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23/07/2019 02:00 -03

Em reduto petista na Bahia, Bolsonaro enfrentará protesto após chamar nordestinos de 'paraíba'

Presidente participa de inauguração do aeroporto Glauber Rocha em Vitória da Conquista, na Bahia.

Adriano Machado / Reuters
Jair Bolsonaro deve ser alvo de protestos em Vitória da Conquista (BA).

Quatro dias após se referir a nordestinos como “paraíba”, o presidente Jair Bolsonaro estará na região, em Vitória da Conquista (BA), a mais de 500 km de Salvador. Ele será alvo de manifestações nesta terça-feira (22), mas deve estar blindado.

Os protestos na cidade serão organizados do lado de fora do aeroporto Glauber Rocha, que será inaugurado — motivo da viagem presidencial. Na cerimônia, contudo, só entrarão 600 convidados. São 340 do governo federal; 100, do estadual; e 60, da prefeitura.

Os movimentos sociais que planejam os atos tentarão se fazer ouvir por Bolsonaro. O Sindicato do Magistério Municipal Público de Vitória da Conquista providenciou carros de som e, ao lado da CUT (Central Única dos Trabalhadores), espera reunir pelo menos o dobro do número de convidados que haverá do lado de dentro do aeroporto, segundo organizadores que conversaram com o HuffPost.

Além dos manifestantes anti-Bolsonaro, haverá também um grupo de apoiadores do presidente. De acordo com moradores da região que conversaram com a reportagem, a maioria é composta pela população “de classe média alta”.

Mas o incômodo não estará somente do lado de fora. Teoricamente anfitrião da festa, o governador da Bahia, Rui Costa (PT), decidiu não participar da inauguração do aeroporto, nem enviar representantes.

Ele fez o anúncio em um vídeo postado em sua conta no Twitter, em que fala em “covardia” contra a população, referindo-se à fala de Bolsonaro, em café da manhã com jornalistas na última sexta-feira (19), quando ele se referiu em um tom considerado desrespeitoso aos governadores da Paraíba, João Azevêdo (PSB), e do Maranhão, Flávio Dino (PCdoB).

“Daqueles governadores de... “paraíba”, o pior é o do Maranhão. Não tem que ter nada com esse cara”, disse ele ao ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni. O áudio foi captado pelos microfones.

No Rio de Janeiro, berço político de Bolsonaro, “paraíba” é usado de forma jocosa para falar de oriundos do Nordeste. No sábado (20), o presidente minimizou; disse que sua “crítica” era unicamente direcionada aos governadores da Paraíba e do Maranhão por “esculhambarem obras federais”.

Rui Costa destacou também o fato de a cerimônia ser fechada, “como se fosse uma convenção político-partidária”.

“Exercitando a boa educação que aprendi, convidei o governo federal a se fazer presente no ato de inauguração [do aeroporto Glauber Rocha], numa grande festa. Infelizmente, confundiram a boa educação com covardia. E desde então temos presenciado agressões ao povo do Nordeste e da Bahia”, completou.

Apesar de o governador baiano ter convidado dezenas de deputados e senadores da sua base partidária, não há previsão da presença de seus aliados no evento.

Briga pela paternidade do aeroporto

Além da disputa ideológica, a visita do presidente da República reacendeu uma rixa política em Vitória da Conquista. Tradicionalmente petista, a cidade deu maioria de votos ao adversário de Bolsonaro nas urnas no ano passado, Fernando Haddad (PT) — foram 100.751 votos (58,07%) contra 72.763 votos (41,93%) no então candidato do PSL, de acordo com dados do TSE (Tribunal Superior Eleitoral).

O clima começou a esquentar no fim de semana, quando o prefeito de Vitória da Conquista, Herzwem Gusmão (MDB), mandou retirar da estrada que dá acesso ao aeroporto Glauber Rocha outdoors do governo do estado, alguns com referência a Rui Costa.

De acordo com emedebistas baianos que preferiram não se identificar, Gusmão não chega a ser aliado de Bolsonaro, mas é “antipetista e aproveitou o momento para dar um recado”.

O deputado Waldenor Pereira (PT-BA), registrou o momento em que guindastes faziam a remoção dos materiais, no meio da noite.

Nesta segunda-feira (22), o senador Jacques Wagner (PT-BA), ex-governador do estado, disse que a disputa sobre quem construiu o aeroporto ”é coisa pequena”. Mas fez questão de destacar que as obras tiveram início em seu primeiro mandato, em 2009, e continuidade quando ele ainda governava a Bahia.

Esta é a segunda vez que o presidente visita o Nordeste. A primeira foi no fim de maio, quando esteve em Petrolina e Recife, em Pernambuco. Ele entregou casas populares, anunciou projetos de infraestrutura, reuniu-se com governadores da região e pediu apoio à reforma da Previdência.