria de tomar um drinque com ela em seu quarto. Lá, ela o incentiva a tirar a camisa e de repente Giuliani enfia a mão na calça – quando é interrompido pela chegada de Borat. É um momento que condena Giuliani. O advogado de Donald Trump parece nem dar-se conta de como é nojento.

Amazon Studios
Bakalova e Baron Cohen em “Borat 2: Fita de Cinema Seguinte”.

Essa cena explica o éthos de Borat 2: Fita de Cinema Seguinte. Baron Cohen mira mais alto. Ele claramente quer explorar as sensibilidades da era Trump com a aproximação das eleições presidenciais americanas. Sua carreira além de Borat é irregular, mas este seu trabalho ainda tem muito a dizer a qualquer pessoa madura o suficiente para entendê-lo. Mesmo quando o material não é tão novo e sofisticado como há 14 anos, Baron Cohen é engenhoso. E seu compromisso com o personagem é impressionante. Aparentemente, ele passou cinco dias sem sair do personagem enquanto esteve com os defensores da teoria da conspiração.

O mundo também mudou entre os dois filmes. Lançamentos convencionais – aqueles que estreariam em vários cinemas ― agora são projetados para ser o mais inofensivos possível. Mas aqui temos uma obra oferecendo humor abertamente anti-semita, chauvinista, racista, homofóbico e/ou misógino.

Fico chocado com o fato de que uma grande corporação estivesse disposta a produzir um filme desses, que pode ser facilmente mal interpretado. Mas temos de lembrar – deixando de lado os cinemas fechados por causa da pandemia ― que a Fox, estúdio responsável pelo original e que foi adquirido pela Disney, não teve nada a ver com a existência do novo filme. Então faz sentido que um serviço de streaming, que não depende da receita das bilheterias, tenha bancado a produção.

Dirigido por Jason Woliner, cujos créditos incluem a sitcom Parks and Recreation e comédias populares do canal Adult Swim, Borat 2: Fita de Cinema Seguinte desafia o que Hollywood espera de suas comédias em tempos de reações fortes nas redes sociais. Mas sempre acabo lembrando que Borat meio que  aprende a ser uma pessoa melhor no final desse novo filme. Não é muito forçado ou artificial, nem é totalmente único. Mas é uma evolução necessária para um personagem que finalmente percebe que não é o rei do castelo.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.