COMIDA
30/07/2019 02:00 -03

O que Bolsonaro não entendeu sobre veganismo e meio ambiente

Presidente afirmou no fim de semana que "só veganos que comem vegetais" se importam com o meio ambiente. Decidimos, então, explicar a ele o que é veganismo.

Na metralhadora verbal do presidente Jair Bolsonaro das últimas semanas, uma declaração que chamou atenção foi de nutricionistas e ambientalistas sobre veganismo. Durante sua aparição em um evento do Exército na zona oeste do Rio de Janeiro, Bolsonaro reafirmou no fim de semana a vontade de transformar a baía de Angra dos Reis, que hoje é uma área protegida como Estação Ecológica de Tamoios, em uma “Cancún brasileira”. 

Questionado por jornalistas sobre o impacto ambiental da medida, Bolsonaro então respondeu:

Só aos veganos que comem só vegetais [há impacto ambiental] (...) Outros países com baía não tão exuberante como a de Angra conservam o meio ambiente.

O presidente não só erra ao falar que apenas veganos se importam com o meio ambiente ― uma afirmação totalmente infundada ― como também cita o veganismo de forma pejorativa. 

De certo nesta fala só há o fato de que, realmente, vegano come vegetais. E, sim, muitos deles se importam com o meio ambiente, mas não necessariamente. Decidimos apresentar alguns dados ao presidente sobre o veganismo e por que cada vez mais pessoas estão aderindo ao movimento. 

O que é ser vegano, afinal?

OatmealStories via Getty Images

Antes de tudo, veganismo é uma filosofia ou um estilo de vida pautado sobre o fundamento dos direitos dos animais, ou seja, reconhecer que todos os animais têm o direito de viver e ter uma boa vida ― que não é gerada, concebida, vivida e assassinada para ser usufruída por humanos. A ONG Sociedade Vegana resume os interesses gerais dos animais:

“A continuidade de sua própria vida, a liberdade e autonomia para buscar os meios para sua sobrevivência e seu bem-estar, e não serem utilizados como recursos ou meios para fins humanos, tendo sua existência propósito em si mesma.”

Ser vegano é mais efetivo para salvar o planeta do que andar de bike ou economizar no papel 

Esqueça o carro elétrico, andar de bicicleta ou reciclar seu lixo. A melhor maneira de salvar o planeta é reduzindo drasticamente seu consumo de carne.

Um estudo publicado na revista especializada Nature em 2018 alertou que uma grande redução no consumo de carne é necessária para evitarmos mudanças climáticas: precisaríamos diminuir em 90% o consumo de carne e substituir por mais grãos e leguminosas

A produção de carne é considerada uma das principais causadoras do aumento da temperatura da Terra: a produção destes alimentos gera gases do efeito estufa, destrói florestas e ainda usa quantidades insustentáveis de água.

Além de todo o impacto ambiental, a carne vermelha e laticínios correspondem por apenas 18% de todas as calorias alimentares disponíveis e por cerca de um terço das proteínas.

Ou seja: se pensar bem, não faz muito sentido continuar a comer carne. E ela não é necessária para nossa sobrevivência. 

Ser vegano não é só comer “planta”

Claro que um vegano vai comer alimentos de origem vegetal, mas isso não quer dizer que ele vai só comer salada o dia inteiro. Nem é preciso gostar de alface para aderir ao veganismo. 

A verdade é que, uma vez retirados alimentos de origem animal do cardápio, abre-se um enorme leque de outros alimentos que geralmente são subvalorizados por carnívoros, como sementes, castanhas, grãos e verduras que possuem bastante proteína. 

Alguns exemplos de fontes de proteína vegetal são grão-de-bico, feijões, lentilha, tofu, quinoa, castanhas (amendoim, pistaches), chia, brócolis, soja etc. 

E ser vegano não é, necessariamente, comer saudável o tempo todo. Inclusive pipocam cada vez mais hamburguerias veganas no Brasil que têm lanches incrivelmente tentadores ― e sem sofrimento animal

Divulgação/Animalchef
Dá para acreditar que este hambúrguer é 100% vegano? Ele é servido na hamburgueria Animalchef, que não utiliza um único ingrediente de origem animal. 

Veganos são, em maioria, mais saudáveis que carnívoros (e também mais magros)

Isso não é uma novidade, mas vale destacar o poder de uma alimentação baseada em vegetais para a nossa saúde. 

Uma pesquisa feita nos Estados Unidos revelou que o consumo regular de carne vermelha aumenta o risco de uma pessoa ter ataque cardíaco e doenças vasculares, como pressão alta. Na contramão, um outro estudo revelou que vegetarianos e veganos são menos hipertensos do que aqueles que consomem carne.

