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27/06/2020 08:00 -03 | Atualizado 27/06/2020 15:37 -03

Bolsonaro faz tour pelo País para fugir de Brasília e se aproximar ainda mais do Centrão

Neste sábado, Bolsonaro foi de helicóptero para Minas Gerais em viagem fora da agenda; Aliados aproveitam visitas do presidente para mostrar influência à comunidade local.

Em estratégia semelhante à adotada em governos petistas, o presidente Jair Bolsonaro decidiu fazer um tour pelo País com a intenção de montar uma agenda positiva. Ao sair de Brasília, o presidente mira no afago a parlamentares do Centrão, nutre a base local e ainda sai do foco das crises sanitária, política e econômica.

O presidente iniciou a série de viagens com uma passagem por Penaforte, no Ceará, para protagonizar a cerimônia que marca a chegada das águas do Eixo Norte do projeto de integração do Rio São Francisco. Lá, posou ao lado dos mais recentes fiéis aliados e teve seu trabalho enaltecido. Do Centrão, estiveram presentes representantes de ao menos dois partidos, o PSD, com Domingos Neto, e o PL, com o Dr. Jaziel.

Além de acenar à base no Congresso, o presidente também reforçou seu apoio local e acenou a bolsonaristas cearenses. Deputados estaduais aproveitaram a visita para agradecer ao presidente e estampar sua imagem nas redes sociais.

O deputado estadual André Fernandes de Moura (PSL), por exemplo, enviou aos seus eleitores por WhatsApp um chamado para a inauguração das obras. “Venha recepcionar nosso presidente”, dizia trecho do convite. A mensagem afirmava ainda que “só um presidente cabra da peste vem trazer as águas do Velho Chico ao Ceará”.

Reprodução/WhatsApp

O deputado estadual Coronel Sandro (PSL-MG) foi mais claro na crítica ao governo PT, com o qual o bolsonarismo polariza. A paternidade da obra de transposição do São Francisco, iniciada no governo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, se tornou um dos alvos da narrativa dos aliados de Bolsonaro. Ao UOL, no entanto, o ex-ministro Pádua Andrade, que tocou a obra no governo de Michel Temer, afirmou que entregou à gestão atual a obra “94% pronta”.

Divulgação

Os bolsonaristas aproveitaram para bombar o feed com muitas imagens ao lado do “mito”. O deputado estadual Delegado Cavalcante (PSL) disse ser grato ao presidente por não deixar “tão importantes obras pararem”. Bolsonaro, então, respondeu que está cumprindo promessa de campanha. “Desde o início do governo disse que não deixaríamos obras paradas. E é uma novela enorme, né, que está chegando ao fim”, afirmou o mandatário.

Reprodução/Instagram

Essa aproximação de apoiadores é diferente do que vinha ocorrendo nos últimos dias, quando o presidente deixou de atender a militância bolsonarista em frente ao Palácio do Alvorada. Ele chegou a ignorar a claque por dois dias seguidos, quando o amigo Fabrício Queiroz foi preso e o escândalo da “rachadinha” que envolve seu filho, senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ), voltou aos holofotes. 

Em Brasília, o presidente vinha sendo alvo de queixas e cobranças também por causa da crise do novo coronavírus e dos inquéritos das fake news e da organização e do financiamento de atos antidemocráticos. No Ceará, Bolsonaro conseguiu manter silêncio sobre as crises, como aconselham os integrantes de seu núcleo mais próximo.

Em busca de criar mais notícias positivas, o presidente seguirá o périplo. Entre as próximas paradas está o Tocantins, segundo a Folha de S.Paulo. A reportagem diz que o Ministério da Infraestrutura se prepara para apresentar mais sugestões de destino ao chefe. Há uma lista com ao menos 30 obras para serem inauguradas. Em suas redes sociais, o presidente já partiu para a propaganda de seus supostos feitos:

A estratégia de aproximação do Centrão, no entanto, desagrada à ala mais ideológica de sua base. O ideólogo Olavo de Carvalho condenou publicamente o novo comportamento do presidente.

‘Escapada’ para Minas Gerais 

Neste sábado, Bolsonaro fez uma viagem que não estava programada na agenda oficial: ele pegou o helicóptero presidencial e voou até Araguari, a 391 km de Brasília.

Obrigado por decisão judicial a usar máscara em espaços públicos no Distrito Federal (sob pena de pagar multa de R$ 2 mil), Bolsonaro circulou sem o aparato pelas ruas do município mineiro – e pegou crianças no colo, em meio à pandemia do novo coronavírus. 

A razão apontada pela assessoria para a viagem foi uma visita ao 2º Batalhão Ferroviário Mauá, onde cantou o Hino Nacional. Bolsonaro ainda ficou por cerca de 30 minutos no acostamento da BR 050, acenando para apoiadores por entre os carros e caminhões, enquanto crianças, escoltadas por policiais rodoviários, atravessavam a rodovia para abraçá-lo. Ele havia descido de helicóptero às margens da BR.

Reprodução/ Facebook
Sem máscara, Bolsonaro segura no colo criança que atravessou a rodovia.

Segundo o jornal O Globo, acompanharam o presidente na viagem o ministro de Infraestrutura, Tarcísio de Freitas, o pastor Wilbert Golden Batista, o deputado federal Cabo Junio Amaral (PSL-MG) e o diretor-geral da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), Alexandre Ramagem.

Velha política

Sair de Brasília quando a crise política aperta é uma recurso ao qual os ex-presidentes Lula e Dilma Rousseff, do PT, recorreram em momentos distintos. No auge do escândalo do mensalão, Lula deixou a pressão de Brasília e fez um tour pelo País a fim de evitar responder sobre o escândalo e de afagar o eleitorado.

Em agosto de 2005, um dos destinos do petista também foi o Tocantins. Lá, posou para fotos ao lado de políticos e eleitores do estado, aproveitou para atacar o governo anterior, mas não deu uma palavra sobre a crise política que enfrentava. Antes de ir ao Norte, o ex-presidente esteve em Pernambuco.

Na época, o escândalo da compra de votos na Câmara dos Deputados chegou a abalar a popularidade do presidente, mas aliados consideram que tirá-lo do centro da crise ajudou a aliviar o tamanho da queda na avaliação. Tanto que Lula foi reeleito em 2006.

Mesma estratégia foi aconselhada pelo próprio Lula à sucessora Dilma Rousseff. Em 2015, com a popularidade em queda livre, a então presidente atendeu à recomendação e iniciou uma série de viagens também pelo Nordeste, como fez Bolsonaro nesta semana.

“Nas viagens Dilma deverá listar obras do governo federal nas localidades que visitará e tentar transmitir a imagem de que o governo não está paralisado”, diz trecho de uma nota publicada à época. No caso da ex-presidente, a viagem não resultou em melhora em sua avaliação. Ela acabou sofrendo impeachment pouco mais de um ano depois.