POLÍTICA
07/03/2019 02:00 -03 | Atualizado 07/03/2019 17:17 -03

Twitter polêmico de Bolsonaro integra estratégia de mobilização, diz especialista

Presidente postou vídeo com conteúdo pornográfico e perguntou o que era "golden shower" na rede social.

Montagem/AP
Os tuítes polêmicos fazem parte da persona do presidente Jair Bolsonaro.

A postagem de um vídeo com conteúdo obsceno pelo presidente Jair Bolsonaro (PSL), em seu perfil do Twitter, gerou repercussão tanto entre críticos quanto entre apoiadores. A motivação do presidente era expor um caso específico que aconteceu durante o Carnaval de rua para criticá-lo e convidar os brasileiros a “tirarem as suas próprias conclusões”.

Para o pesquisador Pablo Ortellado, professor do curso de Gestão de Políticas Públicas da USP, tuítes com esse tipo de conteúdo ou com a pergunta sobre golden shower (prática sexual) fazem parte da estratégia de engajamento e comunicação de Bolsonaro.

″[Ele] tem o entendimento de que apelar para certas temáticas mobiliza a base e faz que a mensagem se expanda”, explica, em entrevista ao HuffPost Brasil.

“Se o Bolsonaro quer se comunicar com o seu público, ele não consegue fazer isso de uma forma mais sóbria, seguindo a liturgia do cargo. É por isso que ele se coloca como se estivesse em campanha permanente.”

Na percepção do professor, a crítica aos casos isolados e “chocantes” do Carnaval cumpre o papel de “atribuir à comunidade LGBT a destruição da civilidade e da decência e de antagonizar com um Carnaval que foi marcadamente anti-Bolsonaro.”

Principal alvo das marchinhas do Carnaval, o presidente retoma as mesmas estratégias usadas na campanha presidencial e inspiradas no presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para reforçar a dinâmica da polarização e manter as suas bases de apoio em agitação permanente.

Leia os principais trechos da entrevista:

HuffPost Brasil: O modo como o presidente utiliza as redes sociais faz parte de uma estratégia ou apenas expõe a sua personalidade?

PabloOrtellado: Eu não sei o quanto isso tem de planejado ou de espontâneo. Se eles [Jair Bolsonaro e os seus filhos] vão fazendo isso de uma maneira somente intuitiva ou se têm conhecimentos de causa. De qualquer jeito, tem o entendimento de que apelar para certas temáticas mobiliza a base, faz que a mensagem se expanda e faz que seja necessário manter os grupos de apoio mobilizados permanentemente.

Isso faz que Bolsonaro replique o mesmo comportamento que teve durante a campanha? Mesmo que hoje seja o presidente do País e que deva governar para todos, não apenas para os seus eleitores...

É a mesma estratégia que ele usou na campanha. Ele segue o [Donald] Trump, faz exatamente a mesma coisa. Se elegeu mobilizando as bases conservadoras, dividindo o eleitorado e aumentando a adesão da sua base ao seu próprio discurso. É uma estratégia que é bem-sucedida eleitoralmente e que ele continua a replicar. 

Se o Bolsonaro quer se comunicar com o seu público, ele não consegue fazer isso de uma forma mais sóbria, seguindo a liturgia do cargo. Se ele opta por uma comunicação desse tipo, a mensagem não trafega na rede social. É por isso que ele se coloca como se estivesse em campanha permanente.Pablo Ortellado, pesquisador da USP

Por que é importante manter essa polarização do País?

Manter essa tensão é importante. Isso é reflexo da opção que o governo faz em tratar como antagonistas os meios de comunicação de massa. Os veículos podem enviar diversos tipos de mensagem para a sua audiência, não precisam ficar mobilizando apenas um grupo. As pessoas ligam a televisão para assistir ao jornal, abrem os sites para ler as notícias, existe uma distribuição que tem uma certa autonomia.

Nas redes sociais você não tem isso. Para uma mensagem se difundir, você precisa fazer que a pessoa que recebe a mensagem aperte o botão de compartilhar. E ela só vai fazer isso se ela estiver movida por um sentimento muito forte, seja de medo, raiva, indignação ou entusiasmo. Ou seja, você precisa ficar mobilizando constantemente, senão a mensagem não tem alcance. 

Se o Bolsonaro quer se comunicar com o seu público, ele não consegue fazer isso de uma forma mais sóbria, seguindo a liturgia do cargo. Se ele opta por uma comunicação desse tipo, a mensagem não trafega na rede social. É por isso que ele se coloca como se estivesse em campanha permanente.

De algum modo, esses tuítes polêmicos retiram o foco de atenção de temas mais importantes que estão sendo discutidos no governo?

Eu acho que se ele for inteligente, ele vai usar essa estratégia das redes para desviar o foco de atenção do que está sendo realizado no governo. Mas nesse caso específico do tuíte sobre o vídeo do Carnaval, acho que não foi essa a intenção... Foi só para mobilizar.