OPINIÃO
03/04/2020 13:19 -03 | Atualizado 03/04/2020 13:19 -03

O que Bolsonaro não quer entender sobre o coronavírus e as covas abertas

Desprezo à Ciência, exploração da crença religiosa e fake news - com essa gestão do presidente durante crise, esperamos que Deus realmente nos proteja.

“Presidente, o Doria abriu um monte de sepultura, passou na televisão ontem. Ele está declarando isso, isso não vai acontecer. Deus não vai permitir”, disse uma apoiadora de Jair Bolsonaro ao presidente em frente ao Palácio da Alvorada na manhã desta sexta-feira (3). “Isso é um terrorismo”, responde Bolsonaro. O vídeo com o diálogo foi publicado pelo próprio presidente em sua conta no Twitter.

A mulher se referia às imagens aéreas de 150 novas covas rasas no cemitério Vila Formosa, na zona oeste em São Paulo, que é de responsabilidade da prefeitura e não do governo estadual.

A imagem - forte, triste e impactante - foi reproduzida na capa do jornal The Washington Post na quinta-feira (2) como parte da matéria “Contágio pode esmagar o mundo em desenvolvimento”. Parte da imprensa brasileira também publicou fotos semelhantes, feitas por diversas agências de notícias.

Bolsonaro já havia criticado na quinta o prefeito de São Paulo, Bruno Covas, por, segundo ele, tomar uma “medida de terror” ao abrir novas covas. “Que vergonha, prezado prefeito Bruno Covas. Buscar o sensacionalismo em cima de algumas pessoas que perderão suas vidas por ocasião da possível contaminação do vírus. Essa imagem, se for verdade, não pode ser levada ao conhecimento público. Isso aqui não é medida preventiva, de precaução. Isso é medida de terror, filme de terror”, disse, em entrevista à Jovem Pan.

Amanda Perobelli / Reuters
Novas covas rasas abertas no cemitério Vila Formosa, em São Paulo

Só que há muito mais do que política, “terrorismo” ou crença religiosa envolvido nessa questão.

Segundo reportagem publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo nesta sexta (3), só no cemitério Vila Formosa, onde foram feitas as imagens de mais de 150 novas covas rasas abertas, o número de enterros subiu 45% nas últimas semanas, de 40 para 58 por dia.

Ainda de acordo com a reportagem, funcionários disseram que a “alta demanda de sepultamentos tem exigido a abertura de cerca de 90 covas por dia, o dobro do habitual”. “A Prefeitura afirma que são abertas 100 covas a cada três dias, o padrão, independentemente da pandemia”, diz o texto.

O fato é que São Paulo reúne cerca de 63% das mortes por coronavírus em todo o país. Confirmadas e notificadas, foram 188 vítimas em São Paulo até quinta-feira, 299 no Brasil. E há ainda fortes indícios de subnotificação e de defasagem no registro de mortes, já que o sistema não tem conseguido confirmar a enorme quantidade de exames laboratoriais que chegam diariamente. Na contagem divulgada pelos estados e pelo Ministério da Saúde só entram as mortes cujo exame de laboratório tenha confirmado o diagnóstico.

Mesmo assim, o presidente alimenta a desinformação. Sugere que estados como São Paulo estariam “inflando” o número de casos confirmados e de mortes para justificar medidas restritivas de fechamento do comércio e de isolamento social.

Critica a abertura de covas e a mínima preparação do sistema funerário, que, no Equador, por exemplo, não suportou a alta demanda. Por lá, as imagens que circulam são de caixões nas calçadas, esperando um lugar e alguém que faça o transporte e o enterro.

Nesta sexta, Bolsonaro falou de novo que a epidemia que já matou mais de 45,5 mil pessoas em todo o mundo - quase 5.000 só nas últimas 24 horas - segundo a OMS (Organização Mundial de Saúde), é como uma “chuva”: “Vai molhar 70% de vocês. Destes 70%, uma pequena parte, que são os idosos e quem tem problemas de saúde, vai ter problemas sérios”.

Reprodução/ Twitter
"Papai do Céu está conosco, acreditem em Deus", disse Bolsonaro em entrevista à Jovem Pan.

Enquanto isso, apoiadores fieis pedem que as pessoas voltem a circular e acreditam que “Deus não vai permitir” mais mortes. Repito: foram quase 5.000 mortes em todo o mundo nas últimas 24 horas.

“A vida tem que continuar. Esse vírus a gente vai ficar livre dele um dia, mas não podemos deixar um país de miseráveis, de desempregados. (...) Papai do Céu está conosco, acreditem em Deus”, disse Bolsonaro nesta quinta à Jovem Pan, ao propor também um jejum de um dia para “a gente ficar livre desse mal o mais rápido possível”.

O negacionismo, o desprezo à Ciência, a exploração da crença religiosa da população, as informações erradas divulgadas deliberadamente pelo presidente. Com essa gestão de Bolsonaro durante uma crise de proporções bíblicas, esperamos que Deus realmente nos proteja.