OPINIÃO
06/08/2019 21:08 -03 | Atualizado 06/08/2019 21:14 -03

Bolsonaro vai da ameaça à prática para 'retribuir' ataques da imprensa

Nesta terça-feira, Bolsonaro fez um discurso no qual, em meio a críticas, citou 14 vezes a palavra ‘imprensa’. A mesma, a qual ressaltou “tanto amar”.

Adriano Machado / Reuters

O presidente Jair Bolsonaro “retribuiu” à imprensa aquilo que considera “ataques” com a publicação de uma medida provisória que retira a obrigatoriedade da publicação de balanços financeiros de empresas de capital aberto em jornais. A medida foi editada na segunda-feira (5) e publicada no Diário Oficial da União nesta terça.

Bolsonaro, entretanto, nega que seja uma revanche à imprensa, a qual disse “tanto amar”. Porém, foi bem claro em seu discurso ao alfinetá-la mais uma vez:

“No dia de ontem eu retribuí parte daquilo que grande parte da mídia me atacou, assinei uma medida provisória fazendo com que os empresários que gastavam milhões de reais para publicar obrigatoriamente, por força de lei, seus balancetes nos jornais, agora podem fazê-lo no Diário Oficial da União a custo zero”.

Em seguida, se contradisse:

“As grandes empresas gastavam com jornais, em média R$ 900 mil por ano. Vão deixar de gastar isso aí. (…) Eu espero que o Valor Econômico [que por ser um jornal específico sobre a cobertura econômica recebe mais balanços] sobreviva à medida provisória de ontem, espero”. 

Continuou:

Não é uma retaliação contra a imprensa, é tirar o Estado de cima daquele que produz. E quem produz? São vocês! Não estou sentindo cheiro de mortadela aqui.

E finalizou:

“Como disse ontem: ‘imprensa, eu ganho eleições, eu sou o Johnny Bravo, para de perturbar, pô’. Vamos em frente, vamos criticar com razão. Erro? Erro, como errei na medida provisória [que transferia demarcação de terras indígenas para o Ministério da Agricultura], que o ministro Celso Mello descascou em cima de mim, exagerou. Poxa! Reconheço”.

Em seus 20 minutos de discurso na abertura do 29º Congresso e ExpoFenabrave (Federação Nacional Distribuição Veículos Automotores), em São Paulo, o capitão reformado do Exército, enquanto falava que era preciso dar liberdade às empresas, citou a imprensa 14 vezes. 

Sem fake news

Ao dizer que o objetivo em assinar a medida provisória é retribuir os ataques que diz estar sofrendo, o presidente flerta com o discurso de sua campanha.

Em 21 de outubro, próximo ao segundo turno, em uma declaração a manifestantes na Avenida Paulista, ele disse: “Sem mentiras, sem fake news, sem Folha de S.Paulo. Nós ganharemos esta guerra.”

Como nesta terça, na qual o presidente disse defender que a imprensa trabalhe com a verdade, ele disse aos manifestantes na pré-campanha que apoia os meios de comunicação — “mas com responsabilidade”. 

“Queremos a imprensa livre, mas com responsabilidade. A Folha de S.Paulo é o maior (sic) fake news do Brasil. Vocês não terão mais verba publicitária do governo. Imprensa livre, parabéns. Imprensa vendida, meus pêsames”, disse.

“Somos amantes da liberdade, queremos a democracia e queremos viver em paz. Nós amamos as nossas famílias, nós respeitamos as crianças, nós respeitamos todas as religiões, nós não queremos socialismo, nós queremos distância de ditaduras do mundo todo”, completou.

Nesta terça, ele também voltou a afirmar que “respeita a família tradicional brasileira”. No fim do dia, o porta-voz da Presidência, Otávio Rêgo de Barros, negou que o presidente tenha se dirigido à imprensa com a medida provisória.

Segundo ele, ocorre o contrário: Bolsonaro valoriza a imprensa. Entretanto, “em alguns momentos ele expressa, até de forma emocional, o sentimento que o consome, porque ele de fato é atacado diuturnamente, em vários pontos”.

Já o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), fez uma leitura diferente da situação. Afirmou que não acha que a imprensa ataca o presidente.

“A imprensa está divulgando notícia. Se é contra ou a favor, essa é uma avaliação que cada um de nós tem que fazer quando é criticado ou elogiado pela imprensa.”

Tanto Maia quanto o porta-voz, no entanto, ressaltaram que a medida inicia um processo de desburocratização do sistema de divulgação da informação. 

“Minha preocupação em relação à medida provisória é que, do ponto de vista teórico ela faz sentido, não haverá no futuro papel jornal, essa que é a verdade, mas o papel jornal hoje ainda é um instrumento muito importante da divulgação de informação, da garantia da liberdade de imprensa, da liberdade de expressão, da garantia da nossa democracia, então retirar essa receita dos jornais da noite para o dia não me parece uma decisão, assim, a melhor decisão”, disse Rodrigo Maia. 

Em capacitação

Também no evento desta terça, o presidente admitiu que não estava/está apto para exercer a função de chefe de Estado da oitava maior economia do mundo. Mas disse que está aprendendo.

“Mas tudo bem, acreditando, pedindo a Deus que nos ilumine o tempo todo, sabendo que eu não estava capacitado, mas que Ele está me capacitando.”

Diante deste cenário, as palavras do próprio Bolsonaro encontram eco na mesma imprensa a qual ele critica. Seguimos com a dica do mandatário: “Vamos em frente, vamos criticar com razão”.

A íntegra do discurso do presidente está aqui

Este artigo é de autoria de articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Assine nossa newsletter e acompanhe por e-mail os melhores conteúdos de nosso site.