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26/03/2020 03:00 -03 | Atualizado 27/03/2020 18:29 -03

Ao insistir em 'normalidade' em pandemia, Bolsonaro constrange aliados e se isola

Avaliação de pessoas próximas ao presidente é que ele não deve recuar e próximos dias devem ser de elevação do tom beligerante.

A pandemia de coronavírus foi a primeira crise, em 15 meses da gestão Jair Bolsonaro, não produzida artificialmente pelo clã bolsonarista. Em 5 minutos, porém, o mandatário conseguiu ampliar o tamanho dos atritos e se isolar até mesmo dentro do próprio governo.

Ao afirmar no pronunciamento em rede nacional na noite de terça-feira (24) que o País precisa “voltar à normalidade”, quando a orientação da OMS (Organização Mundial de Saúde) é restringir ao máximo a circulação de pessoas, o presidente gerou uma reação em cadeia: além de surpreender auxiliares próximos, que se viram desconfortáveis e sem respostas, encheu a oposição de munição. 

Ele perdeu o apoio até de um de seus mais aguerridos aliados: o governador de Goiás, Ronaldo Caiado (DEM). Ele chegou a dizer na quarta-feira (25) que não respeitará mais as decisões de Bolsonaro: “Não tem mais diálogo com esse homem”.

A fala em cadeia nacional do presidente foi escrita a várias mãos, sob o olhar atento do filho Carlos Bolsonaro, considerado o mais radical de todos. Mesmo ministros palacianos que têm estado ao lado do presidente em momentos complicados com o Congresso, mantiveram-se cabisbaixos nesta quarta. O clima pelos corredores do Palácio do Planalto, segundo relatos feitos ao HuffPost, era de constrangimento. 

Sem ser ouvido em conversas, nem chamado a opinar, tendo como única frente de ação o Conselho da Amazônia, o vice-presidente Hamilton Mourão convocou uma coletiva sobre o tema, na qual aproveitou para desautorizar Jair Bolsonaro, dizendo que ele pode ter “se expressado mal”. 

“A posição do governo por enquanto é uma só: a posição do governo é o isolamento e o distanciamento social. Está sendo discutido e ontem o presidente buscou colocar, pode ser que tenha se expressado de uma forma que não foi a melhor, mas o que ele buscou colocar é a preocupação que todos nós temos com a segunda onda. Temos a primeira onda, que é a saúde, e a segunda que é a questão econômica”, afirmou.

Segundo o que pensa Bolsonaro, disse Mourão, é preciso esperar passar esse período que estamos em isolamento para que haja “calibragem” na forma pela qual a epidemia está se espalhando. “E, a partir daí, se possa gradativamente ir liberando as pessoas dentro de atividades essenciais para que a vida vegetativa do País prossiga.”

Outro exemplo do tamanho do constrangimento provocado por Bolsonaro e sua atuação foi observado na teleconferência da manhã de quarta com governadores do Sudeste, quando Bolsonaro bateu boca com o chefe do Executivo de São Paulo, João Doria.

Enquanto o presidente respondia críticas recebidas pelo ex-aliado, acusando-o de “leviano” e “demagogo”, ministros apenas olhavam para baixo, rabiscavam no papel, evitando inclusive “olhar entre si”, relatou um dos participantes da reunião ao HuffPost.  

Apesar do incômodo quase generalizado - menos da ala radical, que neste momento é minoria -, avalia-se que dificilmente o presidente irá recuar e admitir que errou em algo. Afirma-se, nos bastidores, que “não é do feitio de Bolsonaro admitir erros ou derrotas, ou abaixar a cabeça”. 

O que aliados esperam para os próximos dias, ao contrário, é uma elevação no tom e na beligerância nas redes sociais, entrevistas, pronunciamentos.

 

Um futuro incerto

Os ânimos no Palácio do Planalto estão de tal forma à flor da pele — e dizem fontes do governo que, em grande parte, pelo temperamento explosivo e as “síndromes de perseguição típicas do presidente” —, que uma coletiva de imprensa prevista para ocorrer após a teleconferência com os governadores do Sudeste na manhã de quarta, bem como um pronunciamento de Bolsonaro, foram cancelados.

No resto do dia, a expectativa ficou em torno do futuro do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta. E deve seguir ainda pelos próximos. 

