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17/03/2019 18:33 -03 | Atualizado 18/03/2019 07:32 -03

Bolsonaro chega a Washington para visita que privilegiará EUA na relação

Em decisão unilateral, Brasil vai isentar americanos de visto e deve derrubar tarifas sobre trigo; Acordo para uso da base de Alcântara será anunciado.

Reprodução / Twitter Planalto
O presidente Bolsonaro chega a Washington para visita de 3 dias.

O presidente Jair Bolsonaro chegou na tarde deste domingo (17) a Washington para uma visita com peso simbólico importante, mas que, na prática, trará muito mais concessões do lado brasileiro do que do americano.

A principal prova disso é o anúncio que Bolsonaro fará da isenção de vistos para americanos - uma medida unilateral e que não encontra qualquer promessa de recriprocidade a curto ou médio prazo.

Ou seja: brasileiros continuarão precisando passar pelo processo de visto americano - atualmente com uma taxa de recusa de 12,7% para os solicitantes do País -, enquanto os americanos poderão embarcar para o Brasil sem um visto.

Nem mesmo um “meio-termo”, que seria a inclusão do Brasil no chamado “Global Entry”, que agiliza a entrada nos Estados Unidos de viajantes frequentes, como empresários, não deve ser fechado nesta semana. Hoje 11 países têm esse acordo com os EUA, entre eles Argentina e Colômbia.

O chanceler Ernesto Araújo defende a decisão de liberar a isenção de vistos unilateralmente como uma forma de fomentar o turismo no Brasil. O argumento é que um passo já tomado na facilitação da concessão de vistos a americanos - o adoção do visto eletrônico - já garantiu um maior fluxo para o Brasil.

Parte dos diplomatas, no entanto, considera a decisão um erro, já que tira qualquer poder de barganha do País para tentar negociar uma flexibilização sobre vistos do lado oposto também.

Um dos maiores defensores da decisão unilateral, ao lado de Araújo, o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filho do presidente e que acompanha Bolsonaro na viagem a Washington, sugeriu que os EUA estão certos em não liberar a isenção de vistos aos brasileiros. Ele assumiu a presidência da Comissão de Relações Exteriores da Câmara na última semana.

“Será que estou falando um grande absurdo ao dizer que, sem a necessidade de visto, várias pessoas entrariam nos EUA de maneira ilegal e ilegalmente permaneceriam lá? Acredito que não”, disse Eduardo.

Segundo ele, os brasileiros que vivem de forma ilegal nos Estados Unidos são “uma vergonha” para o Brasil.

“A pergunta que faço é a seguinte: quantos americanos vão vir morar ilegalmente no Brasil com essa brecha? E se os EUA permitirem que o brasileiro entre lá sem visto? Quantos brasileiros vão se passar por turista para vir morar ilegalmente aqui?”, afirmou, durante um evento em Washington, que antecipou a visita de Bolsonaro.

Além de EUA, o Brasil vai liberar unilateralmente a isenção de vistos para cidadãos de Japão, Austrália e Canadá.

Outro sinal de que a visita de Bolsonaro a Washington promete ser mais proveitosa para o lado americano é a decisão que a comitiva brasileira deve anunciar de derrubar as tarifas para importação de trigo americano.

Segundo a Folha de S. Paulo, o Brasil deve abrir uma cota, livre de tarifa de importação, de 750 mil toneladas de trigo, o que representa 10% do total das importações do cereal pelo Brasil.

Por outro lado, não há qualquer sinal de que os Estados Unidos pretendam rever o embargo à carne bovina in natura brasileira, imposto em 2017 por questões fitossanitárias. Tampouco há esperança de que o governo americano faça qualquer movimento no sentido de acabar com as barreiras tarifárias sobre o açúcar brasileiro.

 

Acordo para uso da Base de Alcântara

Um dos principais anúncios da visita deve ser o de um acordo de salvaguardas tecnológicas para a utilização comercial da Base de Alcântara, no Maranhão.

Os Estados Unidos tentam há 2 décadas fechar esse acordo com o Brasil, para que a base sirva de lançamento para satélites americanos. Estrategicamente posicionada próximo à linha do Equador, a base garante uma economia de até 30% de combustível nos lançamentos.

Neste caso, no entanto, a expectativa é que o acordo também seja bom para o Brasil. Segundo dados da Administração Federal de Aviação dos Estados Unidos, o mercado de lançamentos comerciais de satélites movimentou, apenas em 2017, cerca de US$ 3 bilhões.

O texto do acordo, no entanto, ainda precisará ser aprovado pelo Congresso. Em 2000, durante o governo FHC, um acordo para o uso americano de Alcântara foi barrado - inclusive com um voto contrário do então deputado Jair Bolsonaro à proposta.

O acordo que será apresentado durante a visita teria a duração de 1 ano - podendo ser renovado.

