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29/10/2019 21:55 -03 | Atualizado 30/10/2019 20:50 -03

Bolsonaro é citado em caso Marielle e investigação pode ir ao STF, diz Jornal Nacional

Livro de visitas da portaria mostra que um dos envolvidos disse que iria à casa do presidente, mas foi à residência do acusado de disparar contra a vereadora.

Wagner Meier via Getty Images

O nome do presidente Jair Bolsonaro foi citado em documentos da investigação do caso Marielle Franco. A Polícia Civil do Rio de Janeiro teve acesso ao livro de visitas do condomínio Vivendas da Barra, na Zona Oeste carioca, onde o presidente mora, assim como o policial militar Ronnie Lessa, acusado de ser autor dos disparos contra a vereadora em março de 2018.

De acordo com o Jornal Nacional desta terça (29), no dia do crime, em 14 de março de 2018, Elcio Queiroz, outro envolvido no crime, teria anunciado que iria à casa 58, de Bolsonaro, mas foi à 65, de Lessa. Menção ao presidente pode fazer com que o inquérito siga para o STF (Supremo Tribunal Federal). 

A reportagem desta terça aponta que, em dois depoimentos, o porteiro reiterou ter interfonado para a casa 58 e que identificou alguém “com a voz do Seu Jair”. O JN destaca que a guarita do condomínio Vivendas da Barra grava as conversas da portaria e tenta, agora, recuperar as informações da data. No mesmo dia, contudo, reportagem aponta que Bolsonaro estava em Brasília.

O JN também procurou o advogado do presidente, Frederick Wassef, para quem a menção do nome do cliente em depoimentos tem o intuito de “atingir a imagem” do mandatário. E desafiou a qualquer um no Brasil a comprovar o contrário. Disse ainda que o depoimento trata-se de “falso testemunho”. 

A resposta do presidente à menção no caso Marielle

NurPhoto via Getty Images
Marielle Franco e o motorista Anderson Gomes foram assassinados em março de 2018, ao sair de um evento público no Rio de Janeiro.

Bolsonaro, que está na Arábia Saudita em visita oficial, entrou ao vivo pelo Facebook às três horas da manhã do horário local. Durante transmissão, o presidente mostrou descontrole, falou palavrões e, em momentos de fúria, afirmou que a TV Globo tenta atacar sua imagem e disse que não renovará sua concessão. Ele também acusou o governador fluminense, Wilson Witzel, de ter sido o responsável pelo vazamento da informação contida no inquérito.

“Vocês vão renovar a concessão em 2022, não vou persegui-los, mas o processo tem que estar limpo. Se não estiver limpo, não tem concessão da renovação de vocês. Vocês apostaram em me derrubar no primeiro ano e não conseguiram”, disse, sobre a TV Globo. “O senhor [Wilson Witzel] só se elegeu governador porque ficou o tempo todo colado com o Flávio, meu filho”.

Bolsonaro ainda questionou: “Qual a intenção de desgastar o governo federal? O que vocês ganham com um governo fraco?” E continuou: “Qual a intenção de vocês? O orgasmo da TV Globo é ver alguém preso? Eu seguro a onda. Eu tenho imensa responsabilidade. Eu tenho compromisso. Apesar da imprensa porca, nojenta, canalha, imoral.”

Ainda na noite de ontem, Bolsonaro concedeu uma entrevista à TV Record. Nela, voltou a acusar o governador do Rio, Wilson Witzel (PSC-RJ) de ter vazado as informações sobre o depoimento do porteiro e disse há uma tentativa de criar uma cortina de fumaça para encobrir a real autoria do crime.

O caso Marielle Franco

A vereadora foi assassinada junto com seu motorista, Anderson Gomes, em 14 de março de 2018, no Rio de Janeiro, após sair de um evento público. A investigação está sob sigilo e as principais linhas de apuração apontam para a participação de milícias ou, ainda, para um crime político.

Até o momento, dois suspeitos de envolvimento no crime foram detidos, mas os motivos dos assassinatos não foram esclarecidos. O sargento reformado da Polícia Militar Ronnie Lessa e o ex-PM Elcio Vieira de Queiroz foram presos em março de 2019 por envolvimento no crime.

Mulher negra, nascida na Favela da Maré, lésbica e defensora dos direitos humanos, Marielle foi a 5ª vereadora mais votada do Rio em 2016. Ela denunciava abusos da Polícia Militar, atendia vítimas da milícia e dava apoio a policiais vitimados pela violência no Rio e às suas famílias.