Médico por formação, o deputado que se afastou de sua vaga na Câmara para assumir o cargo vem sendo constantemente elogiado pelo trabalho técnico que tem implementado na pasta na gestão da crise do coronavírus, o que gerou ciúme no chefe. Por conta disso, desde semana passada, Bolsonaro tomou à frente das manifestações do governo a respeito da pandemia. Foi desde então, inclusive, que a crise interna vem crescendo. 

Na manhã de quarta, Bolsonaro disse que conversaria com Mandetta para uma modulação no discurso do ministério. Na rotineira coletiva de imprensa para atualizar os dados do coronavírus, o ministro afirmou que fica no governo e chegou a mandar breves recados para o chefe. 

“Eu saio daqui na hora que o presidente - que me nomeou - achar que não devo trabalhar, ou se estiver doente, ou no momento em que achar que esse período todo de turbulência já tenha passado e eu possa não ser mais útil. Nesse momento de crise, vou trabalhar ao máximo, a equipe está empenhada, vamos trabalhar com critério técnico.”

No fim das contas, contudo, o presidente venceu e conseguiu fazer que Mandetta recuasse em parte de sua retórica. “Não vamos fazer nada que a gente não tenha confiança que possa sugerir. Temos de melhorar essa coisa da quarentena, não foi bom, foi precipitado, foi cedo”, reconheceu Mandetta.

A restrição de circulação de pessoas é adotada para reduzir o ritmo de contágio e evitar que um grande número de pessoas fique doente ao mesmo tempo, o que poderia provocar um colapso do sistema de saúde. Esse alerta foi feito pelo próprio ministro da semana passada. 

O número de casos confirmados do novo coronavírus no Brasil chegou a 2.433, de acordo com balanço divulgado pelo Ministério da Saúde nesta quarta. Já são 57 mortos em 5 estados. 

Apesar de ter dito publicamente que fica e repetir a quem lhe pergunta que não quer deixar a pasta, Mandetta afirma a amigos mais próximos saber que está com a cabeça a prêmio. Para substituí-lo já existem até nomes na jogada: o atual presidente da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), Antonio Barra, e o ex-ministro da Cidadania Osmar Terra. 

Barra é militar e está ao lado de Bolsonaro com frequência. Inclusive, foi quem endossou a decisão do presidente no último dia 15 de março de aparecer no Palácio do Planalto e apertar a mão de manifestantes

Terra, por outro lado, é do MDB, partido de Paulo Skaf, presidente da Fiesp, com quem Bolsonaro também tem estado constantemente em contato. O empresário vem trabalhando bastante para viabilizar o Aliança pelo Brasil, o partido que Bolsonaro tenta colocar de pé. 

E o DEM?

Pelo sim, pelo não, Mandetta aguarda e faz o discurso mais político possível. Em seu partido, o DEM, embora haja uma divisão sobre sua permanência no cargo ou não - há uma parte que acredita que, desde 15 de março, quando Bolsonaro apareceu na manifestação contra o Congresso e o STF e começou a repetir que tem que estar ao lado do povo, o ministro deveria ter pedido demissão -, o chefe do Ministério da Saúde conta com apoio incondicional e aplausos sobre sua atuação na pasta. 

As atitudes do presidente com Mandetta já desencadearam, no DEM, conversas sobre o rompimento do partido com o governo. 

A legenda tem três ministros na Esplanada dos Ministérios de Bolsonaro: Além de Mandetta, na Saúde, Teresa Cristina, na Agricultura, e Onyx Lorenzoni, atualmente na Cidadania (ex-Casa Civil). Destes, apenas Onyx demonstra apoio público incondicional ao presidente. É amigo pessoal e antigo do mandatário. 

Um desembarque do DEM do governo, afirmam aliados e parlamentares, mais do que desfalcar ainda mais o núcleo de apoiadores bolsonaristas na gestão, cada vez mais minguado, toca em uma outra questão sensível: os presidentes da Câmara e do Senado, Rodrigo Maia e Davi Alcolumbre, respectivamente, que até o momento têm “aliviado” para Bolsonaro, também são do Democratas.

O alerta é: “Com tudo o que Bolsonaro tem dito e feito, impeachment já não é mais uma palavra que se ouve pouco em Brasília”, afirmou uma fonte da cúpula do Congresso Nacional.