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17/01/2020 16:10 -03

Bolsonaro não queria demitir Alvim, mas foi convencido após ligação de Alcolumbre

Também pesou desgaste com comunidade judaica, que ainda não viu se concretizar a promessa de transferir embaixada brasileira de Tel Aviv para Jerusalém.

Adriano Machado / Reuters
Presidente do Senado, Davi Alcolumbre, telefonou para Jair Bolsonaro e cobrou a demissão. Até então, o mandatário não estava convencido da necessidade disto. 

Pessoalmente, o presidente Jair Bolsonaro não achou um problema a declaração do agora ex-secretário da Cultura Roberto Alvim, em que ele apostou na retórica nazista. Por volta de 10h, quando a repercussão negativa já estava a todo vapor, o mandatário inclusive estava postando em seu Twitter um vídeo em que anda de jet ski e ignorava o assunto.

O presidente mudou de ideia por dois motivos: o acirramento da relação com a comunidade judaica e um telefonema do presidente do Senado, Davi Alcolumbre, que é judeu e pediu a cabeça de Alvim. 

Nos bastidores, Bolsonaro chegou a comentar que não havia motivos para o afastamento e que todo o “barulho” era “coisa da esquerda”.

Ele só mudou de ideia no fim da manhã, após receber um telefonema de Alcolumbre, que está no interior do Amapá. O senador sentiu-se ofendido e exigiu uma atitude de Bolsonaro. O parlamentar ouviu do presidente que a esquerda estava exagerando, mas que reconhecia que o ainda secretário havia feito uma “declaração infeliz”. Ainda na ligação, porém, Alcolumbre recebeu a garantia de que Roberto Alvim seria afastado. 

Cerca de uma hora e meia depois, o Palácio do Planalto emitiu uma nota em que confirmou a demissão, assinada pelo presidente Jair Bolsonaro. O mandatário, que não tem base consolidada no Congresso Nacional, vê nos chefes das duas Casas - o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, também havia pedido o afastamento de Alvim - dois importantes suportes e aliados de suas principais agendas, as reformas econômicas.

Quando se começou a debater como lidar com a situação, antes da ligação de Alcolumbre, a ideia era não mencionar de forma alguma o vídeo em que o ex-secretário repete parte do discurso de Joseph Goebbels, ministro da Propaganda da Alemanha nazista. 

Bolsonaro, contudo, foi instado por seu núcleo próximo a manifestar “repúdio” e acenar à comunidade judaica. “Reitero nosso repúdio às ideologias totalitárias e genocidas, bem como qualquer tipo de ilação às mesmas. Manifestamos também nosso total e irrestrito apoio à comunidade judaica, da qual somos amigos e compartilhamos valores em comum”, destaca o texto.

Relação com os judeus

Mais cedo, antes da decisão da demissão, auxiliares já haviam convencido Bolsonaro de que ele já vem esticando demais a corda com a comunidade judaica e que precisaria, ao menos, se manifestar a respeito. Começaram, então, a delinear uma manifestação. 

Desde a época da campanha, o presidente fala em mudar a Embaixada do Brasil em Tel Aviv para Jerusalém. O discurso oficial é que, para acalmar os ânimos, a saída encontrada foi abrir um escritório da Apex (Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos) em Jerusalém. 

Segundo fontes do Planalto e do Itamaraty ouvidas pelo HuffPost, na época da inauguração do escritório, porém, ele defendeu que seria um primeiro passo para a transferência da embaixada. Houve claro, repúdio da comunidade judaica.