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29/03/2019 09:06 -03 | Atualizado 29/03/2019 09:27 -03

Bolsonaro embarcará para Israel sem previsão de cumprir promessa sobre embaixada

Presidente afirmou que pode 'talvez' abrir escritório de negócios em Jerusalém, decisão menos radical que transferir embaixada.

ASSOCIATED PRESS
Bolsonaro acompanha o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, em visita à sinagoga no Rio no fim de 2018.

Jair Bolsonaro não era ainda nem candidato à Presidência quando começou a defender publicamente que o Brasil reconhecesse Jerusalém como capital de Israel, transferindo a embaixada do País, hoje em Tel Aviv, para a cidade sagrada para judeus, católicos e muçulmanos.

A ideia foi reafirmada por Bolsonaro durante a campanha eleitoral e se tornou promessa, confirmada após sua eleição e a sua posse - na qual, pela primeira vez, esteve presente um primeiro-ministro israelense.

No entanto, após mais de um ano de uma retórica altamente criticada - e a dois dias de sua primeira viagem oficial a Israel como presidente -, Bolsonaro recuou e afirmou que pode “talvez” abrir um escritório de negócios em Jerusalém, ao invés de transferir a embaixada brasileira.

“Quem define as questões de Estado é o Estado de Israel e ponto final. [O presidente americano Donald] Trump levou nove meses para decidir, dar a palavra final para que a embaixada fosse [transferida]. Nós talvez abramos agora um escritório de negócios em Jerusalém”, afirmou Bolsonaro na última quinta-feira (28). 

A decisão seria um meio-termo um pouco mais confortável para o corpo diplomático brasileiro - que, em grande parte, não concorda com a transferência da embaixada, apesar do apoio do chanceler Ernesto Araújo à ideia de Bolsonaro.

Possivelmente não agradará o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, que veio até o Brasil para a posse e conta com a presença de Bolsonaro para melhorar seu passe para as eleições parlamentares que ocorrerão em Israel no próximo dia 9. 

Mudar a embaixada de local significa reconhecer Jerusalém como capital de Israel, o que a ONU não só não faz como já pediu aos países que não sediem missões diplomáticas na cidade.

Para os palestinos, Jerusalém deveria ser a capital do seu Estado independente. O Brasil reconheceu o Estado palestino em 2010 e sempre teve boas relações com os países árabes.

Na última quarta-feira (27), em audiência na Comissão de Relações Exteriores da Câmara, Araújo disse que os críticos da aproximação do Brasil com Israel têm uma ideia errada sobre o Oriente Médio atual, de que os governos árabes estão contra Israel - e que, portanto, o País estaria fechando as portas aos árabes ao seguir com o movimento pró-Israel. 

Só em 2017, o Brasil exportou US$ 12,7 bilhões para 17 países árabes - valor equivalente a 5,9% do total vendido pelo País para todo o mundo -, contra US$ 466 milhões em produtos brasileiros importados por Israel, segundo dados do Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (MDIC).

 

Mudança de voto do Brasil na ONU

Se pode não entregar todo o pacote prometido para Netanyahu sobre a questão da embaixada, Bolsonaro deverá, ao menos, capitalizar com o aliado a mudança de posicionamento do Brasil demonstrada recentemente em votação do Conselho de Direitos Humanos da ONU, em Genebra.

Rompendo uma tradição diplomática brasileira, o governo Bolsonaro se posicionou a favor de Israel na votação de duas resoluções sobre territórios reivindicados pela Síria e pelo governo palestino. Nos últimos governos, o Brasil costumava se abster ou então votar contra Israel.

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Bolsonaro recebe Netanyahu no Rio de Janeiro.

O primeiro texto condenava Israel pela “sistemática e contínua violação dos direitos humanos fundamentais” de sírios que vivem nas colinas de Golã, território ocupado pelos israelenses desde 1967. A outra resolução exigia justiça contra violações cometidas por Israel nos territórios palestinos, em especial durante o conflito na faixa de Gaza em 2014.

“Apoiar o tratamento discriminatório contra Israel na ONU era uma tradição da política externa brasileira dos últimos tempos. Estamos rompendo com essa tradição espúria e injusta, assim como estamos rompendo com a tradição do antiamericanismo, do terceiromundismo e tantas outras”, escreveu o chanceler Ernesto Araújo no Twitter após a decisão.

 

Viagem em meio ao caos interno 

Bolsonaro chega a Israel no domingo (31) e a previsão é de que a viagem se estenda até o dia 4, quinta-feira, em meio a uma crise de articulação envolvendo o Planalto e o Congresso sobre a reforma da Previdência.

Também deve ficar só para depois da viagem qualquer definição de Bolsonaro sobre o Ministério da Educação, que enfrenta momento de caos com demissões, decisões polêmicas e recuos.

Com Bolsonaro, desta vez, viajará um outro filho. Sempre acompanhado por Eduardo Bolsonaro em tours internacionais, o presidente desta vez carregará a tiracolo o senador Flávio Bolsonaro, que vinha se mantendo distante dos holofotes desde o escândalo envolvendo movimentações financeiras suspeitas. 

A agenda da visita de Bolsonaro ainda não foi oficialmente anunciada, mas é esperado que ele visite o Museu do Holocausto e o Muro das Lamentações. Ele irá condecorar, com a Ordem Nacional do Cruzeiro do Sul - a mais alta honraria brasileira concedida a cidadãos estrangeiros e que foi também dada a Netanyahu -, os 136 soldados e oficiais israelenses que ajudaram no resgates às vítimas de Brumadinho.

Segundo a coluna do Lauro Jardim, no jornal O Globo, o presidente também deve visitar startups e o bairro de Ranana, onde vivem cerca de 2,5 mil brasileiros. 

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Batismo de Bolsonaro no rio Jordão, em maio de 2016, pelo pastor Everaldo, presidente do PSC. 

A aproximação de Bolsonaro com Israel teve início em maio de 2016, quando o então deputado federal, que é católico, viajou com os filhos e o pastor Everaldo, presidente do PSC, para ser batizado no rio Jordão.

Desde então, não esconde o deslumbramento com Israel, destacando sempre seu avanço tecnológico e força militar. Ao receber Netanyahu no Rio, no fim de dezembro, Bolsonaro disse que Israel deveria ser um exemplo para os brasileiros. “Olhem para o que eles não têm e vejam o que eles são. Agora olhem para o Brasil. Vejam o que nós temos e o que nós não somos”, disse.

O tom é o mesmo esperado para a viagem de 4 dias, na qual Bolsonaro sequer passará por territórios palestinos.