NOTÍCIAS
11/03/2020 07:23 -03 | Atualizado 11/03/2020 09:35 -03

Apelo à retórica é estratégia de Bolsonaro para inflar base e protesto de domingo

Após avaliação do Planalto de que manifestações em sua defesa estariam perdendo força, presidente partiu para o ataque: urnas, coronavírus, imprensa e economia.

Adriano Machado / Reuters
Presidente convocou população a participar de protestos no próximo domingo, disse que são pelo Brasil, e reforçou retórica de chantagem.

Com a aproximação da manifestação convocada por apoiadores do governo, o presidenteJair Bolsonaro tem intensificado a frequência de declarações polêmicas. Nos últimos dois dias, o presidente disse que houve fraude nas eleições e que ele foi eleito no primeiro turno, que os problemas que levaram à pior queda da bolsa em duas décadas são “uma fantasia” e, claro, convocou a população para o ato. 

Para parte da classe política, o mandatário não só tenta desviar o foco das crises na qual o Brasil está inserido como tenta inflamar seus apoiadores para os protestos de domingo (15). 

Os discursos do mandatário vieram dias após os parlamentares manterem o veto presidencial 52, do Orçamento. Em contrapartida, em um acordo com o governo, houve a repartição entre o Congresso e a União dos R$ 30 bilhões que estavam em discussão. Nas negociações, como mostrou o HuffPost na semana passada, até cargos entraram na jogada

A avaliação no Planalto é que, no fim das contas, a articulação com o Congresso acabou expondo o presidente à sua base de apoio e o submeteu a um discurso dúbio: de quem rechaça a “velha política”, mas se rende a negociações com o parlamento. 

Monitoramentos feitos pelo Planalto passaram a apontar que poderia haver uma menor adesão às manifestações. Aliados e oposicionistas também monitoram as redes por meio de consultorias e tiveram as mesmas impressões. 

Os atos do dia 15 de março têm sido considerados um termômetro da força e da imagem de Bolsonaro em pouco mais de 14 meses de governo. 

Foi isso que levou Bolsonaro à decisão de fazer a convocação para as manifestações na parada que fez em Roraima no sábado, rumo aos Estados Unidos.

O presidente tem reiterado o discurso de que os protestos não são de ataques ao Congresso, mas em apoio a ele e ao Brasil. 

Nas redes sociais, contudo, as pautas vão de “fora Maia e fora Alcolumbre” a críticas ao STF (Supremo Tribunal Federal) e até ao fechamento do Congresso. Com a manifestação do presidente sobre a possibilidade de ter sido eleito em primeiro turno, abre-se espaço para que isso isso também seja levado às ruas.

Retórica controversa

Embora diga que não se tratam de atos contra nenhuma instituição, em nenhum de seus discursos desde sábado o presidente deixou de mencionar algum ponto que considera “fraco” com o Congresso.

Ao invocar as manifestações, por exemplo, disse que os presidentes da Câmara e do Senado poderiam se manifestar contra os projetos de lei enviados pelo Executivo, com aval dele próprio, em análise no Congresso, após negociações pela manutenção do veto. 

Entre integrantes do chamado centrão, a mensagem foi entendida como uma “chantagem” do presidente, uma espécie de “ameaça”, e não contribui para amenizar ânimos e melhorar a relação. Além disso, congressistas analisam que, ao se referir desta forma aos chefes do Legislativo, Bolsonaro incita sua militância contra Rodrigo Maia e Davi Alcolumbre. 

Os protestos de domingo, dia 15 de março, surgiram na esteira da retórica do general Augusto Heleno (Gabinete de Segurança Institucional) para quem os parlamentares “chantageiam” o governo e querem implementar um “parlamentarismo branco”. Ceder aos apelos do parlamentares faz perder o sentido do pleito. 

Bolsonaro partiu então para o ataque. O primeiro veio no sábado (7), com um chamado público à população para participar dos protestos, a caminho dos Estados Unidos. Disse que já levou “facada no pescoço dentro do gabinete por pessoas que não pensam no Brasil, pensam neles apenas”. 

Em Miami, Bolsonaro decidiu colocar em xeque, como já havia feito anteriormente, a confiabilidade das urnas eletrônicas. “Pelas provas que tenho em minhas mãos, fui eleito no primeiro turno. No meu entender, teve fraude. Não temos apenas palavras, temos comprovado, em breve vou mostrar”, disse na noite de segunda (9). 

Na terça (10), em meio às rotineiras críticas à imprensa, o mandatário minimizou a extensão do coronavírus e da crise econômica. “Durante o ano que se passou, obviamente, tivemos momentos de crise. Muito do que tem ali é fantasia. A questão do coronavírus, que não é isso tudo que a grande mídia propaga”, disse em um evento em Miami. 

O presidente também afirmou que o impacto da queda no preço do petróleo foi aumentado pela mídia. “Alguns da imprensa conseguiram fazer de uma crise a queda do preço do petróleo. Entendo que daria muito mais… é melhor cair 30% do que subir 30% o preço do petróleo. Mas isso não é crise”, completou. 

Na segunda, os receios do coronavírus e os desabamentos do preço do petróleo com os embates entre Rússia e Arábia Saudita na OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo), bolsas em todo o mundo despencaram. A Ibovespa suspendeu as atividades após uma queda superior a 10%, voltando a operar em seguida, mas fechando o dia com declínio de 12,1%, o maior desde 1998. O dólar também passou o dia operando em alta e fechou em R$ 4,72. 

