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15/10/2020 11:18 -03 | Atualizado 15/10/2020 17:06 -03

Como o dinheiro nas nádegas do vice-líder do governo no Senado impacta Bolsonaro

Operação ocorre 1 semana depois de Bolsonaro dizer que acabou com a Lava Jato por não ter corrupção em seu governo. Na manhã desta quinta, Planalto tirou senador da vice-liderança.

Reprodução/ Twitter
Bolsonaro já disse ter “quase uma união estável” com senador após mais de 20 anos trabalhando juntos no Congresso.

Uma semana depois de dizer que havia acabado com a operação Lava Jato porque não tem mais corrupção no governo, o presidente Jair Bolsonaro agora tem que lidar com o fato de um de seus vice-líderes no Senado ter sido pego com dinheiro na cueca. Horas depois, na manhã desta quinta (15), Bolsonaro tentou se afastar do escândalo, e o Planalto exonerou o senador Chico Rodrigues (DEM-RR) do posto. 

Em uma operação realizada na quarta-feira (14) em Boa Vista para apurar desvio de recursos para enfrentamento da covid-19 em Roraima, a Polícia Federal encontrou cerca de de R$ 30 mil em dinheiro vivo na casa do senador. Parte do valor estava escondido entre as nádegas do parlamentar, segundo informou a revista Crusoé. 

Na tarde desta quinta-feira (15), o ministro Luís Roberto Barroso, do STF (Supremo Tribunal Federal), responsável por autorizar a operação, determinou ao Senado o afastamento de Chico Rodrigues por 90 dias. A decisão final cabe ao plenário do Senado. 

A operação caiu como uma bomba no Planalto. A dispensa foi publicada no meio da manhã em edição extra do Diário Oficial, e informa que a exoneração foi a pedido do senador. Não foi apontado ainda um substituto.

Horas antes, Bolsonaro – eleito com o discurso anticorrupção e de combate à “velha política” – disse que a operação da PF é “típica do seu governo” e é prova de que não há proteção de ninguém. “Não tem corrupção no meu governo e combatemos a corrupção, seja de quem for. Vocês estão há quase dois anos sem ouvir falar em corrupção no meu governo.”

“Lamento o desvio de recurso, seria bom que não houvesse, porque, afinal de contas, quando você desvia dinheiro da saúde, inocentes morrem, então a operação de ontem é fator de orgulho para o meu governo”, disse Bolsonaro a apoiadores no Alvorada, segundo O Globo.

“Se um vereador faz algo de errado, eu não tenho nada a ver com isso. Ou melhor, eu tenho para ir para cima dele, com a Polícia Federal se for o caso, com o apoio da CGU, é isso que nós fazemos”, afirmou.

No entanto, será difícil descolar o presidente da imagem do senador, com quem Bolsonaro já disse ter “quase uma união estável” após mais de 20 anos trabalhando juntos no Congresso. O sobrinho de Bolsonaro, Léo Índio, que é muito próximo do primo Carlos Bolsonaro, vereador pelo Rio, é assessor de Chico Rodrigues.

O episódio remeteu ao caso do então assessor do irmão de José Genoino (presidente do PT na época), que foi preso no aeroporto de Congonhas com US$ 100 mil na cueca e R$ 200 mil em uma bolsa. Em julho de 2005, José Adalberto Vieira da Silva, assessor do então deputado estadual José Guimarães (PT-CE), foi preso com o dinheiro que seria de propina, fruto de vantagens ilegais obtidas pelo consórcio Sistema de Transmissão do Nordeste S/A.

Sete anos depois, o STJ (Superior Tribunal de Justiça) livrou José Guimarães, que então já era vice-líder do governo, da acusação de improbidade administrativa por envolvimento no caso. Mas Genoino deixou o comando do PT dois dias depois do episódio no aeroporto.

O dinheiro na cueca  

A operação foi requerida pela subprocuradora-geral da República Lindôra Araújo e autorizada pelo STF, tendo a diligência sido informada ao gabinete do ministro Luís Roberto Barroso, responsável por autorizar a ação, segundo fontes.

A Polícia Federal não quis comentar detalhes da diligência por ter sido realizada em segredo de Justiça.

Em nota divulgada na quarta, a PF informou que a corporação e a Controladoria-Geral da União haviam deflagrado a “Operação Desvid-19” com o objetivo de desarticular possível esquema criminoso voltado ao desvio de recursos públicos, oriundos de emendas parlamentares. Segundo a corporação, os valores eram destinados ao combate à pandemia do covid-19, no âmbito da Secretaria de Estado de Saúde de Roraima.

A nota disse ainda que policiais federais foram às ruas cumprir sete mandados de busca e apreensão em Boa Vista por ordem do Supremo.

Rodrigues foi eleito para uma das duas vagas do Senado em 2018, na esteira da renovação política, derrotando um dos mais experientes parlamentares do Congresso, Romero Jucá, então candidato à reeleição e à época presidente do MDB. Jucá era um dos principais alvos da Operação Lava Jato.

O atual senador, de 69 anos, já foi vice-governador e governador por mandato tampão, além de deputado federal e vereador.

Em nota, o senador disse acreditar na Justiça, afirmou que a PF “cumpriu sua parte em fazer buscas em uma investigação na qual meu nome foi citado”, mas disse que teve seu “lar invadido por apenas ter feito meu trabalho como parlamentar, trazendo recursos para o combate ao Covid-19 para a saúde do Estado”.

“Digo a quem me conhece que, fiquem tranquilos. Confio na justiça, vou provar que não tenho, nem tive nada a ver com qualquer ato ilícito. Não sou executivo, portanto, não sou ordenador de despesas, e como legislativo sigo fazendo minha parte trazendo recursos para que Roraima se desenvolva. Que a justiça seja feita e que se houver algum culpado que seja punido nos rigores de lei”, afirmou o senador na nota. 

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