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01/03/2019 14:48 -03 | Atualizado 01/03/2019 15:05 -03

Ilona Szabó diz que 'ação extremada de grupos minoritários' levou Moro a revogar nomeação

Ministro havia nomeado especialista para Conselho de Política Criminal e Penitenciária.

Montagem/AP/Divulgação

A pressão de sua base mais conservadora nas redes sociais fez com que o presidente JairBolsonaro (PSL) atuasse pessoalmente, na última quinta-feira (28), para revogar a indicação da especialista IlonaSzabó como suplente no Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária (CNPCP). Ela havia sido escolhida pelo ministro SérgioMoro e nomeada na última quarta (27).

Szabó, que é cientista política e diretora-executiva do Instituto Igarapé, especializado em políticas públicas de combate à criminalidade, lamentou não poder assumir o mandato e atribuiu a decisão à “ação extremada de grupos minoritários”. 

“O país precisa superar a intolerância para atingir nossos objetivos comuns na construção de um país mais justo e seguro”, disse Szabó. “O Brasil, mais que nunca, precisa do diálogo democrático, respeitoso e plural.”

A nomeação da especialista causou revolta entre os apoiadores do presidente. Szabó foi tachada de “inimiga do governo”, “militante de extrema esquerda” e “infiltrada” pelos internautas, que criaram a hashtag #IlonaNão. A especialista defende a descriminalização e regulação do consumo de drogas e é contrária a medidas como a flexibilização da posse de armas no País.

No comunicado anunciando a decisão, Moro reconhece que “diante da repercussão negativa em alguns segmentos, optou-se por revogar a nomeação”. O texto diz ainda que a especialista foi previamente comunicada e a que o Ministério “respeitosamente apresenta escusas” a Szabó. 

O ministro, inclusive, defendeu, na nota, o convite feito à cientista política, que possui “relevantes conhecimentos na área de segurança pública”.

Não é a primeira vez, contudo, que Bolsonaro decide desautorizar seus ministros por conta da pressão de seus eleitores e apoiadores mais conservadores.

Ainda durante o período de composição do governo, o educador Mozart Neves Ramos havia sido cotado para comandar o Ministério da Educação, mas foi reprovado pela bancada evangélica por ser crítico ao projeto “Escola Sem Partido”. 

“Não há afinidade ideológica. A bancada evangélica não vai respaldar um ministro que não tenha afinidade”, justificou o deputado Ronaldo Nogueira (PTB-RS), à época, em entrevista ao Estadão.

Após a reação, o presidente Bolsonaro recuou e escolheu Ricardo Vélez Rodríguez, filósofo indicado por Olavo de Carvalho, para o cargo.

 

Leia a nota completa do Instituto Igarapé:

Ganha a polarização. A pluralidade é derrotada.

Agradeço o convite do Ministro Sergio Moro para compor o Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária (CNPCP), e lamento não poder assumir o mandato devido à ação extremada de grupos minoritários. O país precisa superar a intolerância para atingir nossos objetivos comuns na construção de um país mais justo e seguro. O Instituto Igarapé desde sua fundação trabalha de forma independente e em parceria com as instituições de segurança pública e justiça criminal no Brasil e em diversos países do mundo. Continuaremos abertos a contribuir com interlocutores comprometidos com políticas públicas baseadas em evidências. O Brasil, mais que nunca, precisa do diálogo democrático, respeitoso e plural.

Ilona Szabó
Diretora executiva do Instituto Igarapé

“Liberdade total”

Ao intervir na nomeação de Ilona Szabó, Bolsonaro quebrou ainda a promessa feita a Sérgio Moro de “liberdade total” para compor o Ministério e combater o crime organizado.

Em novembro, ao anunciar que havia convidado o então juiz para compor o governo, o presidente afirmou que Moro teria “sinal verde”.

“Ele queria liberdade total para combater a corrupção e o crime organizado e um ministério com poderes para tal, bem como nomeações. Ele tem ampla liberdade realmente para exercer o trabalho lá. Da minha parte, sempre fui favorável a isso. Dei sinal verde”, afirmou Bolsonaro.

Ao jornal O Globo, Ilona Szabó afirmou que Bolsonaro conversou com Moro para discutir a sua nomeação.

“Teve uma conversa entre o ministro e o presidente e ele (Moro) sentiu que não dava para manter a minha nomeação”, disse.

“O presidente não deveria ver pessoas que pensam diferente como inimigas.”