Na terça, como analistas financeiros já esperavam, devido à instabilidade do momento, bolsas em todo o mundo operaram em alta. No Brasil não foi diferente. O Ibovespa subiu 7% e o dólar caiu e fechou a R$ 4,64. 

Segundo a colunista Mônica Bergamo, da Folha de S.Paulo, estudos mostram que Bolsonaro é atingido pela pauta econômica, mas favorecido quando muda de assunto. “A consultoria Arquimedes coletou 208 mil manifestações de 2 a 6 de março sobre PIB: 81,16% eram desfavoráveis ao governo”, escreveu a colunista nesta terça (10).

Congresso tenta não inflar movimento

O presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), um dos principais alvos dos protestos de domingo, evitou polemizar ainda mais as declarações de Bolsonaro na terça e disse que não vai “jogar lenha nesta fogueira”. “Se nós entrarmos nesse conflito, vamos estar ajudando o governo a jogar o Brasil numa recessão”, disse. 

Na avaliação dele, os conflitos entre os poderes em 2019 contribuíram para o crescimento de 1,1% do PIB, inferior aos 2,5 projetados inicialmente pelo mercado financeiro. ”É óbvio que esses conflitos, para quem vai investir a médio e longo prazo, geram uma insegurança e certamente tiveram parte de culpa na queda da projeção do investimento e no resultado final do investimento”.  

Em parte da oposição, o momento também é de cautela nas reações. PSB, PDT, Rede, PV têm a mesma análise sobre o tamanho das manifestações e não fizeram estardalhaço no fim de semana em torno da fala do presidente. Avaliou-se que isso poderia dar força ao seu chamado. 

Para alguns parlamentares do PT, porém, é necessário haver uma resposta contundente do Congresso. Para o deputado José Guimarães (PT-CE), Bolsonaro está “provocando a democracia” e o Congresso tem que “reagir”. “Se for o caso, temos que rediscutir tudo. A relação está muito incestuosa. A economia está derretendo e o governo não faz nada, não anuncia nenhum plano. Fazia tempo que não víamos tamanha irresponsabilidade.” 

O senador petista Humberto Costa (PE) falou em “crime de responsabilidade” em suas redes sociais. 

Nos bastidores, os presidentes do Supremo, Câmara e Senado, Dias Toffoli, Rodrigo Maia (DEM-RJ), e Davi Alcolumbre (DEM-AP), estão em contato para deliberar um discurso único sobre a convocação feita por Bolsonaro, evitar polemizar mais, e inflamar os protestos. 

EVARISTO SA via Getty Images
Ramos é responsável pela articulação política com o Congresso e, junto com Paulo Guedes, participou das articulações que terminaram no polêmico acordo. 

Briga pelo orçamento

É neste cenário turbulento que os parlamentares retomam as discussões em torno do acordo feito com o governo da divisão de R$ 30 bilhões que, no Orçamento de 2020, havia inicialmente ficado com os parlamentares, mas vetado por Bolsonaro.

Na semana passada, os congressistas mantiveram o veto 52, mas, em contrapartida, o governo enviou projetos de lei no quais, entre outras coisas, reparte o valor em questão com deputados e senadores. 

Enquanto Bolsonaro tenta se desvincular do acordo e afirma - ele e o clã bolsonarista - que não houve negociações, a tentativa palaciana é colar no ministro Luiz Eduardo Ramos, da Secretaria de Governo, a responsabilidade pela combinação. 

O ministro da Economia, Paulo Guedes participou das conversas em que a repartição dos R$ 30 bilhões foi acertada, mas ele também se esforça para se afastar da crise. De um lado, o ministro palaciano diz que não entende de economia. Do outro, Guedes diz ao chefe que a palavra final dos acordos com o Congresso cabe ao colega. 

Carlos Bolsonaro fez uma postagem nas redes sociais no domingo (8) entendido como um recado contra as negociações.

No entanto, na segunda-feira que antecedeu a votação dos vetos pelo Congresso, dia 2 de março, Davi Alcolumbre esteve no gabinete presidencial  com o próprio Bolsonaro, que endossou o acordo que estava sendo costurado por sua equipe. Os detalhes - com quantos projetos ele se daria, qual seria o discurso, etc - foram acertados depois. Porém, nada é feito sem anuência do presidente. 

Por trás das verbas que o governo acabou cedendo, estão acertos em torno das futuras reformas tidas como prioritárias pela gestão - em especial, a tributária e a administrativa.

Não há garantias de que os PLNs sejam votados ainda esta semana pelo Congresso. A CMO (Comissão Mista de Orçamento) começou a discutir as propostas nesta terça e tinha a intenção de fazer a votação no plenário no mesmo dia. A sessão no colegiado, contudo, foi suspensa após problemas técnicos com os microfones. 

Parte da oposição e bolsonaristas são contra a repartição deste recurso e defendem que os R$ 30 bilhões devem ser inteiros geridos pelo Executivo. 

O deputado Júlio Delgado (PSB-MG) acredita que a situação de instabilidade econômica generalizada pode “deixar o clima pesado para votar o tema esta semana”: “Por se tratar de questão orçamentária”. 

Nas redes sociais, o senador Renan Calheiros (MDB-AL) manifestou-se contra os PLNs e reforçou o discurso do presidente sobre “facada no pescoço”. 

O senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP) também já se manifestou a favor da manutenção dos R$ 30 bilhões com o Executivo, ou seja, pela derrubada dos PLNs. 

Eleições nos EUA
As últimas pesquisas, notícias e análises sobre a disputa presidencial em 2020, pela equipe do HuffPost