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07/09/2019 16:56 -03 | Atualizado 07/09/2019 16:59 -03

Bolsonaro testa popularidade no desfile de 7 de setembro

Sem manifestação em Brasília, presidente quebrou protocolos, desceu da tribuna, andou entre as arquibancadas e, por fim, despediu-se dependurado na porta do carro.

EVARISTO SA via Getty Images
O presidente Jair Bolsonaro e seu ministro da Justiça, Sergio Moro, participam do Desfile do Dia da Independência em Brasília.

Ao quebrar o protocolo, descer do palanque interrompendo a cerimônia em comemoração à Independência do Brasil e caminhar por um trecho breve da avenida N1 onde ocorreu o desfile de 7 de setembro em Brasília, o presidente Jair Bolsonaro quis observar se seu pedido para que a população vestisse verde e amarelo havia sido acatado. Confirmou. 

Quis saber mais: as recentes polêmicas sobre Amazônia, Polícia Federal, escolha do novo procurador-Geral da República, por exemplo, abalaram sua popularidade, como mostraram pesquisas recentes? O DataFolha desta semana apontou aumento de 5% em sua reprovação. Foi aplaudido, ovacionado. Retornou ao seu lugar para não atrasar o restante da cerimônia. 

Ao final do desfile não se conteve. Mas segurou, deixou a tribuna presidencial, entrou no carro fechado em que deveria apenas seguir até o fim do percurso, já no Ministério da Economia, como é praxe. O presidente, contudo, chegou a entrar no veículo, mas recuou. Abriu a porta e, em pé, com o carro em movimento e apoiado pelos seguranças, fez o restante do trajeto dando tchau e sorrindo. E também, claro, ouvindo aplausos e gritos de “mito”. 

Segurança

As quebras de protocolo preocuparam a segurança. Enquanto Jair Bolsonaro caminhava e acenava para os apoiadores, uma dezena de homens também de terno, que bem poderiam ser confundidos com assessores, corriam em torno dele, dos ministros da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro, e da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, que o acompanharam. 

Em alerta também ficaram os snipers - atiradores de elite - posicionados estrategicamente pela Esplanada - especialmente naqueles pontos mais perto da tribuna em que estava o presidente, como da Infraestrutura -, em cima dos ministérios. De acordo com a assessoria do Planalto, a presença desse tipo de profissional, é comum no evento, mas o gesto do presidente, não. 

EVARISTO SA via Getty Images
Ao lado de Bolsonaro no desfile de 7 de setembro estavam o apresentador de TV Silvio Santos (R) e o bispo evangélico Edir Macedo.

Com menos susto foi a chegada, pouco antes das 9h, no Rolls Royce presidencial, que é usado desde 1952. Bolsonaro chegou à tribuna presidencial, onde recebeu autoridades e também o empresário Silvio Santos e o bispo Edir Macedo, ao lado do filho Carlos, como na posse. Menos surpresa, mas não atenção. Foi também uma situação inusitada, como no primeiro dia do governo. 

Todas essas quebras de protocolo, o mandatário reconheceu, representam um “risco”. “Os seguranças ficam um pouco preocupados aqui, mas é um pequeno risco que a gente corre. E a gente acredita que isso aí, esse pequeno risco ajuda a despertar o sentimento patriótico do povo brasileiro”, disse ao retornar para o Palácio da Alvorada após a cerimônia. 

Ainda no sábado, o presidente embarca para São Paulo para se internar no hospital Vila Nova Star, onde será operado no domingo (8) para a retirada de uma hérnia incisional, decorrência da facada da qual foi vítima há exato um ano e um dia. 

Protestos

Longe dali, a cerca de 3 km, no estacionamento da Torre de TV, uma manifestação convocada pela UNE (União Nacional dos Estudantes) não reuniu muitas pessoas. Bolsonaro teve quase 70% de votos no Distrito Federal. 

Com a #Dia7DePretoNasRuas, a entidade convocou as pessoas para irem às ruas de preto, com os rostos pintados de verde e amarelo, como os caras pintada da época do impeachment do ex-presidente Fernando Collor em 1992. 

Em outras cidades, porém, os protestos ganharam força. Caso de São Paulo, Salvador (BA), Recife (PE), Belo Horizonte (MG). 

