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25/03/2020 12:26 -03

Pronunciamento de Bolsonaro foi escrito para militância e teve 'ok' de Carlos

Presidente se preocupa com apoio da população às medidas de contenção implantadas por governadores, opostas às suas orientações.

Adriano Machado / Reuters
Pronunciamento do presidente foi escrito à várias mãos com preocupação com apoio da militância.

O pronunciamento do presidente Jair Bolsonaro em cadeia nacional de rádio e TV na noite de terça-feira (24), no qual ele voltou a minimizar o coronavírus, foi escrito a várias mãos numa tentativa de incitar, mais uma vez, o apoio da militância bolsonarista.

A avaliação do núcleo radical, liderado pelo filho Carlos Bolsonaro, que inclusive deu o “ok” final ao texto falado pelo pai, é de que a pandemia tem feito o discurso do mandatário perder espaço e as medidas de contenção do vírus, com isolamento social, fechamento de comércio, e até restrições nas estradas em alguns estados, têm ganho força e apoio da maior parte da população. 

O isolamento para todas as faixas etárias, não apenas para idosos, como defende o presidente, é a recomendação da OMS (Organização Mundial de Saúde). A entidade alerta que crianças e jovens também morrem pelo vírus que se espalha com muita facilidade e, embora já se tenha exemplos de como age, ainda não é possível afirmar totalmente a gravidade e até agora aparecem novos sintomas. 

A intenção do isolamento social é reduzir a curva de transmissão de forma a não sobrecarregar o sistema de saúde. Se todos ficarem doentes ao mesmo tempo, os hospitais não conseguirão atender todo mundo. 

O ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, que embora tenha adotado um tom mais político nos últimos dias após ter despertado ciúme no chefe por conta dos elogios que vem recebendo, não participou da elaboração do discurso na terça. 

A fala de Bolsonaro seguiu a linha do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, defendendo o retorno ”à normalidade” no dia em que o País viu o número de mortos por coronavírus crescer 16% entre segunda (23) e terça e passar para 46. No Brasil, o número de infectados passa de 2 mil. 

Nesta manhã, o presidente foi às suas redes sociais e reforçou seu discurso pelo retorno à normalidade, o fim do isolamento social e da importância de movimentar a economia. 

Na porta do Palácio da Alvorada, disse que preparou seu pronunciamento sozinho, que é “responsável pelos próprios atos”. Também ironizou as críticas que recebeu logo após sua fala em cadeia nacional. “Ser criticado por quem nunca fez nada pelo Brasil?”. 

Minutos após o pronunciamento, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), emitiu uma nota na qual afirmou que o Brasil “precisa de uma liderança séria, responsável e comprometida com a vida e a saúde da sua população”. Também o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), chamou a fala de Bolsonaro de “equivocada”, disse que o governo federal deveria reconhecer os esforços que vêm sendo adotados pelos estados para tentar conter o coronavírus e ainda recomendou seguir as orientações dos profissionais de saúde. 

O clã bolsonarista também reagiu nas redes sociais, mas para defender o pai e reforçar seu posicionamento. 

Reprodução @carlosbolsonaro
Reprodução do Story Instagram de Carlos Bolsonaro postado na terça-feira (24).

O que preocupa o clã?  

Uma pesquisa do Instituto Datafolha, divulgada nesta terça-feira (24) pelo jornal Folha de S.Paulo, mostra que TVs e jornais lideram o índice de confiança em informações sobre a crise do novo coronavírus. 

O que preocupou o núcleo bolsonarista foi especialmente um dado apontado pela pesquisa: 12% disseram que confiam no que leem no WhatsApp; 58% não confiam; 24% confiam em parte e 6% não utilizam o aplicativo, um dos principais meios usados pelo clã e seus apoiadores para espalhar informação (e desinformação). 

Outro resultado que chamou a atenção, em especial por Bolsonaro ter sido eleito com a ajuda das redes sociais, foi: 12% responderam que confiam em informações que circulam no Facebook; 50% não confiam; 25% confiam em parte e 13% não utilizam a rede.

O Datafolha entrevistou 1.558 pessoas por telefone, de quarta (18) a sexta-feira (20). A margem de erro é de três pontos para mais ou para menos.