NOTÍCIAS
29/07/2019 12:59 -03 | Atualizado 29/07/2019 18:46 -03

Para Bolsonaro, excesso de reservas indígenas no País inviabiliza o agronegócio

Presidente também colocou em dúvida assassinato de cacique e aproveitou para defender a legalização dos garimpos, inclusive em terras indígenas.

Adriano Machado / Reuters
Bolsonaro também acusou mais uma vez ONGs estrangeiras de quererem manter os indígenas em reservas por interesses econômicos.

O presidente Jair Bolsonaro afirmou nesta segunda-feira (29) que o excesso de reservas indígenas no País está “inviabilizando o agronegócio”, e levantou dúvidas sobre o assassinato de um cacique da etnia Waiãpi, no Amapá, após relatos de uma possível invasão de garimpeiros a uma terra indígena.

“Nesse caso agora aqui... não tem ainda nenhum indício forte de que esse índio foi assassinado lá agora. Chegaram várias possibilidades. A PF está lá, quem nós pudermos mandar para lá já mandamos para buscar desvendar o caso e buscar a verdade sobre isso aí”, disse o presidente em entrevista na saída do Palácio da Alvorada.

Perícia do Exército Brasileiro declarou que a Polícia Federal não encontrou indícios de invasão de garimpeiros nem de conflitos com indígenas no local. 

“Pelo trabalho pericial feito pela Polícia Federal, um trabalho científico de peritos, não houve, até o momento, indícios de invasão e, consequentemente, não houve conflito”, afirmou o comandante do Exército no Amapá, general Luiz Gonzaga Viana Filho.

“A perícia feita pela equipe técnica científica da Polícia Federal, com uso de peritos florestais, drones e outros equipamentos, não constatou nenhum indício de invasão, nem de garimpeiros, nem de terceiros. Houve a notícia, provavelmente se assustaram e se comentou de uma invasão que, em trabalho científico pericial, não foi constatada”, complementou Viana Filho.

Ao comentar o caso, Bolsonaro fez questão de primeiro defender a legalização dos garimpos, inclusive em terras indígenas. Segundo o presidente, é uma medida que os índios também querem.

É intenção minha regulamentar o garimpo, legalizar o garimpo. Inclusive para índio, que tem que ter o direito de explorar o garimpo na sua propriedade.Jair Bolsonaro, presidente

O governo prepara um projeto de lei para ser encaminhado ao Congresso alterando a legislação que trata de terras indígenas para permitir o garimpo. Durante o final de semana, em entrevistas, Bolsonaro afirmou que está buscando parcerias com países de “primeiro mundo” para fazer a exploração mineral dessas regiões.

Segundo o presidente, o Brasil precisa parar de demarcar novas reservas porque isso está inviabilizando os negócios no país, e que o Brasil depende das commodities.

“O Brasil vive de commodities, daqui a pouco o homem do campo vai perder a paciência e vai cuidar da vida dele. Vai vender a terra, aplicar aqui ou lá fora, e cuidar da vida dele. A gente vai viver do quê? O que nós temos aqui além de commodities? Será que o pessoal não acorda para isso? Se esse negócio quebrar todo mundo vai para o barro, acabou o Brasil”, afirmou.

Bolsonaro também acusou mais uma vez ONGs estrangeiras de quererem manter os indígenas em reservas por interesses econômicos. “E esse território que está nas mãos dos índios, mais de 90% nem sabem o que tem lá e mais cedo ou mais tarde vão se transformar em outros países. Está na cara que isso vai acontecer, a terra é riquíssima”, disse.

Para Gilberto Vieira dos Santos, secretário do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), o discurso do presidente legitima a violência contra os índios.

“Vivemos um processo de visibilidade da exploração de minerais e, pelo histórico de declarações do governo e a paralisação das demarcações, tudo isso cria uma pauta contrária aos direitos indígenas”, explica Santos em entrevista ao HuffPost Brasil.

Para ele, massacres de povos indígenas já aconteceram no País sob o argumento de uma proposta de desenvolvimento econômico, mas é responsabilidade do Estado garantir o direito dos povos ao seu território.

A investigação

Equipes da PF, da Funai e do Batalhão de Operações Especiais (Bope) do Estado chegaram no domingo à terra indígena, uma área isolada no oeste do Amapá.

De acordo com a Funai, a Coordenação Regional da Fundação Nacional do Índio no Amapá encaminhou para a presidência do órgão no sábado memorando informando sobre um possível ataque à Terra Indígena Waiãpi, e relatos publicados pela mídia disseram se tratar de uma invasão de garimpeiros.

Em nota, a Fundação Nacional do Índio (Funai) informou que “será feito um relatório pormenorizado, contendo até os pontos georreferenciados”.

A morte do líder indígena Emyra Waiãpi, de 62 anos, ocorreu em 23 de julho, mas as autoridades de segurança foram alertadas apenas no sábado.

A perícia indicou que o corpo foi encontrado com marcas de perfurações e cortes na região pélvica. 

O Conselho das Aldeias Waiãpi (Apina) afirmou que a Polícia foi acompanhada por membros da aldeia nas buscas, mas não encontraram os invasores.

“Os policiais marcaram os pontos no GPS e tiraram fotos. Os guerreiros levaram a equipe da polícia até um local onde os invasores tinham se escondido no dia 26, mas lá também não tinha mais ninguém”, diz a nota.

Segundo o Conselho, os policiais suspenderam as buscas porque a região seria de difícil acesso. 

“Nós Wajãpi continuamos muito preocupados com os invasores que estão na região norte da nossa Terra Indígena. Nas aldeias desta região as famílias estão com muito medo de sair para as roças ou para caçar. Algumas comunidades saíram de suas aldeias para se juntar com famílias de outras aldeias para se sentirem mais seguras”, declara o comunicado.