OPINIÃO
22/09/2020 06:00 -03 | Atualizado 22/09/2020 06:00 -03

Enquanto Pantanal arde em chamas, Bolsonaro defende na ONU política ambiental do Brasil

Retórica defensiva sobre meio ambiente e coronavírus deve marcar 2ª participação do presidente na Assembleia Geral das Nações Unidas.

Montagem/Reuters/HuffPost
Na Assembleia Geral da ONU, Jair Bolsonaro minimizará maior incêndio da História do Pantanal.

O presidente Jair Bolsonaro abre nesta terça-feira (22) a 75ª Assembleia Geral da ONU (Organização das Nações Unidas) com uma retórica defensiva sobre sua política ambiental no Brasil. Apesar do maior incêndio da História do Pantanal e do crescimento do desmatamento na Amazônia, Bolsonaro deverá mais uma vez afirmar que existe uma “perseguição” de outros países contra o Brasil devido à questão ambiental.

O discurso de Bolsonaro, assim como o de demais chefes de Estado, já foi gravado e será exibido na assembleia virtual. Ao contrário de sua primeira participação, em setembro de 2019, desta vez o tom do presidente deverá ser mais ameno e diplomático. No ano passado, ele não poupou o teor ideológico e rebateu críticas à forma como seu governo trata o meio ambiente culpando “ataques sensacionalistas da mídia”.

Em agosto, após o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) apontar que o desmatamento cresceu 34% em 12 meses, Bolsonaro disse que “esta história de que a Amazônia arde em fogo é uma mentira”. E disse que era necessário “combater isso” com a divulgação de “números verdadeiros”.

Como é de praxe de seu governo, contestou dados oficiais, que indicam um estrago substancial nos biomas do Brasil causados pelo fogo. Dados do mesmo Inpe, cujo diretor Ricardo Galvão, em agosto de 2019, foi demitido também porque o presidente questionava a metodologia do instituto para aferir desmatamento.

Resta saber quais “números verdadeiros” serão esses que Bolsonaro vai apresentar diante do mundo todo, na assembleia da ONU. Qual é a fonte do conhecimento presidencial?

No Pantanal, as queimadas já duram mais de 2 meses. Com mais de 15 mil focos de calor, é o pior cenário desde que o monitoramento de incêndios começou por lá, em 1998. Cerca de 20% do bioma já foi consumido pelas chamas. Ao menos mil animais morreram queimados neste período.

Em uníssono, o governo culpa a “forte seca” pelos incêndios, diz que a mata seca pega fogo mais fácil. Parece ignorar o inquérito da Polícia Federal que aponta ação criminosa de fazendeiros entre Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. E também ignora o quanto a fiscalização deficiente contribui com o desmate na Amazônia.

Fica melhor na narrativa governista a tal tese de perseguição internacional. Tanto Bolsonaro quanto seu vice, Hamilton Mourão, acusam interesses econômicos em controlar a Amazônia. “Somos criticados, afinal de contas o Brasil é uma potência no agronegócio, ameaças existem sobre nós o tempo todo”, argumenta o presidente.

“É importante que a gente tenha consciência da disputa geopolítica hoje”, completa o vice. “Temos água, luz, terra fértil, temos espaço para avançar e crescer. Seremos em breve a maior potência agrícola do mundo. Aqueles incomodados com o avanço da produção brasileira buscarão impedir que essa produção evolua.”

JOHANNES EISELE via Getty Images
Jair Bolsonaro em sua 1ª participação na Assembleia Geral da ONU em setembro de 2019.

Como tem evitado a polêmica, como novo norte da comunicação de seu governo, Bolsonaro não deverá ser tão enfático quanto a que países estariam incomodados ou manifestariam tais “interesses” na Amazônia. No discurso de 2019 na ONU, chegou a atacar nominalmente tanto França quanto Alemanha, ao falar que esses países utilizam mais da metade dos respectivos territórios para agricultura, enquanto o Brasil usaria somente 8%.

“Case de sucesso” contra covid-19

Além do meio ambiente, Bolsonaro deverá enaltecer ações do governo contra a covid-19. Há expectativa de que ele diga que o Brasil foi um dos países que melhor enfrentou a crise sanitária e ressalte o impacto do auxílio emergencial pago a cerca de 65 milhões de brasileiros.

Até às 18h de segunda-feira (21), 4,5 milhões de casos de covid-19 haviam sido confirmados no País. Ao todo, 137.272 pessoas morreram em decorrência do novo coronavírus. O Brasil é o 2º em mortes e o 3º em infecções.

Será que os dados validados inclusive pelo Ministério da Saúde também são “números verdadeiros” para o presidente? Como ele vai encaixá-los em seu discurso para contar uma história de sucesso no enfrentamento à pandemia?

A conferir.

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