POLÍTICA
01/04/2019 07:09 -03

Bolsonaro resiste a participar de esforço pela articulação política

Se evitar presidencialismo de coalizão, Bolsonaro irá “perder todo o capital politico que tem e virar um pato manco”, alerta cientista político.

ASSOCIATED PRESS
Enquanto ministros e líderes do governo se reúnem com integrantes da base, agenda do presidente está fechada para parlamentares.

Eleito com o discurso de “mudar tudo o que está aí”, o presidente Jair Bolsonaro resiste a melhorar a articulação política, enquanto ministros e líderes no seu entorno tentam afinar a relação com o Congresso Nacional. Até o momento, o ex-deputado se mantém distante do esforço liderado por seus assessores.

Desde que a crise no relacionamento entre Executivo e Legislativo ficou evidente, com a paralisação da reforma da Previdência, deputados responsáveis pela liderança do governo têm se empenhado em apaziguar o clima. Aliados do presidente relatam, contudo, que Bolsonaro está fora dessa força-tarefa.

Após críticas da base, o capitão da reserva decidiu abrir a agenda e irá receber nesta semana, após retornar de Israel, presidentes de 5 partidos: PRB, PSDB, MDB, PP e DEM.

A abertura, contudo, é limitada. Diferentemente do ex-presidente Michel Temer, que costumava ter audiências com parlamentares, o capitão da reserva resiste à proximidade.

Em entrevista à TV Bandeirantes, ele disse que essa função é de sua equipe. “O que o pessoal reclama é mais a aproximação. Eu não posso atender a quantidade de parlamentares”, disse. “Esse contato que o pessoal cobra não tem como atender. Nenhum presidente conseguiu atender dessa forma”, completou.

O presidente embarcou para Israel no sábado (30), onde fica até a quarta-feira (3). Na última semana, foi ao cinema na terça-feira (26), em evento fora da agenda oficial. Na quarta-feira (27), fez uma viagem a São Paulo.

Marcos Brandão/Senado Federal
Ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, prometeu rodada de conversas mensais no Congresso e disse que presidente Bolsonaro irá receber presidentes de partidos.

No mesmo dia, 7 integrantes do primeiro escalão participaram de audiências públicas no Congresso. O ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, além de dar explicações na Comissão de Assuntos Sociais (CAS) do Senado, teve 7 audiências com parlamentares no dia.

Outros integrantes da Esplanada também têm aberto as portas. Na última quarta, Gustavo Canuto (Desenvolvimento Regional) recebeu 8 deputados. De acordo com governistas, o plano é haver reuniões periódicas com representantes do Legislativo.

O ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, anunciou que o governo fará uma rodada de atendimentos no Congresso uma vez por mês. Ele passou a última quarta em reuniões com parlamentares. Foi uma resposta a críticas de lideranças da Câmara à sua atuação, considerada tímida, na articulação.

 

Toma lá, dá cá

Após encontro com Onyx, o líder do governo no Senado, Fernando Bezerra Coelho (MDB-PE), disse que a nova equipe do Planalto ainda tenta acertar como será esse relacionamento. “O presidente também está começando a definir os critérios que vão prevalecer nessa relação de parceria entre os partidos representados na Câmara e no Senado e seu governo”, afirmou a jornalistas.

Nesse ajuste em curso, algumas expressões se tornaram tabu entre aliados de Bolsonaro. Ainda que não envolva qualquer tipo de conduta ilícita, alguns evitam usar o termo “articulação política”.

Assessores do presidente ouvidos pela reportagem afirmam que o Planalto está disposto a uma aproximação com o Congresso, mas não aceita “toma lá, dá cá”. De acordo com a deputada Bia Kicis (PSL-DF), vice-líder do governo no Congresso, ao usar a expressão, entende-se, por exemplo, a nomeação para cargos que levem a esquemas de corrupção ou para aumentar o poder regional de políticos em autarquias ou agências reguladoras, por exemplo.

Kicis descartou que a intenção seja uma mudança radical na forma de fazer política para um novo modelo baseado no apoio da população ao Executivo para pressionar o Congresso a aprovar medidas. A própria popularidade do presidente está em queda, segundo pesquisa Ibope divulgada em 20 de março.

Will Shutter/ Câmara dos Deputados
Para Bia Kicis (PSL-DF), fim do "toma lá dá cá" é acabar com nomeaçõa de cargos que levem a esquemas de corrupção ou para aumentar o poder regional de políticos.

