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31/03/2020 21:36 -03 | Atualizado 31/03/2020 21:52 -03

Após críticas de todos os lados, Bolsonaro suaviza tom em novo pronunciamento em rede nacional

Presidente recua de defesa única de economia e empregos, diz que "toda vida importa" e não fala nada sobre isolamento.

Reprodução pronunciamento
Presidente modula tom e defende equilíbrio entre saúde e economia em quarto pronunciamento sobre coronavírus.

De volta à rede nacional de rádio e televisão na noite desta terça-feira (31), o presidente Jair Bolsonaro modulou o tom do discurso que vem adotando sobre a pandemia do coronavírus. Desta vez, não falou nada sobre isolamento social. No lugar de “gripezinha” e da necessidade de focar na economia, falou em “salvar vidas sem deixar para trás os empregos”. 

“Vamos cumprir essa missão ao mesmo tempo em que cuidamos da saúde das pessoas. O vírus é uma realidade. Ainda não existe vacina contra ele ou remédio com eficiência cientificamente comprovada, apesar da hidroxocloroquina parecer bastante eficaz. O coronavírus veio e um dia irá embora”, afirmou o mandatário, demonstrando uma mudança significativa do que vinha afirmando até, pelo menos, domingo (29). 

Bolsonaro pegou carona em trechos do discurso do diretor-geral da OMS (Organização Mundial da Saúde), Tedros Adhanom, para justificar sua preocupação com empregos. “[Ele] Disse saber que muitas pessoas, de fato, têm que trabalhar todos os dias para ganhar seu pão diário, e que os governos têm que levar essa população em conta. Continua ainda: se fecharmos ou limitarmos movimentações, o que acontecerá com essas pessoas que têm que trabalhar todos os dias e que têm que ganhar o pão de cada dia? Ele prossegue: então cada país, baseado em sua situação, deveria responder a essa questão”, reproduziu Bolsonaro. 

E ainda continuou: “Não me valho dessas palavras para negar a importância das medidas de contenção e controle da pandemia. Mas para mostrar que, da mesma forma, precisamos pensar nos mais vulneráveis. Esta tem sido a minha preocupação desde o princípio”.

Bolsonaro não contextualizou bem a afirmação de Tedros sobre limitação de circulação de pessoas. O diretor-geral da OMS disse que restrição de liberdades “é muito difícil” e deve ser sempre analisada com cuidado. “Essas medidas não são fáceis e estão prejudicando as pessoas, mas a alternativa [pessoas circulando] é ainda pior.” 

Na declaração completa, Tedros registrou preocupação com a população mais vulnerável que precisar sair para trabalhar e ter renda, mas cobrou uma resposta dos governantes, com ações de assistência para essas pessoas.

Na manhã desta terça Bolsonaro já havia distorcido a fala de Tedros, dizendo que o diretor da OMS concordava com suas posições. O clã Bolsonaro tem distribuído nas redes sociais um vídeo com trechos editados da fala do diretor-geral da OMS em que ele menciona as preocupações com os impactos sociais do isolamento entre os mais pobres.

Após a repercussão do uso descontextualizado de sua fala por Bolsonaro, Tedros Adhanom foi às redes sociais destacar mais uma vez sua posição. 

“Eu cresci pobre e compreendo esta realidade. Apelo aos países para que desenvolvam políticas que ofereçam proteção econômica às pessoas que estão sem renda ou sem trabalhar em meio à pandemia #COVID19. Solidariedade!”, escreveu.

Em diferentes ocasiões recentemente, o presidente referiu-se às perdas de vida pelo coronavírus como inevitáveis em um tom desrespeitoso. Esta noite, porém, ajustou a retórica: “Infelizmente teremos perdas neste caminho. Eu mesmo já perdi entes queridos no passado. Todos nós temos que evitar ao máximo qualquer perda de vida humana. Como disse o diretor da OMS: todo individuo importa. Ao mesmo tempo, devemos evitar a destruição de empregos que já vem trazendo muito sofrimento para os trabalhadores brasileiros”.

Alvo de críticas por parte do Legislativo, do Judiciário e de governadores, com quem ele próprio tem travado batalhas por dias seguidos, o presidente fez um apelo por um “pacto pela preservação da vida e empregos com o Parlamento, o Judiciário, governadores, prefeitos e a sociedade”.  

Mudanças de ideia

O presidente tinha desistido de fazer este novo pronunciamento após reunião com ministros no sábado (28) pela manhã. A veemência com que o chefe da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, defendeu posições contrárias às suas em entrevista coletiva naquela tarde, porém, o fez mudar de ideia.

E não foi só. No dia seguinte, para mandar recado a seu subordinado, afrontando as orientações que ele deu no dia anterior - por diversas vezes o ministro disse: “Fiquem em casa” - Bolsonaro fez um passeio por duas cidades satélites do Distrito Federal. E repetiu um gesto que já havia lhe gerado críticas em 15 de março: cumprimentou populares, aproximou-se de pessoas em um momento em que o mundo se mantém alerta, distante e isolado socialmente. 

Fontes do Planalto afirmaram, nesta terça, que o presidente adotaria na fala desta noite um tom buscando consenso. 

Esta é a quarta vez que o presidente usa a rede nacional de rádio e televisão neste mês para falar sobre o coronavírus. Foram nos dias 6, 12, 24 e agora, nesta terça. 

No pronunciamento da semana passada, o presidente elevou o tom ao defender, com veemência, o fim do isolamento social e o retorno dos brasileiros à “normalidade”, falando em manter em casa apenas pessoas com mais de 60 anos e com doenças-pré-existentes. Defendeu ainda o uso de cloroquina no tratamento do coronavírus, e chamou mais uma vez a covid-19 de “gripezinha”. 

Escrito a várias mãos e com aval final do filho Carlos, a fala da última terça foi voltada à militância bolsonarista. As declarações de Bolsonaro repercutiram quase que imediatamente no mundo político, jurídico e na comunidade médica.