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18/03/2020 08:09 -03

Protagonismo do ministro da Saúde gera ciúme no Palácio do Planalto

Interlocutores do presidente afirmam que ele estaria ressentido com atuação do ministro na crise do coronavírus e, por isso, desrespeita orientações de sua equipe.

SERGIO LIMA via Getty Images
Ministro desautorizou o presidente no domingo, afirmando que evitar aglomerações vale para todos, após Bolsonaro cumprimentar manifestantes na frente do Palácio do Planalto.

O presidente Jair Bolsonaro se ressente do protagonismo de seu ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, no combate ao coronavírus, relatam fontes palacianas ao HuffPost. Esse ciúme é um dos motivos que têm levado o mandatário a, desde semana passada, falar e agir conforme sua opinião pessoal, embora atente contra as orientações de sua própria equipe e os protocolos internacionais de controle da covid-19. 

Reiteradas vezes Bolsonaro repete que há “histeria” e “superdimensionamento” nas medidas adotadas para conter o vírus que, até o fim da tarde desta terça-feira (17), já atingiu quase 190 mil pessoas no mundo, cerca de 300 no Brasil, onde já são mais de 8 mil casos supeitos.

Em entrevista à rádio Tupi do Rio de Janeiro na terça, o presidente afirmou que fará uma “festinha” para comemorar seu aniversário e da primeira-dama, Michelle, no fim de semana. 

Mandetta tem aparecido quase diariamente em rede nacional desde as suspeitas de que o coronavírus havia chegado no Brasil, mas a partir da confirmação do primeiro caso, o ministro lidera coletivas diárias. Quando não está em Brasília, está em outro estado, acompanhado da equipe da Secretaria de Saúde local.

Veio de uma dessas coletivas fora da capital federal o pico da irritação de Bolsonaro com o chefe da Saúde. Na sexta (13), Mandetta apareceu ao lado do governador de São Paulo, João Doria, que coordenou a entrevista e, no final, foi quem falou com a imprensa.

A avaliação de Bolsonaro, segundo interlocutores, é que seu ministro deveria ter se esforçado mais para exaltar os esforços do governo federal no combate ao coronavírus. 

Na sequência, o presidente questionou uma determinação do Ministério da Saúde que suspendeu a saída de cruzeiros marítimos enquanto durasse a situação de emergência no País. Houve pressão e, um dia após a pasta estabelecer a restrição, a medida caiu. 

No domingo (15), Bolsonaro atropelou orientações de médicos e auxiliares ao cumprimentar apoiadores em frente ao Palácio do Planalto enquanto deveria estar em isolamento, uma vez que teve contato bastante próximo com Fabio Wajngarten, secretário de Comunicação que testou positivo para o vírus. O presidente voltou a ficar contrariado com Mandetta. 

Procurado por inúmeros veículos de comunicação para falar sobre a atitude do presidente em estimular as manifestações — Bolsonaro também passou o dia postando em suas redes sociais os movimentos daquele domingo —, o ministro da Saúde desautorizou o chefe e disse que orientação de aglomeração é “não” a todos. 

Em entrevista à CNN Brasil, o ministro chamou de “equivocadas” quaisquer tipos de aglomeração neste momento. 

Quem convive de perto com Bolsonaro destaca que ele não lida bem com ser deixado em segundo plano — e pior ainda se é contrariado. Em diversos momentos no seu governo já deu mostras disso, como em rixas com o ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro.

Mandetta nunca foi do núcleo mais próximo ao presidente e não é considerado de nenhuma ala: militar ou ideológica. Desde que assumiu sozinho à frente da crise do coronavírus, tem recebido elogios por sua atuação, que em muito contrasta com a de outros auxiliares de Bolsonaro. 

Somente nesta segunda-feira (16), o governo decidiu instalar um comitê de crise para operacionalizar e concentrar na Casa Civil as ações interministeriais adotadas no combate ao vírus no País. Até então, tudo estava concentrado no Ministério da Saúde, que estava sempre em contato com o Planalto e demais colegas da Esplanada dos Ministérios que, porventura, achasse necessário acionar.

Divergências nos discursos

Mandetta vem conduzindo o surto de coronavírus com serenidade, tentando evitar pânico na população. Contudo, sem deixar de lado a seriedade que o tema exige. Essa é a avaliação dentro e fora do governo.

Por sua vez, o presidente vem tratando o assunto com desdém desde o início, quando o vírus ainda nem havia chegado ao Brasil e se falava em trazer brasileiros e familiares da China. Foram ponderações de Mandetta que amenizaram o discurso de Bolsonaro sobre a operação de repatriação ser “cara” e não compensar expor 200 milhões de brasileiros ao risco por causa de “alguns que estavam lá”. 

É por conta dessa distância de pensamentos que o presidente tem se aproximado mais, quando se trata de questões de saúde, do presidente da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), Antonio Barra Torres, que colocou no lugar de William Dib. 

Torres estava ao seu lado no domingo, quando cumprimentou apoiadores no Planalto, rompendo isolamento. Ganhou sua confiança quando conseguiu barrar a liberação do plantio de maconha.