OPINIÃO
24/01/2020 19:45 -03 | Atualizado 24/01/2020 19:52 -03

'Bom Sucesso': Apesar de concessões, novela se despede como uma das melhores da década

Produção levou ao público texto de qualidade, personagens ricos com interpretações à altura e uma temática conduzida de forma envolvente e sensível.

Reprodução
Antônio Fagundes interpretou Alberto, um dos protagonistas de "Bom Sucesso". 

Aclamada pela crítica e prestigiada pelo público, a novela Bom Sucesso - que terminou nesta sexta (24) - registrou a maior audiência da faixa das 19 horas em sete anos: média final de 29 pontos no Ibope da Grande SP, ficando atrás apenas de Cheias de Charme, de 2012. A produção - assinada pela dupla Rosane Svartman e Paulo Halm, com direção artística de Luiz Henrique Rios - levou ao público um texto de qualidade, personagens ricos com interpretações à altura e uma temática que propunha uma reflexão sobre a finitude da vida, tendo a Literatura como alegoria, conduzida de forma envolvente e sensível.

O Médico e o Monstro  (Robert Louis Stevenson)

Svartman e Halm bem que tentaram manter a proposta original de Bom Sucesso, ancorada no texto rico com personagens carismáticos envoltos em várias camadas (Alberto, Paloma, Marcos, Ramon, Nana, Mário, Diogo, Gisele). A maior crítica foi à concessão a alguns clichês batidos do folhetim, o que manchou o teor da novela: já na reta final, um novo personagem, Elias (Marcelo Faria), e o retorno do vilão Diogo (Armando Babaioff), enlouquecido, foram usados como uma muleta para assegurar a audiência fácil.

Exibido entre a passagem de 2019 para 2020, o episódio envolvendo a transfusão de sangue de Gabriela (Giovanna Coimbra) introduziu o pai da moça, Elias, um tipo maniqueísta que destoou de todo o resto, deixando claro que essa trama aleatória serviu apenas para encher o buraco de fim de ano e garantir a audiência com catarses manjadas. Também serviu como uma passagem de tempo para que Diogo ressurgisse, mas em uma roupagem semelhante à de Elias, o que fez com que o personagem perdesse muito da graça e charme iniciais.

Victor Pollak/TV Globo
Os atores Antônio Fagundes, Grazi Massafera, David Júnior e Rômulo Estrela.

A Hora da Estrela(Clarice Lispector)

Ainda assim, o saldo de Bom Sucesso não poderia ser mais positivo: já é considerada uma das melhores novelas da década. Em entrevista a Maurício Stycer, para o UOL, Paulo Halm afirmou que a novela foi ao ar no momento certo, que se fosse exibida em 2018, talvez a recepção não teria sido a mesma. Halm está certo em sua análise. Muito da repercussão de uma novela reside no que o público está disposto a consumir naquele momento. Entretanto, as qualidades de Bom Sucesso vão além de um caso de novela certa no momento certo.

Nenhuma outra produção neste formato obteve tanto êxito em cativar o telespectador pela abordagem à Literatura. Alicerçada em dois personagens unidos pela paixão aos livros, mas de características opostas - Paloma, jovem, bela, pobre e de pouco estudo, e Alberto, velho, rico e culto -, a temática fluiu organicamente sem parecer elitista, didática ou impositiva. Ainda o mérito fazer refletir sobre o fim da vida sem peso ou morbidez, mas como um processo natural do ser humano.

Reprodução
Fabiula Nascimento e os atores mirins Valentina Vieira e João Bravo.

As Mil e Uma Noites

Bom Sucesso foi recheada com outras temáticas e abordagens, eficientemente amarradas às tramas centrais: basquete, carnaval, culto às celebridades e às redes sociais, racismo, violência urbana, inclusão social, diversidade, educação, orgulho de pertencer à periferia, bullying, etc. Um estofo de qualidade que ressalta o ótimo trabalho de Rosane Svartman e Paulo Halm ao costurar suas tramas. Os autores, apesar da larga experiência com roteirização, despontam como dois dos melhores novelistas da atual safra de nossa televisão.

Aliados ao roteiro, estavam a direção certeira de Luiz Henrique Rios e sua equipe, ao captar as premissas do texto dos autores, e o elenco bem escalado. Não desmerecendo o trabalho dos muitos coadjuvantes, um grande destaque para Antônio Fagundes, Grazi Massafera, Fabiula Nascimento, Armando Babaioff, Sheron Menezzes, Lúcio Mauro Filho, David Júnior, Rômulo Estrela, Ingrid Guimarães, Bruna Inocêncio (Alice), Giovanna Coimbra (Gabriela) e as crianças, fofíssimas e talentosas, Valentina Vieira (Sofia) e João Bravo (Peter).

Sonho de Uma Noite de Verão (William Shakespeare)

Um charme extra: além dos protagonistas, personagens periféricos serviram como suporte para ilustrar os devaneios literários de Alberto e Paloma: Nana, Diogo, Mário, Sofia Peter, Marcos, Batista e outros. Se o ser humano se alimenta do sonho e a telenovela convida ao escapismo da realidade, Bom Sucesso foi feliz em transportar o espectador para além: para o sonho dentro do sonho, visto na representação pelos personagens das histórias lidas na novela - o suprassumo desse sucesso.

Nilson Xavier assina este espaço no HuffPost. Siga-o no Twitter e acompanhe seus melhores conteúdos no site dele. Também assine nossa newsletter aqui com os melhores conteúdos do HuffPost.

Eleições nos EUA
As últimas pesquisas, notícias e análises sobre a disputa presidencial em 2020, pela equipe do HuffPost