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02/04/2020 20:39 -03 | Atualizado 02/04/2020 21:09 -03

Bolsonaro: ‘Nenhum ministro é indemissível. Falta humildade a Mandetta’

Presidente volta a falar em "histeria" — dentro do Ministério da Saúde — e diz que o ministro teria que ouvi-lo mais.

Andre Coelho via Getty Images
Presidente Jair Bolsonaro criticou Luiz Henrique Mandetta nesta quinta-feira (2): "falta humildade".

Cada vez mais isolado em seu próprio governo, o presidente Jair Bolsonaro reclamou e criticou nominalmente seu ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, sobre a condução que ele tem feito da crise do coronavírus.

“Nenhum ministro meu é indemissível. O Mandetta, em alguns momentos... Ele teria que ouvir um pouco mais o presidente da República”, disparou na noite desta quinta-feira (2), em entrevista ao programa Pingos nos Is, na rádio Jovem Pan.

Segundo Bolsonaro, “Mandetta quer fazer valer muito a vontade dele”. “Pode ser que ele esteja certo, mas está faltando um pouco de humildade dele para conduzir o Brasil neste momento difícil em que nos encontramos e precisamos dele para que vença a batalha com menor número de mortes possível”, cutucou.

Questionado sobre o que quis dizer sobre o ministro “fazer valer muito a vontade dele”, mencionou “isolamento vertical, horizontal”.

O presidente e o ministro da Saúde têm posições conflitantes em especial sobre duas questões: o isolamento social e a efetividade da cloroquina para o tratamento da covid-19.

Enquanto Mandetta tem sido nos últimos dias bastante enfático ao desaconselhar o uso da medicação — a não ser em casos graves — e a pedir que a população permaneça em casa, o presidente recebe médicos, sem chamar seu ministro, para debater sobre o uso do remédio e repete que é necessário que as pessoas voltem ao trabalho.

O presidente também voltou a falar em “histeria” sobre o coronavírus — inclusive dentro do Ministério da Saúde. “O que aconteceu por parte de alguns profissionais do ministério dele [Mandetta], aquela histeria, clima de pânico que começou há 40 dias, contagiou alguns lá. Reconheço isso como mais velho que eles, entendo. Agora está no momento de todos colocarem o pé no chão e entender que, se destruir o vírus, e destruir todos os empregos, vamos destruir o Brasil.”

E ainda completou: “É isso que temos que entender. Em guerra se perdem soldados. Vamos perder gente também na luta contra vírus. Mas se fizer dessa forma, até por orientação do Ministério da Economia (sic, quis dizer Saúde) o preço vai ser muito alto a ser pago lá na frente. Boa sorte ao Mandetta. Espero que ele prossiga na sua missão com um pouco mais de humildade e a gente olhe lá para trás e veja que fizemos o melhor para o Brasil”.

Logo após a entrevista, questionado pelo jornal O Globo, o ministro da Saúde disse que não ouviu os ataques do chefe. “Não achei nada, não. Não estou sabendo de nada não. Estou trabalhando aqui”.

A gangorra entre chefe e subordinado

O ministro Luiz Henrique Mandetta assumiu, desde o início da crise do coronavírus, a dianteira da situação. Quando a pandemia de fato se agravou e ele começou a ganhar protagonismo e aparecer diariamente na televisão em entrevistas coletivas diárias para atualizar o panorama nacional e as medidas que o governo vinha adotando, teve início o incômodo do presidente com ele. Ciúme

Em 16 de março, Bolsonaro deu início a um processo de desidratação de Mandetta, não sem antes, no dia anterior, ter desautorizado seu ministro publicamente, pela primeira vez de uma forma que foi considerada interna e externamente “grave”: ainda sem refazer a contraprova para o coronavírus, após o retorno de viagem aos EUA (22 pessoas da comitiva foram diagnosticadas com covid-19), o mandatário cumprimentou e trocou objetos com apoiadores em frente ao Palácio do Planalto em uma manifestação. 

De lá pra cá, a tensão entre os dois vem crescendo. Mas até semana passada, Mandetta vinha se mantendo calado, preferindo o posicionamento político, ponderado. 

Mas a tentativa de agradar ao chefe foi alvo de críticas de governadores, prefeitos e secretários de saúde. Após muita cobrança de sua equipe, o ministro decidiu, no sábado passado, soltar o verbo. Depois de uma reunião “tensa” no Palácio da Alvorada, da qual participaram também outros colegas da Esplanada, Mandetta disse ao próprio presidente que não mais se omitiria sobre o que “técnica e ciência” orientam fazer no caso do coronavírus. 

Para a maior autoridade em saúde, a OMS (Organização Mundial de Saúde), o melhor é manter o isolamento social. 

Naquela tarde, o ministro repetiu inúmeras vezes: fiquem em casa. E tem falado isso todos os dias desde então. 

Na terça (31), por orientação do núcleo militar palaciano, em especial do general Eduardo Villas Bôas, Bolsonaro fez um pronunciamento mais brando do que na semana passada, em que não criticou as medidas tomadas e orientadas pelo Ministério da Saúde. 

Porém, como interlocutores alertaram, a fala à nação não representaria uma mudança de postura do mandatário, o que vem se comprovando desde quarta pela manhã por postagens em suas redes sociais.

Isolamento social para Bolsonaro

Na entrevista na noite desta quinta, Bolsonaro voltou a defender que as pessoas retornem ao trabalho. “A grande massa de trabalhadores, no meu entendimento, mas tenho que seguir protocolos, poderia estar trabalhando”, disse.

O presidente ainda afirmou que só está esperando o povo “pedir mais” para editar um decreto derrubando o isolamento social. “Você sabe que o presidente pode muito, mas não pode tudo. Temos gente poderosa em Brasília que espera um tropeção meu... Estou esperando o povo pedir mais. Tenho que ser responsável a esse ponto. Governadores querem que eu tome a decisão para trazer a culpa para o meu colo. Mas a partir de semana que vem, se não tiver uma decisão, vou ter que tomar uma providência. E seja o que o povo brasileiro quer”, afirmou.

Desde o início da semana Jair Bolsonaro tem dito que estuda editar um decreto para que pessoas responsáveis pelo sustento da família possam voltar ao trabalho, apesar dos decretos estaduais e municipais que impõem isolamento social.