Associação Americana de Diabetes divulgou uma pesquisa mostrando que pessoas que seguem uma dieta vegetariana diminuem o risco de síndrome metabólica, um conjunto de fatores de risco ligados ao diabetes tipo 2 e doenças cardiovasculares. Os participantes que evitaram consumir produtos com carne tiveram pressão arterial menor, assim como os níveis de açúcar no sangue e triglicérides controlados.

O consumo de carne vermelha (como de boi, porco e cordeiro) em excesso também pode facilitar o desenvolvimento de câncer no intestino (cólon e reto), segundo um informativo publicado pelo Inca (Instituto Nacional do Câncer). Isso ocorre porque essas carnes contêm grandes quantidades de ferro heme, nutriente essencial ao corpo mas que, em excesso, pode ter efeito tóxico sobre as células.

Além de tudo isso, uma dieta rica em vegetais, legumes e frutas também favorece a manutenção do peso, uma vez que estes alimentos são ricos em fibras, um nutriente fundamental para regular nosso intestino. Carne vermelha, por sua vez, causa constipação e aquela sensação de “pesado”.

Ser vegano não é só sobre não comer animais

Claro que veganismo é, em grande parte, manifestado pela alimentação, mas não somente isso. Partindo do pressuposto de defender o direito dos animais, e tentando banir de seu dia a dia tanto exploração quanto a apropriação deles, o veganismo propõe “a abolição do consumo de todos os produtos e atividades que implicam exploração animal”.

Isso significa que o vegano não usará um casaco ou bota de couro ou de peles, não utilizará cosméticos e outros produtos testados em animais, não fará comércio de animais domésticos exóticos ou silvestres, e também não se utilizará de trabalho animal, como tração e transporte.  

Existem mil e uma razões para ser vegano

O tópico acima são apenas diretrizes de uma vida sem a exploração animal, mas isso não quer dizer que você deve seguir à risca tudo isso.

Você pode, por exemplo, deixar de comer alimentos de origem animal porque é contra a atual indústria de carnes, por exemplo, ou por causa do sofrimento animal, ou mesmo somente pelo meio ambiente, uma vez que, como dito antes, abolir carne do cardápio é a melhor maneira de preservar o planeta. 

E sim, você pode ser carnívoro e mesmo assim se preocupar com o meio ambiente 

pum_eva via Getty Images

O fato de você se preocupar com o meio ambiente nada tem a ver com a escolha de ser vegano ou não. Você pode ser contra o desmatamento da Amazônia, ser a favor do Acordo de Paris e criticar o desmatamento ilegal da agricultura e pecuária no Brasil, e mesmo assim, consumir carne de vez de vez em quando.

Aliás, debater questões ambientais não deve ficar apenas entre simpatizantes. Um artigo publicado na revista Nature revelou que o aquecimento do planeta já é o maior evento climático em 2 mil anos. As mudanças climáticas dos últimos anos são as mais altas já observadas. 

Algumas das consequências do aquecimento global são: desertificação de áreas, alteração do regime das chuvas e intensificação das secas, escassez de água, alterações de ecossistemas e redução da biodiversidade. 

Veganismo ainda é uma filosofia de vida vista como “radical” para muitos. Se você não quer abrir mão do queijo, iogurte ou mesmo de um hambúrguer em momentos esporádicos, saiba que existem outros movimentos que têm como missão reduzir o consumo de alimentos de origem animal.

Você pode ser ovo-lacto-vegetariana, dieta que bane apenas carne, mas permite o consumo de alimentos de origem animal, como produtos lácteos, ovos, manteiga, mel.

Se ainda é difícil deixar de comer carne, você pode experimentar o flexitarianismo, dieta baseada em vegetais, mas que permite o consumo ocasional de carne.

Qualquer movimento para diminuir o consumo de carne é benéfico para o meio ambiente e sociedade. 

Segundo previsões do Instituto de Recursos Mundiais (WRI), se consumidores de carne reduzissem o consumo semanal para 1,5 porção, seria possível diminuir as emissões de gases do efeito estufa e impedir que florestas se tornem terras de cultivo. “Esta é solução mais promissora e mais realista”, afirmou Timothy Searchinger, principal autor do relatório do WRI e pesquisador da Universidade Princeton, à Reuters. 

Hoje, enquanto americanos e europeus consomem do dobro da porção de carne recomendada, os brasileiros ingerem o triplo.

Tá vendo, presidente?! Informação é indispensável para declarações corretas e coerentes com a realidade.