OPINIÃO
12/06/2020 12:35 -03 | Atualizado 12/06/2020 12:35 -03

A irresponsabilidade no limite: Bolsonaro orienta que população invada hospitais para filmar leitos

'Tem hospital de campanha perto de você, tem hospital público, arranja uma maneira de entrar lá e filmar', disse o presidente, em live na noite desta quinta.

Reprodução
Bolsonaro na live do Facebook em que orientou população a invadir hospitais

Quando a percepção é de que não tem como piorar o cenário do País frente à pandemia, o presidente Jair Bolsonaro dá um jeito de mostrar que sua irresponsabilidade realmente não tem limites. Em live na noite desta quinta-feira, feriado, Bolsonaro conclamou a população a invadir hospitais – sim, invadir hospitais – para fazer imagens de leitos de covid-19.

“Seria bom você fazer na ponta da linha. Tem hospital de campanha perto de você, tem hospital público, arranja uma maneira de entrar e filmar”, disse Bolsonaro. A declaração foi feita pelo presidente depois de ele sugerir mais uma vez que os dados de mortes por covid-19 estão sendo inflados nos estados – quando, na verdade, TODOS os indícios são de subnotificação (leia mais abaixo).

Bolsonaro então seguiu: “Muita gente está fazendo isso [filmando leitos], mas mais gente tem que fazer para mostrar se os leitos estão ocupados ou não. Se os gastos são compatíveis ou não. Isso nos ajuda. Tudo que chega para mim nas mídias sociais a gente faz um filtro e encaminha para a Polícia Federal ou para a Abin (Agência Brasileira de Inteligência) e lá eles veem o que fazer com esses dados”.

O presidente citou o suposto caso de uma pessoa com “uma série de problemas de saúde” que teria morrido e “até onde os familiares sabiam, não tinha contraído o vírus”. “E aparece lá no óbito como covid-19”, diz, sem explicar exatamente a que documento estava se referindo e nem se foi colocado como caso suspeito de covid.

Vale lembrar que os mortos por covid só entram na contagem dos estados depois que o diagnóstico é confirmado por exame laboratorial – o que pode levar dias e, justamente por isso, há um atraso no registro dos óbitos pela doença. A informação de que o caso é suspeito de covid serve para que todo o serviço que será feito com o corpo da pessoa que morreu guarde os devidos cuidados para evitar possível contaminação.  

Voltando a Bolsonaro, ele disse receber “dezenas de casos por dia” de autoridades “aproveitando as pessoas que falecem para ganho político” e “para culpar o governo federal”.

O Brasil tem hoje, segundo dados das secretarias estaduais, mais de 40 mil mortos por covid. 

É inacreditável e causa indignação profunda que a pessoa à frente da nação trate esse assunto com tamanha leviandade. E colocando ainda mais pessoas em risco, já que, ao entrar em unidades hospitalares com portadores de covid-19, a possibilidade de contágio é real. Isso sem falar na violação da privacidade de pacientes e de toda a questão ética envolvida – mas o que o nosso presidente sabe mesmo sobre ética?

Como bem lembra uma matéria da Reuters, no início de junho, deputados estaduais entraram no hospital de campanha do Anhembi. Alguns deles estavam sem máscaras e sem equipamentos de proteção individual. Eles geraram tumulto e filmaram pacientes e leitos vazios. “Vídeos publicados nas redes sociais mostraram profissionais de saúde em trajes de proteção pedindo que os parlamentares e seus assessores usassem máscaras”, diz a reportagem.

A prefeitura explicou que os leitos vazios ficam preparados para serem utilizados em caso de necessidade e que o hospital de campanha atende casos de baixa e média complexidade ―não casos graves.

De uma vez por todas: há indícios de subnotificação, não de ‘supernotificação’ 

Combater a desinformação (que vem, inclusive, do presidente) é nosso papel como jornalistas, e, por isso, vamos mais uma vez relembrar: há fortes indícios de subnotificação, não de ‘supernotificação’ nos casos e mortes por covid-19 no Brasil. 

Por isso, volto em matérias já publicadas pelo HuffPost Brasil. 

Na mais recente, a repórter Marcella Fernandes mostra como a explosão de óbitos por SRAG (síndrome respiratória aguda grave) de 2019 para 2020 em alguns estados, junto com o baixo registro de mortes por covid-19, sugerem uma importante subnotificação no total de vítimas fatais da pandemia nesses locais.

Além disso, falhas no processo de coleta, transporte e processamento laboratorial de amostras também apontam que o total de mortes causadas pelo novo coronavírus pode ser bem maior do que os dados oficiais mostram.

Com base no InfoGripe, o HuffPost Brasil fez um levantamento de óbitos por SRAG – que pode ser uma das decorrências da covid-19 – em períodos equivalentes de 2019 e 2020 e de quantas dessas mortes foram identificadas até agora como causadas pelo novo coronavírus. Em todo o Brasil, até a 23ª semana epidemiológica de 2019, foram registradas 2.204 mortes por SRAG. Em 2020, até a 23ª semana epidemiológica, encerrada em 6 de junho, foram 33.811, equivalente a mais de 15 vezes o registro de 2019.

Em alguns estados, a diferença é maior. No Ceará, por exemplo, o salto foi de 73 para 3.303 mortes, número 45 vezes maior. Entres os óbitos de SRAG deste ano, 2.228 foram causados pela covid-19, o equivalente a 67%.

Já em Minas Gerais, apesar de o crescimento de um ano para o outro ter sido proporcionalmente menor – de 205 para 1.280 (6 vezes maior) –, há, também proporcionalmente, menos diagnósticos de óbito por covid-19: 247 de todos de SRAG, o equivalente a apenas 19%.

uma reportagem de março, também da Marcella Fernandes, mostrava como é complicada a tese de que os números são inflados. Na época, o Brasil tinha apenas 159 mortos e os apoiadores de Bolsonaro já defendiam essa tese. Leia trechos da matéria abaixo:

O fato de todas as mortes confirmadas dependerem de resultados de exames laboratoriais, e não clínicos, é um fator crucial de confiabilidade. ”Não tem como uma pessoa que não teve coronavírus estar sendo computada por isso. Não tem como o profissional de saúde mudar o diagnóstico. Isso não existe. É antiético”, afirma Ana Freitas Ribeiro, médica sanitarista do serviço de epidemiologia do Instituto Emílio Ribas. 

(...)

Quando o paciente é internado em hospital público ou privado com suspeita da doença, é colhida uma amostra de secreção da garganta ou do nariz, que vai para o laboratório estadual. No caso de São Paulo, o material é analisado pelo Laboratório Adolfo Lutz. A orientação do Ministério da Saúde é de que todos os casos graves sejam notificados. 

Ainda que a resposta demore, autoridades sanitárias garantem a confiabilidade do resultado laboratorial. ”Não pode encerrar o caso sem exame”, afirma Ana Freitas Ribeiro. “Os hospitais têm obrigação de fazer a notificação compulsória. A conclusão está atrasada por causa do laboratório.″

São considerados suspeitos de covid-19 pacientes com o quadro de sintomas chamado SRAG (síndrome respiratória aguda grave). 

Bem, mas a questão fundamental ainda é: mesmo que houvesse algum indício sério de números de casos e mortes inflados, nunca deveria o chefe da nação instar seus apoiadores a cometerem tamanho disparate.   

Em que lugar do mundo uma pessoa que tem a responsabilidade de zelar pela população a orienta a se expor e a expor os outros num ambiente hospitalar? Que tristeza saber a resposta.