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01/04/2020 13:11 -03 | Atualizado 01/04/2020 14:01 -03

Bolsonaro apaga tuíte em que atacava governadores com vídeo fake

Após pronunciamento brando, Bolsonaro postou vídeo em que homem criticava política de isolamento em Ceasa vazia em BH; Local estava em horário de limpeza, diz associação.

Ueslei Marcelino / Reuters

Após amenizar o tom do discurso no pronunciamento em rede nacional na noite de terça-feira (1º), o presidente Jair Bolsonaropostou um vídeo em que um homem criticava as medidas de isolamento tomadas por governadores ao mostrar a Ceasa de Belo Horizonte vazia. O vídeo foi logo desmentido pela Associação Comercial da Ceasa de Minas Gerais, que disse que as imagens foram feitas no momento de limpeza do local. No começo da tarde, Bolsonaro deletou a postagem.

Reprodução Facebook @jairmessias.bolsonaro
Presidente apagou esta postagem após repercussão.

“Não é desentendimento entre o Presidente e ALGUNS governadores e ALGUNS prefeitos / São fatos e realidades que devem ser mostradas / Depois da destruição não interessa mostrar culpados”, escreveu Bolsonaro no tuíte apagado. 

“Isso aqui se chama desabastecimento. Pra você que falou depois do discurso do presidente que economia não tinha importância, que o importante eram vidas, dá uma olhada nisso aí. Pois é, fome também mata”, diz o homem no vídeo em meio à Ceasa vazia.

A Associação Comercial da Ceasa de Minas Gerais negou o desabastecimento. O presidente da entidade, Noé Xavier, destacou que o vídeo foi gravado enquanto o galpão passava por limpeza e que os trabalho seguem.

Na postagem no Facebook, a associação ressalta estar seguindo “as orientações da Organização Mundial de Saúde e dos órgãos oficiais do governo, para que todas as pessoas que frequentam o entreposto sejam conscientizadas sobre a importância da prevenção ao novo coronavírus”. 

Antes do chefe apagar a postagem, o general Luiz Eduardo Ramos (Secretaria de Governo) defendeu a mensagem que Bolsonaro quis passar em entrevista ao jornalista José Luiz Datena, na rádio Bandeirantes.

“Importante ressaltar que o presidente tem as pessoas mais humildes, tem contatos que o mantém informado, direto do povo com o presidente da República. O que ele quer é mostrar justamente aquilo ali. O trabalhador do centro de abastecimento gravou o vídeo dizendo que está faltando, o que nos acende uma luz vermelha, e o Tarcísio [Gomes, ministro da Infraestrutura] já está tomando providencias sobre isso. Não se está anulando nada do que ele falou ontem. E outra coisa: ele, na sua personalidade, mostra a realidade do que está acontecendo.”

Na segunda-feira (30), o próprio ministro da Infraestrutura, Tarcísio de Freitas, negou que haja uma crise de desabastecimento. E, na terça, o ministro Sergio Moro (Justiça) repetiu o discurso e afirmou não haver motivo para “receios infundados”.

A ministra da Agricultura, Tereza Cristina, também tem afirmado reiteradas vezes que não há risco de desabastecimento. Há notícia no site do Mapa destacando que, apesar da crise do coronavírus, “as atividades de inspeção e fiscalização junto a estabelecimentos continuam sendo totalmente cobertas para manutenção do abastecimento público de produtos de origem animal”. 

Em sua fala à nação na véspera, Bolsonaro havia baixado o tom e dito que “toda vida importa”. Ele chegou a clamar, no fim, por um “pacto pela preservação da vida e empregos com o Parlamento, o Judiciário, governadores, prefeitos e a sociedade”. Poucas horas depois, antes das 8h desta quarta, postou o vídeo com críticas aos governadores. 

Proibição de campanha contra isolamento

O ministro Luís Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal, proibiu na noite de terça-feira (31) o governo do presidente de produzir ou veicular campanhas publicitárias que incentivem as pessoas a deixarem o isolamento.

A decisão do ministro atendeu a pedido feito pelo partido Rede Sustentabilidade e determinou ainda a suspensão da contratação de quaisquer campanhas neste sentido.

“Recebo a ação da Rede Sustentabilidade. Defiro a cautelar para vedar a produção e circulação, por qualquer meio, de qualquer campanha que pregue que O Brasil Não Pode Parar ou que sugira que a população deve retornar às suas atividades plenas, ou, ainda, que expresse que a pandemia constitui evento de diminuta gravidade para a saúde e a vida da população. Determino, ainda, a sustação da contratação de qualquer campanha publicitária destinada ao mesmo fim”, escreveu o ministro.

O governo Bolsonaro publicou em sua conta oficial no Instagram uma campanha intitulada “O Brasil Não Pode Parar”, na qual defendia a necessidade de as pessoas retornarem ao trabalho em meio à pandemia. Posteriormente um vídeo da campanha circulou nas redes sociais de apoiadores do presidente. A campanha custou 4,9 milhões de reais e a agência responsável por sua produção foi contratada sem licitação.

Embora a campanha tenha sido publicada na conta oficial do governo no Instagram ―e posteriormente apagada― e a contratação da agência sem licitação tenha sido publicada no Diário Oficial da União, a Secretaria de Comunicação da Presidência da República afirmou que “não há qualquer campanha do governo federal com a mensagem do vídeo sendo veiculada”. Disse ainda que o vídeo “foi produzido em caráter experimental” sem custos.