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24/03/2020 21:14 -03 | Atualizado 25/03/2020 17:50 -03

Em rede nacional, Bolsonaro critica medidas de isolamento: 'Devemos voltar à normalidade'

Presidente diz que governadores devem abandonar ‘conceito de terra arrasada’; ele foi mais uma vez alvo de panelaço em capitais.

Ueslei Marcelino / Reuters
Em pronunciamento em rede nacional de rádio e TV, presidente minimiza mais uma vez coronavírus. 

O presidente Jair Bolsonaro retornou à cadeira nacional de rádio e televisão na noite desta terça-feira (23) para falar de coronavírus e dizer que “devemos voltar à normalidade”, criticando novamente medidas de isolamento que vêm sendo adotadas praticamente em todo o País e no mundo, como fechamento de comércio e isolamento social. Enquanto falava, várias cidades do País registraram panelaços. 

“A vida tem que continuar, os empregos devem ser mantidos, o sustento das famílias deve ser preservado. Devemos, sim, voltar a normalidade”, afirmou. 

Nesta terça, o Brasil confirmou a 46ª morte pelo coronavírus e passou de 2 mil infectados pela covid-19. 

O presidente não inovou no discurso, que seguiu o mesmo script que tem adotado desde o início do surto de coronavírus. Ele foi, porém, mais contundente desta vez, no pronunciamento em rede nacional, sobre seu posicionamento. 

“Algumas poucas autoridades estaduais e municipais devem abandonar o conceito de terra arrasada. A proibição de transporte, o fechamento de comércio e o confinamento em massa. O que se passa no mundo tem mostrado que o grupo de risco é o das pessoas acima dos 60 anos. Então, por que fechar escolas? Raros são os casos fatais de pessoas sãs com menos de 40 anos de idade.”

A retórica de Bolsonaro, mais do que uniforme, assemelha-se à do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que também nesta terça-feira, defendeu o fim do isolamento e disse que a população “quer voltar ao trabalho”. Isso, após dias de um discurso ponderado. A fala do norteamericano ocorreu depois que a OMS disse que os EUA, com mais de 42 mil casos, podem se tornar o novo epicentro da pandemia. 

Jair Bolsonaro mencionou ainda testes que vêm sendo realizados com cloroquina no tratamento do coronavírus. “Nosso governo tem recebido notícias positivas sobre esse remédio fabricado no brasil, largamente utilizado no tratamento à malária, lupus e artrite. Acredito em Deus, que capacitará cientistas e pesquisadores do Brasil e do mundo na cura desta doença.” 

Acontece que a própria Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) já alertou que, ”apesar de promissores, não existem estudos conclusivos que comprovam o uso desses medicamentos para o tratamento da covid-19”. “Assim, não há recomendação da Anvisa, no momento, para o uso em pacientes infectados ou mesmo como forma de prevenção à contaminação. Ressaltamos que a automedicação pode representar um grave risco à sua saúde”, afirmou a agência reguladora em nota. 

Especialistas alertam para efeitos colaterais de medicamentos à base do composto e pedem que a população evite correr para comprar esse produto, já que ele é utilizado para tratar outras doenças e, mais uma vez, não há comprovação de que cure coronavírus. 

Bolsonaro ainda voltou a se referir à covid-19 como “gripezinha” falando sobre si e aproveitou para ironizar o dr. Drauzio Varela, que vem recomendando que as pessoas fiquem em casa.

No meu caso particular, pelo meu histórico de atleta, caso fosse contaminado pelo vírus, não precisaria me preocupar, nada sentiria ou seria, quando muito, acometido de uma gripezinha ou resfriadinho, como bem disse aquele conhecido médico daquela conhecida televisão”. 

A Folha de S.Paulo informou nesta terça (23) que o Twitter apagou postagens do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, e do primogênito do mandatário, senador Flávio Bolsonaro (sem partido-RJ). A rede social considerou que eles utilizaram um vídeo de Drauzio Varella sobre coronavírus fora de contexto. 

Na ocasião, o médico falava que estava vivendo normalmente e não havia motivos para pânico. Era janeiro. O primeiro caso de coronavírus chegou ao Brasil em 25 de fevereiro. “A empresa considerou que as postagens violavam as regras de uso da rede ao potencialmente colocar as pessoas em maior risco de transmitir o vírus”, destacou a Folha. 

Bolsonaro vem focando seu discurso na importância de preservar a economia e “conter o pânico, a histeria e traçar estratégias para salvar vidas e evitar o desemprego em massa”. 

Repercussão

Minutos depois do pronunciamento, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), e o vice-presidente da Casa, Antonio Anastasia (PSDB-MG), afirmaram, por meio de nota, considerarem “grave a posição externada pelo presidente de ataque às medidas de contenção ao covid-19”.

“Reafirmamos e insistimos: não é momento de ataque à imprensa e a outros gestores públicos. É momento de união, de serenidade e equilíbrio, de ouvir os técnicos e profissionais da área para que sejam adotadas as precauções e cautelas necessárias para o controle da situação, antes que seja tarde demais”, destacaram no texto. 

O líder da oposição na Câmara, Alessandro Molon (PSB-RJ), também se manifestou em seguida, e disse que o presidente demonstrou “desconexão com a realidade” e, sua fala “irresponsabilidade” ao negar a “gravidade” da covid-19. 

“Quando a população esperava um plano de ação robusto, Bolsonaro mostrou que se desconectou de vez da realidade. Em pronunciamento que atingiu o ápice da irresponsabilidade, negou a gravidade do novo coronavírus, insistiu que se trata de uma “gripezinha” e convocou as pessoas a voltarem às ruas. Segue na contramão de líderes mundiais que prezam pela sua população. É um crime contra a vida do povo brasileiro”, disse Molon. 

Jovens também são vítimas

Apesar da fala do presidente de que “raros são os casos fatais de pessoas sãs com menos de 40 anos de idade”, há sim vítimas nessa faixa etária. Além disso, crianças são consideradas vetores da doença. 

Na última segunda, dia 16 de março, a OMS ressaltou que ainda não há evidências claras que como o vírus de manifesta em crianças, mas que já houve mortes. 

Em sua fala, o diretor-geral Tedros Adhanom Ghebreyesus, defendeu a necessidade de as pessoas saberem qual pessoa lhe transmitiu o vírus e de manter as estratégias de contenção do risco. “A mensagem central é: testar, testar e testar”, disse. “Você não consegue parar essa pandemia se não souber quem está infectado. Esta é uma doença séria. Embora as evidências sugiram que aqueles com mais de 60 anos corram maior risco, jovens, incluindo crianças, morreram”, disse.

A Época relatou que um jovem de 26 anos morreu com covid-19, mas não conseguiu ser diagnosticado em vida.