ENTRETENIMENTO
01/10/2020 00:10 -03

'Bom dia, Verônica': Série aborda abuso e feminicídio em história de serial killer

"É uma série para maratonar", diz o autor Raphael Montes sobre trama protagonizada pela atriz Tainá Müller.

Desde que a Netflix passou a disponibilizar a seus usuários o Top 10 de produções mais assistidas na plataforma, um gênero em especial se mostrou particularmente popular: o thriller policial. Sejam obras ficcionais ou séries documentais, as tramas que retratam crimes são queridinhas do público do mundo todo, incluindo, é claro, o brasileiro. Só que, infelizmente, essa realidade não se traduz na produção audiovisual nacional.

Os exemplos de séries brasileiras desse gênero, como Bom dia, Verônica, que estreia na Netflix nesta quinta (1º), são tão poucos, que fica até difícil compará-los a outras produções nacionais semelhantes.

“Ouvia muito isso quando comecei a escrever: ‘Literatura policial não tem no Brasil. Isso não existe’. Haviam poucos autores dedicados ao gênero. E quando eu comecei a trabalhar como roteirista, fazendo novela ou séries como colaborador, eu também escutava a mesma coisa. Eu tinha muito claro que ao escrever minhas histórias, estava ajudando a criar um imaginário brasileiro para histórias desse gênero. A gente tem a ideia de que o Brasil é um país solar, alegre, e que, por isso, não há espaço para thrillers por aqui. Mas há, sim”, conta o criador, roteirista e produtor-executivo de Bom dia, Verônica, Raphael Montes.

Quando Bom dia, Verônica foi lançado, em 2016, muitos fãs de literatura policial se perguntaram quem seria Andrea Killmore, uma desconhecida autora que já demonstrava tanto talento logo em seu livro de estreia.

O mistério durou alguns meses até que o próprio Raphael Montes indicou que ele e a criminóloga Ilana Casoy - famosa por seus livros sobre serial killers brasileiros - estavam por trás do projeto. Os dois se conheceram em um evento literário em Minas Gerais e daí surgiu a ideia de unir as habilidades de contador de histórias dele com os minuciosos perfis psicológicos feitos por ela.

“No começo da minha carreira, quantas vezes eu ouvi de policiais que serial killer era coisa de americano, que aqui isso não existia. Usar nossos símbolos regionais com esse tipo de história mexe com a cabeça das pessoas porque elas podem estar vendo ali seu vizinho, amigo, pai, tio, avô... Os serial killers existem em qualquer realidade. Aqui também tem. Há alguns aspectos diferentes, mas, tecnicamente, a estrutura é a mesma, porque no mundo inteiro a dinâmica da mente humana é a mesma. Mas, obviamente, os aspectos culturais são diferentes. O da Sibéria nunca será igual ao da Bahia”, conta Ilana.

Quando escreviam o livro a quatro mãos, Raphael até brincou com Ilana de que ele viraria uma série, e não demorou muito para que a piada se transformasse em realidade. “Fiquei muito feliz em 2017 quando recebi um convite da Netflix indicando que eles queriam um thriller brasileiro que engajasse o espectador. Logo indiquei uma adaptação de Bom Dia, Verônica porque sempre tive certeza que a nossa história seria perfeita para ser transportada para esse formato. É uma série que as pessoas vão maratonar porque tem virada o tempo todo.”

Uma narrativa feminina

Suzanna Tierie/Netflix
Camila Morgado e Eduardo Moscovis como Janete e seu marido abusador, o serial killer Brandão. 

Além do fato de ser um tipo de produção audiovisual pouco explorada por aqui, tratando de uma trama envolvendo um serial killer brasileiro, Bom dia, Verônica rompe outro tabu. A série tem como protagonista uma mulher. A destemida escrivã de uma delegacia de homicídios de São Paulo Verônica Torres.

“Apesar do público brasileiro gostar muito de thriller, não é um gênero que a gente vê sendo muito produzido por aqui. Ainda mais com uma mulher como protagonista. A Verônica foi uma surpresa muito boa para mim. Ela é uma protagonista que eu não lembro de ter visto no Brasil. Porque além de toda a parte intelectual, ela se impõe fisicamente”, explica Tainá Müller, atriz que interpreta a personagem principal da série.

“É muito raro ser exigido de uma atriz no Brasil uma preparação física como a que eu tive para esse papel. Protagonistas femininas geralmente são daquele tipo ‘em busca do grande amor’, mas a Verônica não. Ter aulas de defesa pessoal e de tiro foi algo inédito como atriz e foi muito legal. As policiais mulheres estão aí, na luta. Acompanhei muitas policiais indo para operações. Essas histórias precisam ser contadas também”, acrescentou.

Dirigida por José Henrique Fonseca, filho do escritor Ruben Fonseca, um dos maiores escritores de livros policiais brasileiros, a trama de Bom dia, Verônica começa quando uma mulher vai a uma delegacia denunciar um homem que lhe aplicou um golpe “Boa Noite, Cinderela”. Muito abalada, ela acaba tomando uma atitude drástica no local, o que chama a atenção da escrivã Verônica Torres (Müller), filha de um investigador aposentado de renome e afilhada do delegado Carvana (Antônio Grassi).

No meio da investigação, ela acaba esbarrando em outro caso envolvendo violência contra mulheres ainda mais grave, o de um serial killer chamado Brandão (Eduardo Moscovis) que coage sua esposa Janete (Camila Morgado) para matar mulheres vulneráveis em um ritual macabro e brutal. O problema é que o assassino em série é também policial militar e, assim que começa a chegar cada vez mais perto dele, Verônica passa a ser pressionada por um misterioso grupo infiltrado na cúpula da polícia.

“Como a Janete é um personagem muito próxima de uma realidade de violência contra a mulher que nós, infelizmente, vivemos muito de perto, meu maior desafio era como deixá-la o mais verossímil possível. Porque muitas vezes a vítima fica constrangida em denunciar seu abusador. Acha que o comportamento violento do marido é normal porque ele está desempregado, bebeu um pouco demais ou está estressado. Ela vai justificando aquilo e esse homem vai cada vez mais manipulando ela. A gente teve muito cuidado para conseguir construir esses estágios porque as vítimas passam por isso até identificar que elas estão sofrendo violência doméstica”, conta Camila. 

“Nesse caso específico existe uma carga que não tem como me distanciar disso, desse cara ser uma figura muito representativa na nossa sociedade, esse cara machista, autoritário, que comete violências o tempo todo, seja da maneira que for. Lidar com isso tudo durante um tempo grande, desde a preparação da série até o fim gravações e agora, quando eu pude assistir o resultado final e voltei a viver aquilo tudo, é muito doloroso mesmo, muito difícil. Mas também muito bom, muito potente artisticamente. É minha oportunidade social poder representar e levantar um tema tão importante como esse para que possamos debatê-lo”, complementa Moscovis.

Aliás, é na força dos personagens que reside o ponto forte da série, como conclui Montes: “temos séries de thriller investigativo nórdicas, alemãs, espanholas e felizmente chegou a hora das brasileiras”. “Unimos um gênero muito forte com uma cultura muito forte que é a nossa, mas o que mais interessa aqui é o drama. O drama viaja para 190 países. A série é universal porque ela trata de dramas humanos.” 

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