NOTÍCIAS
18/02/2020 16:54 -03 | Atualizado 18/02/2020 17:00 -03

Bolsonaro usa mentira contra jornalista para fazer ofensa sexual

“Parabéns à mídia, aí. Não quero conversa. Eu cometi uma violência sexual contra a imprensa hoje?”

SERGIO LIMA via Getty Images
Irritado com a repercussão negativa da declaração, Bolsonaro disse que não falaria mais com a imprensa.

O presidente Jair Bolsonaro usou de um depoimento considerado mentiroso para insultar a jornalista Patrícia Campos Mello, da Folha de S. Paulo. Em entrevista, que contava com público de apoiadores do presidente, em frente do Palácio da Alvorada, Bolsonaro disse, em tom de chacota, que a jornalista “queria dar o furo a qualquer preço”. 

O mandatário fez a insinuação sexual em referência ao depoimento de Hans River do Rio Nascimento, ex-funcionário de uma agência de disparo de mensagens, à CPMI das Fake News. Aos senadores, Hans River disse que a jornalista “queria um determinado tipo de matéria a troco de sexo”.

A informação é falsa, mas foi replicada como verdadeira nas redes sociais, inclusive por Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), deputado filho do presidente. O jornal mostrou documentos e gravações que desmentem o depoimento de Hans River e mostram que ele tentou chamar a jornalista para sair.

Patrícia é autora de um reportagens que apontam uso de disparos ilegais pelo WhatsApp pela campanha de Bolsonaro nas eleições em 2018.

Antes de fazer o insulto, Bolsonaro procurou jornalista da Folha entre os repórteres presentes e iniciou:

“Olha a jornalista da Folha de S.Paulo. Tem mais um vídeo dela aí. Não vou falar aqui porque tem senhoras aqui do lado. Ela falando: ‘Eu sou (...) do PT’, certo? O depoimento do Hans River, foi final de 2018 para o Ministério Público, ele diz do assédio da jornalista em cima dele.

(...)

Ela [repórter] queria um furo. Ela queria dar o furo a qualquer preço contra mim [risos dele e dos demais]. Lá em 2018 ele [Hans] já dizia que ele chegava e ia perguntando: ‘O Bolsonaro pagou pra você divulgar pelo Whatsapp informações?’ E outra, se você fez fake news contra o PT, menos com menos dá mais na matemática, se eu for mentir contra o PT, eu tô falando bem, porque o PT só fez besteira”. 

Mais tarde, ao ser questionado se mantinha a declaração, o presidente, irritado com a repercussão negativa, disparou:

“Alguém da Folha de S.Paulo aí? Alguém da Folha de S.Paulo aí? Eu agredi sexualmente uma repórter hoje? Parabéns à mídia, aí. Não quero conversa. Eu cometi uma violência sexual contra a imprensa hoje?”

No Twitter, apoiadores de Bolsonaro minimizaram a declaração do presidente.

Desrespeito ao jornalismo

Associações de jornalismo e a OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) saíram em defesa da jornalista e do jornalismo. ANJ (Associação Nacional de Jornais), a Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo), e o Observatório da Liberdade de Imprensa da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) consideram a fala do presidente um desrespeito.

Em nota, a ANJ pontuou: “as insinuações do presidente buscam desqualificar o livre e exercício do jornalismo e confundir a opinião pública. Como infelizmente tem acontecido reiteradas vezes, o presidente se aproveita da presença de uma claque para atacar jornalistas, cujo trabalho é essencial para a sociedade e a preservação da democracia”.

O próprio PSL, ex-partido de Bolsonaro, saiu em defesa da jornalista. “A atitude, além de ofensiva, demonstra pouco apreço pela democracia”, disse a sigla.