Na sexta (6),Bolsonaro protagonizou um embate com as organizações que representam os estudantes ao dizer que carteira digital de estudantes lançada em cerimônia no Palácio do Planalto evita socialismo nas universidades. 

A UNE e outras entidades que também se juntaram ao #Dia7DePretoNasRuas, porém, já haviam chamado as manifestações “em defesa da Amazônia e contra os cortes de recursos na educação”. 

Fãs

Ariene Lira Moreno, 87, saiu de João Pessoa, Paraíba, na última quarta (4) apenas para ver o desfile de 7 de setembro e, quem sabe, “chegar perto do mito”. “Fiz campanha para ele [Jair Bolsonaro], gritei, pulei. E se precisar, faço tudo de novo”, relatou ao HuffPost a entusiasta que antes das 6h30 de sábado já tinha tomado seu lugar na arquibancada mais próxima da tribuna presidencial a que a população podia ter acesso. 

Bolsonaro chegou a poucos metros de lá quando desceu do palanque presidencial e caminhou por uma parte das arquibancadas. Passou, por exemplo, pela fileira dos alunos do Colégio Militar de Brasília e demais que receberam convites distribuídos pelo Governo o Distrito Federal. Mas não chegou às tribunas populares. Antes de retornar ao palanque presidencial, o mandatário parou em frente à banda, tomou a batuta do maestro e brincou de reger os músicos.

Ariene estava alguns metros mais distante. Era a arquibancada mais próxima da tribuna presidencial para a população. Quando a reportagem chegou por ali, às 6h36, ela já estava em seu lugarzinho e, antes mesmo do início, a senhora de 87 anos já demonstrava animação aplaudindo de pé os carros da Polícia Federal que passavam em frente aonde estava.

“O Bolsonaro vai deixar o Brasil pronto para o [Sérgio] Moro governar em 2023”, respondeu Ariene Moreno, orgulhosa, após ser questionada se teria dificuldades de escolher entre presidente e o atual ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro, na eleição de 2022. 

Foto: Débora Álvares
Ariene Lira Moreno acompanhou o desfile de 7 de setembro de 2019 em Brasília

A paraibana não tem família em Brasília e ficou em um hotel no centro da capital federal. Não se arrependeu da viagem, nem do voto. “Se eu tivesse que fazer tudo de novo, eu fazia. O Brasil precisava de um cabra bom desse, com força. Só um doido como ele para mudar as coisas”, afirmou a bolsonarista convicta que, mesmo não obrigada a votar há mais de 15 anos, faz questão de ir às urnas sempre. 

Enquanto Bolsonaro burlava os protocolos pela primeira vez na cerimônia, o policial militar Stênio Mesquita, 49, e a estudante Valclecine Nunes, 30, disseram não saber do pedido do presidente para usar verde e amarelo. “Cheguei aqui e fiquei querendo estar com a minha camisa amarela”, disse o PM. 

Também sem arrependimentos, Mesquita acredita que o presidente “só não está conseguindo governar do jeito que prometeu por causa do Congresso e do STF (Supremo Tribunal Federal)”. 

Foto: Débora Álvares
Stênio Mesquita e Valclecine Nunes acompanharam o desfile de 7 de setembro de 2019 em Brasília

Para ele, Bolsonaro não erra ao “dizer o que pensa”. “Ele foi eleito falando o que acha, xingando. Então não pode mudar. Não pode fazer banho-maria do jeito dele”, completou o militar, para quem a imprensa trabalha contra o presidente porque “está perdendo dinheiro com a gestão dele”. 

Manifestação silenciosa

Claro que entre as mais de 20 mil pessoas presentes no desfile na Esplanada dos Ministérios, nem todos eram eleitores de Jair Bolsonaro e estavam ali para prestigiá-lo. 

Aldeir da Conceição, 32, vendedor, era um deles. Com seus três isopores com água e refrigerantes - “Nem consegui vender tudo”-, conta que não votou no Bolsonaro, porque não acredita “tão fácil nas pessoas”. “Você está vendo alguma coisa melhorar? Porque para mim não melhorou nada. E pelo que eu acompanho ai, só vai piorar”. 

Morador da Vila Planalto, bairro vizinho ao Palácio da Alvorada, onde mora o presidente, Aldeir reclamou dos preços no mercado e disse que está mais difícil para criar os dois filhos pequenos. Preferiu não se identificar na foto, “porque, você sabe... A gente que é pobre sempre sofre mais perseguição”.