POLÍTICA
27/04/2019 02:00 -03

'O presidente está indo na contramão da História', diz presidente da Sociedade Brasileira de Sociologia

Proposta de Bolsonaro e MEC de reduzir recursos para cursos de Sociologia e Filosofia deixa pesquisadores em alerta.

Adriano Machado / Reuters
Para Bolsonaro, é prioridade investir em cursos que “gerem retorno imediato ao contribuinte, como: Veterinária, Engenharia e Medicina”. 

O apoio do presidente Jair Bolsonaro à ideia do ministro da Educação, Abraham Weintraub, de reduzir os recursos públicos para cursos de ciências humanas deixou em alerta a academia brasileira. Para o presidente da Sociedade Brasileira de Sociologia, professor da Universidade de Brasília (UnB) Carlos Benedito, a decisão mostra que o presidente não tem “conhecimento da realidade da área”.

″É uma declaração extremamente criticável porque demonstra não ter o mínimo conhecimento do que as ciências sociais fazem. É de uma equipe de obscurantistas que está governando este País, hostil à ciência”, criticou Benedito.

Vários países têm editais para fazer políticas públicas com engenheiros, químicos, físicos e chamam sociólogos para integrar esses projetos porque eles têm impactos sociais econômicos para as populações.Carlos Benedito, presidente da Sociedade Brasileira de Sociologia

O professor lamentou as diretrizes do atual governo. “Estamos indo contra uma tendência mundial de apoiar as ciências, sejam naturais ou sociais. A posição do ministro e do presidente estão na contramão da História. É o que posso dizer com muita tristeza e indignação: estamos hoje em uma situação onde o País está começando a dar marcha ré. ”

No Facebook e no Twitter, o presidente e o ministro endossaram a ideia de investir em cursos que “gerem retorno imediato ao contribuinte, como: Veterinária, Engenharia e Medicina.”

Na avaliação do professor, o governo deveria fomentar uma universidade pública forte, com liberdade de pesquisa. “Isso está sendo complicado porque sempre aparece notícia colocando em julgamento, em suspeição, as universidades, os educadores”.  

Entre os exemplos negativos citados por Benedito está uma declaração do presidente de que poucas universidades no Brasil fazem pesquisa. A informação não é correta; o Brasil está entre os 15 países que mais produzem estudos científicos no mundo. ”É um desconhecimento absurdo dos rankings das universidades. São declarações que fazem parte de uma estratégia muito bem calculada para desarticular as universidades públicas, desqualificá-las perante à população, para ameaçar e amedrontar.”

Hostilidade

Não é a primeira vez que o ministro da Educação faz ataques às ciências sociais. Em entrevista ao príncipe e hoje deputado federal Luiz Philippe Bragança em 2018, com a proposta de apresentar o plano de governo de Bolsonaro, Weintraub ligou os cursos de Sociologia à esquerda e à proliferação do “marxismo cultural”.  

Para Benedito, as ciências sociais no Brasil são hostilizadas por quem confunde antropologia e sociologia com ideologia e opiniões comuns.

“A Sociologia é uma ciência como a Física, como a Química, como a Biologia, tem procedimentos rigorosos com seu modo de proceder a realidade. Hoje, ela tem uma condição muito importante em todos os países do mundo, com contribuição muito importante no sentido de fornecer subsídios para elaboração de políticas públicas.”