OPINIÃO
15/05/2020 17:16 -03 | Atualizado 15/05/2020 18:34 -03

Bolsonaro e a crônica de nossa morte anunciada

Se o 3º ministro da Saúde de Bolsonaro defender as mesmas ideias que ele, o prognóstico é uma tragédia.

Montagem/Getty Images
A estratégia de Bolsonaro ante a pandemia de coronavírus é a crônica de uma tragédia anunciada.

O que o Brasil vive hoje é a crônica de uma morte anunciada. Mas é da nossa morte que estamos falando. Já somos o 6º país em número de infecções pelo novo coronavírus e óbitos causados por ele. Com assustadora velocidade, a curva de contaminações cresce e aproxima o Brasil da Itália e da Espanha. Já somos o novo epicentro da doença no mundo, com mais de 202 mil casos e cerca de 14 mil mortes — e contando... Nosso temor por aqui, porém, é ainda maior por causa de nosso presidente.

A cruzada anticiência de Jair Bolsonaro já derrubou 2 ministros da Saúde, preocupa políticos de diversos matizes, à direita e à esquerda, choca os profissionais da saúde, e assusta os brasileiros que vemos dia a dia pessoas mais próximas a nós contraírem o vírus ou morrerem de covid-19.

A obsessão do presidente e de sua família por liberar a cloroquina para tratar a doença, a despeito de todas as evidências científicas contrárias a universalizar a medicação e de todos os riscos já apontados em hospitais, reflete o desprezo pela ciência, pela medicina, e o apego exclusivo a suas vontades, a suas ideias autoritárias.

Bolsonaro desrespeitou sistematicamente seus ministros da Saúde, desobedeceu às diretrizes da OMS (Organização Mundial da Saúde) — ao convocar manifestações nas ruas, participar de aglomerações e sair cumprimentando as pessoas — e, com suas decisões, parece atentar contra a saúde pública. Enquanto para boa parte dos brasileiros o isolamento já virou rotina há mais de 2 meses, o presidente trava uma batalha contra o distanciamento social e o confinamento, medidas adotadas no mundo inteiro para conter a propagação do vírus. 

Temendo os efeitos da pandemia na economia brasileira e, portanto, na sua popularidade e em seu projeto de reeleição em 2022, Bolsonaro quer as pessoas na rua trabalhando. Defendeu a reabertura de salões de beleza, barbearias, academias. Declarou guerra aos estados e seus governadores, que não querem relaxar as medidas restritivas. 

Essas mensagens contrárias, transmitidas pelo presidente, de um lado, e governadores, de outro, confundem a população. Em São Paulo, apoiadores de Bolsonaro fazem buzinaço em frente a hospitais contestando o isolamento social e pedem a cabeça do governador João Doria. Negacionistas xingam infectologistas, agridem enfermeiras, vocalizam que a covid-19 é, sim, uma “gripezinha”.

“O sinal trocado [das ordens] compromete o isolamento”, ressaltou o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, ex-aliado de Bolsonaro que rompeu com ele justamente por causa do novo coronavírus. 

Com menos isolamento e mais gente reunida fora de casa, mais vai se prolongar esta fase crítica de contaminações e mortes. Se o 3º ministro da Saúde de Bolsonaro defender as mesmas ideias que ele, o prognóstico é um pesadelo.

O estado do Amazonas já está em colapso da rede pública de saúde. Faltam caixões, e os enterros em valas comuns nos cemitérios de Manaus se tornaram cenas corriqueiras. Diversas cidades no Rio de Janeiro, Ceará e Paraíba também estão com a capacidade hospitalar esgotada devido à sobrecarga de pacientes com covid-19.

Estados Unidos, Reino Unido, Espanha, Itália e França, que encabeçam o ranking das mortes, adotaram planos firmes de isolamento social para frear o ritmo de infecções — inclusive com lockdown. O Brasil teve tempo de se preparar para combater a doença; afinal, apenas em 13 de março, foi constatada transmissão comunitária no País, semanas depois da Europa.

A estratégia de vigilância em saúde, montada pelo time do ex-ministro Luiz Henrique Mandetta e reforçada por Nelson Teich, foi baseada na experiência internacional no controle da epidemia. Entretanto, o próprio presidente minou nosso aparato contra a doença. Ele deseduca pelo exemplo.

O coronavírus deveria ser nosso inimigo comum, mas Jair Bolsonaro virou algoz no enfrentamento da pandemia no País.

O que o Brasil vive hoje é a crônica de uma tragédia anunciada.