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29/03/2020 12:31 -03 | Atualizado 30/03/2020 20:48 -03

Bolsonaro ignora Ministério da Saúde, vai às ruas e cumprimenta comerciantes

Após ser confrontado por ministro Mandetta, presidente volta a defender fim do isolamento, abertura de igrejas e eficácia da cloroquina.

Reprodução @jairbolsonaro
Presidente ignora Ministério da Saúde e sai às ruas.

Em meio à pandemia de coronavírus, o presidente Jair Bolsonaro, 65 anos, foi para a rua neste domingo (29), contrariando orientações do ministro Henrique Mandetta. Em dois centros comerciais em bairros próximos ao centro de Brasília, Taguatinga e Ceilândia, o mandatário cumprimentou comerciantes e voltou a defender que trabalhos não devem ser interrompidos, igrejas precisam ser mantidas abertas. Ele também reafirmou que a cloroquina é sim eficaz no tratamento da covid-19. 

Apenas serviços essenciais estão funcionando no Distrito Federal por conta de um decreto do governador Ibaneis Rocha que limita a circulação local. Ainda assim, conforme relatos de pessoas que estavam com o presidente, ao notar a comitiva presidencial, muitas pessoas se aproximaram e formou-se uma aglomeração. 

O próprio Bolsonaro compartilhou em suas redes sociais vídeos de trechos de conversas com comerciantes. “O que eu tenho conversado com o povo, eles querem trabalhar. É o que eu tenho falado desde o começo. Vamos tomar cuidado, a partir dos 65 fica em casa”, disse a um vendedor de churrasquinho em Taguatinga. 

Ainda acrescentou: “Aquele remédio lá, a hidroxicloroquina, está dando certo em tudo quanto é lugar.” 

Já em Ceilândia, em frente a uma padaria, recebeu o pedido para não fechar igrejas e disse que já tinha atendido a isso, mas a Justiça limitou sua decisão, garantindo que haverá recurso. 

Esta semana, ele colocou igrejas e lotéricas como atividades essenciais complementando um decreto. No caso dos templos religioso, atendeu a pedidos da bancada evangélica, uma aliada desde o início do mandato. A Justiça, porém, derrubou a medida. 

Em um outro vídeo divulgado no qual critica a imprensa por estar nas ruas também, acompanhando seus passos, o presidente reforça mais uma vez seus discurso e, no lugar de falar do coronavírus como uma pandemia, mais uma vez se refere à covid-19 como uma “gripe”. 

“A luta toda não é para evitar o contágio pela infecção, porque ela virá. Esse esforço que está sendo feito, o preço que vai ser pago lá na frente, na minha opinião, é que vai ser enorme para o Brasil. Temos 38 milhões de pessoas que vivem na informalidade. Uma parte considerável perdeu o emprego, não tem poupança , não tem mais nada na geladeira, e a gripe infelizmente virá”, afirmou, acrescentando ainda que não vai “desautorizar ninguém”. 

Bolsonaro, porém, não quis comentar as carreatas marcadas em várias cidades do País para este domingo e segunda (30) em defesa do fim do isolamento, e que já vem acontecendo desde semana passada. Ele próprio e seus filhos, conforme aliados seus reportaram ao HuffPost, têm compartilhado e estimulado as ações. 

Mais tarde, ao retorna ao Palácio da Alvorada, o presidente disse que foi conhecer as necessidades do povo e negou ter feito qualquer anúncio de sua visita às cidades satélites. 

“Essa é uma realidade, o vírus tá aí. Vamos ter que enfrentá-lo, mas enfrentar como homem, porra. Não como um moleque. Vamos enfrentar o vírus com a realidade. É a vida. Tomos nós iremos morrer um dia. Queremos poupar a vida? Queremos, na parte da economia, o Paulo Guedes tá gastando dezenas de bilhões de reais, que é do Orçamento, que é dinheiro do povo, se bem que nem dinheiro é. Pegamos autorização do Congresso para estourar o teto, que vai ser paga essa conta lá na frente. Tem mulher apanhando em casa. Por que isso? em casa que falta pão, todos brigam e ninguém tem razão. Como é que acaba com isso? O cara quer trabalhar, meu Deus do céu. É crime?  

Acrescentou ainda que pensa em editar um decreto para permitir isso aos informais, contudo, sem dar detalhes. “Estou com vontade de baixar um decreto amanhã. Toda e qualquer profissão legalmente existente ou aquela que é voltada para a informalidade, se for necessária para levar sustento para seus filhos, para levar um leite para seus filhos, arroz e feijão para sua casa, vai poder trabalhar”.

Especialistas, porém, já destacaram que é de competência de estados e municípios definir o funcionamento de estabelecimentos comerciais. 

No fim da tarde, o filho Eduardo Bolsonaro foi às redes sociais defender o passeio do pai.

As falas e a atitude de Bolsonaro neste domingo vão vigorosamente ao encontro do que disse seu ministro da Saúde neste sábado (28), que se posicionou a favor do isolamento social e ressaltou que não está na hora de reabrir as portas de comércio. 

Mandetta também destacou que a cloroquina deve ser usada apenas em casos graves, caso contrário pode provocar “arritmia cardíaca e paralisar a função do fígado”. Disse ainda que a substância ainda está em fase de estudo e, no País, é utilizada para tratar outras doenças, como malária. 

Auxiliares mais próximos já esperavam que o mandatário não recebesse bem o discurso do ministro da Saúde na coletiva à imprensa no sábado. Na ocasião, o chefe da pasta rebateu, ponto a ponto, o que o mandatário vem pregando desde o início da crise do coronavírus, o que fontes disseram ao HuffPost que Bolsonaro considerou um “confronto direto” da parte de Mandetta.