Temas importantes para o Brasil e para o setor empresarial como um acordo para o fim da bitributação e um avanço em negociações de livre comércio entre os dois países não devem ser abordados desta vez. O que é possível é que os dois presidentes falem em um protocolo de intenções no sentido de facilitar o comércio.

 

Programação terá almoço na Casa Branca 

Neste domingo, Bolsonaro participa de um jantar oferecido pelo embaixador brasileiro, Sérgio Amaral, na residência do diplomata.

A lista de convidados, no entanto, teria sido elaborada pelo diplomata Nestor Forster, um dos nomes apontados como possível substituto de Amaral à frente da embaixada, segundo a Folha de S. Paulo.

Entre os nomes que devem comparecer está o guru dos Bolsonaro, Olavo de Carvalho, que vive na Virgínia, e Steve Bannon, ex-estrategista de Donald Trump que foi expulso de seu governo mas ganhou força como líder da extrema-direita internacional.

Fundador do The Movement, grupo criado para rejeitar a “influência globalista” no mundo, Bannon nomeou Eduardo Bolsonaro como seu representante para a América do Sul.

Na segunda-feira (18), Jair Bolsonaro dará uma entrevista à rede de TV conservadora Fox News e discursará em um evento na Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos.

À noite, será a vez de jantar com empresários e investidores, entre eles a presidente da Boeing América Latina, Donna Hrinak, e Roy Harvey, CEO da Alcoa.

O dia mais aguardado, no entanto, é a terça-feira (19), quando ele será recebido por Trump e almoça na Casa Branca. A previsão é de que os dois presidentes falem com os jornalistas nos jardins da Casa Branca após o encontro.

Acompanham o presidente os ministros Paulo Guedes (Economia), Ernesto Araújo (Relações Exteriores), Augusto Heleno (GSI), Sergio Moro (Justiça), Tereza Cristina (Agricultura) e Ricardo Salles (Meio Ambiente).

 

Venezuela e OCDE não devem agradar os dois lados

A principal expectativa de Trump para o encontro é Venezuela, mas o governo brasileiro já disse que não apoia uma solução militar para o País vizinho.

A resistência vem, principalmente, dos militares brasileiros, que ainda mantêm um certo diálogo com os colegas venezuelanos - canal que pode ser fundamental na tentativa de uma solução pacífica para a crise.

Venezuela já era o tema prioritário com o Brasil para Trump desde que Michel Temer foi chamado pelo americano para um jantar em Nova York, com outros líderes sul-americanos, em 2017.

Mas se Trump não deve sair satisfeito do encontro em relação a Venezuela, o mesmo pode se dizer do governo brasileiro em relação ao seu pleito de ter o apoio americano à entrada do Brasil na OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico).

O apoio americano ao Brasil à entrada no seleto grupo, que seria fundamental para aumentar a credibilidade do País junto a investidores, encontra resistência entre assessores do presidente americano.

  

‘Deferências’ a Bolsonaro

O governo brasileiro, nos últimos dias, ressaltou os gestos simbólicos feitos pelo governo Trump que demonstram uma certa deferência a Bolsonaro durante a visita.

Uma delas é ter oferecido a Blair House, a casa de hóspedes da Casa Branca, para que o presidente brasileiro ficasse durante a visita. ”É uma honraria concedida a pouquíssimos chefes de Estado”, escreveu Bolsonaro no Twitter. 

No caso brasileiro, no entanto, os ex-presidentes Dilma Rousseff, Luiz Inácio Lula da Silva e Fernando Henrique Cardoso também se hospedaram na mansão próxima à Casa Branca. 

Outro gesto importante ao presidente brasileiro - que nunca escondeu publicamente sua admiração por Trump - é a coletiva de imprensa prevista para o Rose Garden, jardim da Casa Branca que fica entre o Salão Oval e a Ala Oeste, onde geralmente são feitos importantes anúncios pelos mandatários americanos.

Ali é possível que Trump anuncie que o Brasil se tornará um “aliado prioritário extra-Otan”, o que facilitaria o acesso a acordos de cooperação militar e tecnológica. Países como a Argentina, Israel, Japão e Coreia do Sul têm o mesmo status.

 

Em jantar, Olavo chama Mourão de ‘idiota’ e diz que governo ‘pode acabar em 6 meses’

Na noite de sábado (16), antes da chegada do presidente Bolsonaro, Bannon, Olavo e Eduardo Bolsonaro participaram de um evento no Trump International Hotel, próximo à Casa Branca, em homenagem ao guru brasileiro.

Olavo de Carvalho disparou mais uma vez contra o vice-presidente, general Hamilton Mourão, a quem chamou de “idiota”, e disse, na frente do filho do presidente, que se o governo Bolsonaro continuar como está, vai acabar “em seis meses”.

“Se tudo continuar como está, já está mal. Não precisa mudar nada para ficar mal. É só continuar isso mais seis meses e acabou”, disse Olavo.