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25/12/2019 04:00 -03

Bolsonaro adota método de fritura para promover troca-troca no governo

Em 2019, ministros e autoridades caíram em processos semelhantes — todos foram expostos publicamente pelo presidente ou familiares.

MAURO PIMENTEL via Getty Images
Demissão de Gustavo Bebianno do cargo de ministro da Secretaria-Geral foi o primeiro caso explícito de fritura no governo Bolsonaro.

O governo do presidente Jair Bolsonaro cunhou uma marca na hora das demissões: a fritura. O método consiste em exposição pública do funcionário, com um tsunami de críticas e dificuldade do alvo em acesso ao presidente.

Ao longo do ano, foram repetidos os casos em que ministros e autoridades que entraram na mira das reclamações públicas do presidente deixaram o governo. O caso que abriu a porta para os demais foi o da demissão de Gustavo Bebianno da Secretaria-Geral da Presidência. 

No segundo mês de governo, quando estourou o escândalo das candidaturas laranjas no PSL, o filho do presidente, vereador Carlos Bolsonaro (PSC-RJ), acusou publicamente Bebianno de ter mentido sobre ter conversado com o pai. O próprio presidente veio a público dizer que não tinha conversado com Bebianno, e instaurou-se uma crise. 

Neste cenário, Bolsonaro fez o que se tornou um clássico ao exonerar um ex-aliado: o ameaçou em público de demissão. Em entrevista à Record, Bolsonaro disse que o ministro poderia voltar “às origens”. 

O presidente, logo, foi repreendido pela atitude, o que também se repetiu nos demais casos. Na época, a deputada Joice Hasselmann (PSL-SP), então aliada do presidente, afirmou que Bolsonaro não poderia “fazer puxadinho da Presidência da República dentro de casa para expor um membro do alto escalão do governo”.  

Adriano Machado / Reuters
Vítima do método de fritura, o ex-ministro Santos Cruz chamou atitude do presidente de "coisa de gente covarde". 

A estratégia de demissão teve reprise mais adiante com outros dois ministros: Ricardo Vélez Rodríguez, da Educação, e Carlos Alberto dos Santos Cruz, da Secretaria de Governo. No caso de Vélez, Bolsonaro, antes de demiti-lo, decidiu rifá-lo. Disse a jornalistas, em uma sexta-feira, que “segunda-feira vai ser o dia do ’fico ou não fico”. Na segunda, o ministro foi dispensado.

Com Santos Cruz, o tempo de fritura foi maior. Foram mais de dois meses de críticas públicas. Estas, porém encabeçadas pelo guru ideológico do governo, Olavo de Carvalho. Santos Cruz sofreu ainda ataques digitais orquestrados por apoiadores do presidente e esteve na mira do filho do presidente, Carlos Bolsonaro. 

Em novembro, cinco meses após sua demissão, Santos Cruz afirmou, em depoimento na CPMI das Fake News, no Congresso, que “fritura é escória do comportamento político”. 

“Quando falta ética, quando começa uma coisa de baixíssimo padrão, que se chama “fritura”, que é um negócio de baixíssimo nível... Isso é coisa de gente covarde, de gente desqualificada, de gente que não sabe administrar a política”, disse. 

A tal da fritura é a escória do comportamento político. Isso é que é o ‘x’ da questão, não é a substituição: é a forma.

Além da Esplanada

O método de fritura de Bolsonaro atingiu diversos setores do primeiro escalão, além dos ministros. Em junho, por exemplo, os presidentes dos Correios e BNDES, Joarez de Paula Cunha e Joaquim Levy, respectivamente, deixaram os cargos após críticas públicas. Bolsonaro afirmou, por exemplo, que o então presidente dos Correios agia como sindicalista e que estava “por aqui” com Levy.

Os excessos do presidente chegaram a chamar atenção do mercado financeiro e a deixar pessoas cotadas para entrar no governo ressabiadas com medo de se tornarem vítimas. 

Em junho, ao HuffPost, o economista-chefe da Infinity Asset, Jason Vieira, afirmou que o mercado percebeu que o presidente tem um jeito “peculiar” de tratar temas delicados. Na época, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, repreendeu a atitude de Bolsonaro em relação à demissão de Levy:

Está errado [sair assim], não pode tratar as pessoas deste jeito. Se é para demitir, chama e demite.

Mesmo após ser repreendido publicamente repetidas vezes, o presidente continuou. Em agosto, foi a vez do cientista Ricardo Galvão deixar a diretoria do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) depois de quase dois meses de fritura.

Crítico de ONGs, Bolsonaro sugeriu que o cientista estava a serviço de uma dessas instituições e tinha atuado para prejudicar seu governo. 

Em meio à troca de farpas, Galvão afirmou que o presidente “tem um comportamento como se estivesse em botequim. Ou seja, ele fez acusações indevidas a pessoas do mais alto nível da ciência brasileira, não estou dizendo só eu, mas muitas outras pessoas”.

Galvão figura na lista das 10 pessoas que mais se destacaram na ciência em 2019, segundo a renomada publicação científica Nature. O ranking foi divulgado neste mês.

Em setembro, Bolsonaro insistiu na tática para demitir o então secretário da Receita Federal, Marcos Cintra. Toda vez que se falava em criação de um novo imposto aos moldes da CPMF, o presidente negava e tecia críticas à proposta. Cintra deixou o cargo após um de seus subordinados ter feito uma apresentação na qual se falava no novo imposto e após pedidos de interferências de Bolsonaro na Receita. 

Com grau de exposição menor, em novembro, o general Maynard Santa Rosa pediu demissão da chefia da Secretaria de Assuntos Estratégicos, após divergências com o alto escalão do governo. Ele era o único militar indicado por Santos Cruz que ainda permanecia no governo.

A estratégia de fritura teve como um de seus pontos altos a saída do presidente do PSL, partido usado como plataforma para sua eleição. Bolsonaro tornou pública a rixa com o presidente da legenda, deputado Luciano Bivar (PE). Disse a apoiadores na porta do Palácio da Alvorada que o parlamentar estava “queimado” em Pernambuco. 

Neste caso, diferentemente daqueles em que tinha a prerrogativa de demitir, Bolsonaro esticou a corda ao máximo. Desistiu de nomear o filho Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) embaixador do Brasil em Washington para torná-lo líder do PSL na Câmara. Conseguiu emplacar o filho 03, mas devido ao tamanho do desgaste, deixou a legenda para criar uma nova: a Aliança pelo Brasil. 

É deixando aliados pelo caminho e sem partido aliado de base no Congresso Nacional que Bolsonaro iniciará o próximo ano.