Para o professor do Departamento de Ciência Política da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) Carlos Ranulfo Melo, essa estratégia de mobilização popular não funciona em tempos de normalidade institucional. “Seria loucura imaginar que ele vai ficar mobilizando a população para pressionar o Congresso. Tem que haver um clima de convulsão social, uma certa crise política para que isso aconteça. Mobilização só pelo Twitter não vale”, afirmou à reportagem.

Na avaliação do especialista, não há uma “nova política” a ser construída.

É uma bobagem. Não existe fazer política sem fazer política. Fazer política significa negociar, ceder, conversar, coisa que não é do estilo do presidente.Carlos Ranulfo Melo, cientista político

Nesse cenário, há duas alternativas, na visão de Mello: ou Bolsonaro ceder ao presidencialismo de coalizão - o que irá contrariar o discurso de campanha e provocar um desgaste na base - ou as propostas do governo não vão avançar. “Vai perder todo o capital político que tem e vai virar um pato manco, um governo que não governa”, resumiu.

 

28 anos e 2 projetos aprovados

Nos 28 anos como deputado federal, Jair Bolsonaro só conseguiu aprovar 2 projetos. Nessas quase três décadas, o capitão da reserva se empenhou nos discursos combativos e deixou de lado as negociações. É por meio de conversas que os parlamentares chegam a acordos sobre o conteúdo das propostas e conseguem que elas avancem.

“O Bolsonaro é prisioneiro do seu discurso e da sua própria concepção. Ele tem uma vivência de quase 30 anos de Congresso onde foi um deputado obscuro e completamente alheio à vida parlamentar. Onde ele, além de não aprender muita coisa, formou uma opinião negativa sobre aquilo ali, até como defesa da sua própria rejeição”, afirmou Carlos Ranulfo Mello.

Se essa postura não rendeu um desempenho expressivo no Legislativo, garantiu a vitória na corrida presidencial.

A insistência no discurso de campanha, com críticas à chamada “velha política”, contudo, é visto como ofensa por parlamentares. “Não pode simplesmente agir até com certo desprezo com os políticos”, reclamou o senador e ex-presidente do PSDB, Tasso Jereissati, após reunião com Onyx na última quarta.

O Bolsonaro é prisioneiro do seu discurso e da sua própria concepção. Ele tem uma vivência de quase 30 anos de Congresso onde foi um deputado obscuro e completamente alheio à vida parlamentarCarlos Ranulfo Melo

Há uma cobrança também por coerência na defesa da reforma da Previdência. Ao mesmo tempo em que governistas pregam que Propostas de Emenda à Constituição (PEC) é a espinha dorsal do novo governo, o presidente diz que “no fundo, não gostaria de fazer a reforma”, em referência à impopularidade da medida.

 

Ataques nas redes sociais

Integrantes da base avisam que o esforço de ministros e líderes do governo não irá adiantar se os ataques nas redes sociais e em declarações à imprensa seguirem. “Não dá para ficar dialogando por Twitter e por Facebook. É preciso conversar”, disse o líder do MDB no Senado, Eduardo Braga (MDB-AM).

Após uma semana de desgaste, Bolsonaro disse, em entrevista à TV Bandeirantes, na última quarta, que o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ) estava “um pouco abalado com questões pessoais que vêm acontecendo” em sua vida, em referência à prisão de seu sogro, o ex-ministro Moreira Franco, na semana anterior.

O democrata respondeu que o presidente está “brincando de presidir o País” e que “abalados” estão os brasileiros que aguardam que o governo federal “comece a funcionar”.

Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil
Rodrigo Maia disse que Bolsonaro está “brincando de presidir o País” e que “abalados” estão os brasileiros que aguardam que o governo federal “comece a funcionar”.

Aliados do presidente minimizam a postura e acham que há um exagero nas reações. “O presidente Bolsonaro, ao longo da sua história política, sempre disse que em alguns momentos deu algumas caneladas. Ele, naquela sua simplicidade, humildade, diz ‘poh, desculpe aí, ok?’. Ele é assim”, respondeu Onyx a jornalistas após o embate.

A mesma visão é compartilhada por parlamentares próximos ao presidente. Uma deputada afirmou à reportagem que políticos estão expostos a críticas e não deveriam se ofender com publicações em redes sociais.

Outro motivo de incômodo da base, a atuação do filho do presidente, vereador Carlos Bolsonaro (PSC-RJ), na internet, também é um assunto evitado pelo entorno do governo. Aliados dão a entender que é um movimento descolado do trabalho de articulação que tem sido feito por líderes e ministros.