POLÍTICA
25/01/2019 11:42 -02 | Atualizado 25/01/2019 13:02 -02

Em reação a saída de Jean Wyllys, família Bolsonaro volta a ligar PSol a atentado

Autor da facada em Bolsonaro foi filiado ao mesmo partido de Jean Wyllys. Ameaçado de morte, deputado anunciou que renunciará ao mandato.

Montagem/ Agência Brasil e Associated Press

Depois que Jean Wyllys (PSol-RJ) anunciou que renunciará ao mandato de deputado federal por causa de ameaças de morte, o presidente JairBolsonaro (PSL) e 2 de seus filhos voltaram a ligar, nas redes sociais, o atentado a faca contra Bolsonaro durante a campanha com o PSol.

Adélio Bispo, autor da facada em Bolsonaro no dia 6 de setembro do ano passado, foi filiado ao mesmo partido de Wyllys. Os Bolsonaros compartilham as sugestões de que há relação entre o deputado, o partido e Bispo. Em seu perfil no Twitter, o presidente publicou o que seriam evidências dessas possíveis ligações.

Eduardo Bolsonaro, filho do presidente e deputado federal reeleito, também retuitou uma postagem do perfil Renova Mídia, que publicou um texto que sugere ligação entre Wyllys e Bispo.

“Apesar de não existir nenhuma evidência conectando o agora ex-deputado psolista Jean Wyllys com o extremista de esquerda Adélio Bispo, muitos internautas estão se questionando sobre os reais motivos das atitudes recentes tomadas pelo ex-participante de reality show”, afirma o texto.

Reprodução/ Twitter

 Histórico conflituoso

Bolsonaro e Jean Wyllys protagonizaram diversos embates na Câmara dos Deputados nos últimos 8 anos. Único parlamentar autodeclarado gay, Wyllys atuou muitas vezes contra declarações homofóbicas de Bolsonaro como deputado. 

O presidente já chegou a dizer, em entrevista, que preferia que um filho morresse a que ele fosse gay. Ainda segundo Bolsonaro, uma pessoa se torna homossexual quando não tem uma boa educação e um pai presente.

O principal choque entre os dois, entretanto, foi relacionado à homenagem que Bolsonaro fez ao torturador Brilhante Ustra na votação do processo de impeachment contra a ex-presidente Dilma Rousseff. Em reação à fala de Bolsonaro, Jean Wyllys cuspiu no deputado.

Na época, a assessoria de imprensa de Wyllys afirmou ao HuffPost que, antes de o deputado cuspir em Bolsonaro, ele tinha sido “agarrado de forma violenta” e xingado de “viado”, “boiola” e “queima-rosca”.

Bolsonaro, então, acusou Wyllys de “heterofobia”. O deputado do PSol rebateu:

“Ele cospe diariamente nos direitos de lésbicas, gays, bissexuais e transexuais. Ele cospe diariamente na democracia. Ele usa a violência física contra seus colegas na Câmara, chamou uma deputada de vagabunda e ameaçou estuprá-la. Ele cospe o tempo todo nos direitos humanos, na liberdade e na dignidade de milhões de pessoas. Eu não saí do armário para o orgulho para ficar quieto ou com medo desse canalha”.

 

Ameaças de morte

Na última quinta-feira (24), Wyllys anunciou que renunciará ao mandato. Ele afirmou que vem sofrendo ameaças constantes e que quer se “manter vivo”. “Preservar a vida ameaçada é também uma estratégia da luta por dias melhores”, escreveu no Facebook.

Em carta ao PSol, divulgada primeiro pelo Estado de S. Paulo, Wyllys apontou como determinante a relação noticiada esta semana de que parentes de um miliciano que chefiaria o Escritório do Crime - organização especializada em assassinatos por encomenda e investigada pela morte de Marielle Franco - trabalhavam no escritório de Flávio Bolsonaro. 

“Esta semana (…) foi a semana em que notícias começaram a desnudar o planejamento cruel e inaceitável da brutal execução de nossa companheira e minha amiga Marielle Franco. Vejam, companheiras e companheiros, estamos falando de sicários que vivem no Rio de Janeiro, estado onde moro, que assassinaram uma companheira de lutas, e que mantém ligações estreitas com pessoas que se opõem publicamente às minhas bandeiras e até mesmo à própria existência de pessoas LGBT”, pontuou.

Disse ainda que a decisão foi pensada, ponderada, porém difícil. “Tenho consciência do legado que estou deixando ao partido e ao Brasil, especialmente no que diz respeito às chamadas ‘pautas identitárias’ (na verdade, as reivindicações de minorias sociais, sexuais e étnicas por cidadania plena e estima social) e de vanguarda, que estão contidas nos projetos que apresentei e nas bandeiras que defendo; conto com vocês para darem continuidade a essa luta no Parlamento.”

O parlamentar vive com escolta policial desde o assassinato de Marielle, em março do ano passado. 

Risco à democracia

As denúncias de Jean Wyllys foram consideradas graves pelo vice-presidente general Hamilton Mourão. 

“Quem ameaça parlamentar está cometendo um crime contra a democracia. Uma das coisas mais importante é você ter sua opinião e ter liberdade para expressar sua opinião”, disse. 

Ele ressaltou que os parlamentares são eleitos pelo voto, “representam cidadãos que votaram neles”. “Quer você goste, quer você não goste das ideias do cara, você ouve. Se gostou bate palma, se não gostou, paciência”, afirmou a jornalistas nesta sexta-feira (25).