POLÍTICA
19/08/2019 12:26 -03

Contra interferência de Bolsonaro na Receita, Sindifisco ameaça demissão em massa

Sindicato diz que auditores fiscais estão ‘sofrendo uma onda de ataques sem precedentes’.

ASSOCIATED PRESS
Presidente reclamou que desde o ano passado vem sendo alvo de devassa da Receita.  

Além da crise com a Polícia Federal após tentativa de interferência, o presidente Jair Bolsonaro também provocou problemas com a Receita Federal com a ameaça de exonerar o superintendente da instituição no Rio de Janeiro, Mário Dehon, o delegado da alfândega do porto de Itaguaí, José Alex de Oliveira, e a chefe da Delegacia da Receita da Barra da Tijuca, Adriana Trilles.

O sindicato dos auditores fiscais (Sindifisco) ameaça uma demissão coletiva, de cerca de 200 cargos, caso a troca seja concretizada. A arrecadação, de cerca de R$ 1,5 trilhão por ano, ficaria prejudicada até o governo promover novos chefes e fazer a máquina voltar a funcionar.

Segundo auditores, o secretário da Receita Federal, Marcos Cintra, teria enviado uma ordem para exoneração de Dehon, o que teria como consequência o afastamento dos dois dois servidores.

O porto sob comando de Oliveira é apontado em investigações como provável armazém do poderio bélico da milícia e do tráfico no Rio. Segundo auditores, ele tem feito um trabalho de limpeza que teria reduzido de 70% para 17% o número de operadores na região com histórico de envolvimento em algum tipo de fraude.

Os problemas mais graves do porto, segundo relatos de auditores ao jornal O Globo, são a saída de drogas para a Europa e a chegada de armas dentro de contêineres provenientes da Ásia.

De acordo com o jornal, Oliveira divulgou um comunicado em um grupo de aplicativo de mensagens para alertar que “forças externas que não coadunam com os objetivos de fiscalização” da Receita.

O episódio provocou reação nos auditores e Cintra recuou sobre a demissão. 

A movimentação ocorreu após os presidente reclamar que desde o ano passado vem sendo alvo de devassa da Receita.

Em nota, o Sindifisco diz que os auditores “vêm sofrendo uma onda de ataques sem precedentes” e conclamou filiados a uma manifestação na próxima quarta-feira (21).

Além da possível interferência no Rio, o texto cita a “suspensão de investigações da Receita Federal para blindagem de agentes públicos, a mordaça imposta ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), os injustos questionamentos do Tribunal de Contas da União (TCU) quanto à remuneração dos auditores, os puxadinhos à Lei do Abuso de Autoridade, as tentativas de ingerência políticas do alto do Planalto e as consequentes exonerações e afastamento de servidores”.

A medida provisória que transfere o Coaf para o Banco Central deve levar à demissão do presidente do conselho, Roberto Leonel, que criticou decisão do presidente do STF (Supremo Tribunal Federal), Dias Toffoli, que suspendeu investigações baseadas em relatórios do Coaf sem autorização judicial para esse compartilhamento de dados. A decisão beneficia o filho do presidente, senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ).