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16/03/2020 18:20 -03

Bolsonaro passou por cima de auxiliares e médicos para ser centro das atenções em manifestação

Avaliação é que, embora repercussão na imprensa tenha sido negativa, impacto foi "positivo" para a militância.

SERGIO LIMA via Getty Images
Presidente deveria estar em isolamento até quarta, quando sai um novo resultado para teste de coronavírus.

Ao romper o isolamento, passear de carro pela manifestação que ocorreu em Brasília neste domingo (15) e cumprimentar apoiadores em frente ao Palácio do Planalto, o presidente Jair Bolsonaro não apenas descumpriu protocolos sanitários que deveriam valer para todos os cidadãos. Ele também passou por cima de recomendações médicas e de auxiliares próximos. 

Ao HuffPost, aliados, assessores e integrantes da equipe médica confirmaram, entre domingo e esta segunda (16), que houve insistência para que o presidente permanecesse no Palácio da Alvorada até quarta-feira (18). É quando completa uma semana do último encontro que ele teve com o secretário de Comunicação Social da Presidência da República, Fabio Wajngarten, cujo teste para coronavírus foi positivo. Na terça (17), conforme o protocolo, Bolsonaro realizará um novo exame. O primeiro atestou negativo para o vírus. 

Segundo auxiliares, Bolsonaro insistiu em comparecer aos atos em uma tentativa de dominar o noticiário. Caso ele não tivesse ido, a informação seria marcada pela presença das pessoas nas ruas em meio a um surto de coronavírus. Com sua aparição-relâmpago, ele passou a ser o centro das atenções. 

A avaliação interna é que, ainda que a repercussão tenha sido amplamente negativa na imprensa que bolsonaristas tratam como “tradicional”, para sua militância, o ato do mandatário foi visto como “positivo”. Afinal, dizem, é o presidente “gente como a gente”. Como ele sempre diz: “do povo”. 

Em entrevista à rádio Bandeirantes nesta segunda, o mandatário fez questão de reforçar esse jogo para sua claque. “Se eu tiver que sair às ruas, eu saio às ruas. Não vou convocar, continuo achando que tem que evitar ajuntamento de pessoas, mas o vírus é uma realidade. Se eu tiver o vírus, é outro procedimento, mas eu não posso é viver uma neura, uma psicose e ficar dentro de casa.”

Seguir regras, inclusive, parece não estar na cartilha do presidente. Embora orientado a manter isolamento até quarta, quando deve ficar pronto o resultado do exame que ele realizará na terça, ele cumprimentou apoiadores na porta do Alvorada nesta segunda. Além disso, resolveu se deslocar até o Palácio do Planalto nesta segunda para reuniões sobre coronavírus com a equipe do Ministério da Defesa em que se discute o fechamento de fronteiras.

Segundo dados atualizados esta tarde pelo Ministério da Saúde, o Brasil já tem 234 casos de covid-19. No mundo, já passam de 150 mil os casos e mais de 6 mil mortes. 

A recomendação de evitar aglomerações no Brasil está mantida. Em vários estados, como São Paulo e Rio de Janeiro, e no Distrito Federal, já houve suspensão de aulas, restrição de funcionamento de locais que reúnem muitas pessoas, como teatros e cinemas, e uma série de regras para bares e restaurantes. 

No fim de semana, os estádios não receberam público e os jogos ocorreram somente com jogadores, comissão técnica e funcionários necessários. Jair Bolsonaro critica a medida e diz que a economia não pode parar por conta do coronavírus. Para ele, está se “superdimensionando” a doença, uma vez que qualquer gripe também pode matar. 

“Podemos ter problemas, sim, pessoas com deficiência e com mais idade podem vir a óbito, até porque uma gripe qualquer leva a óbito (...) Quando você proíbe jogos de futebol (...), o cara que vende o chá mate nas arquibancadas, não vai vender mais, o cara que toma conta de carros lá fora, não vai mais tomar conta. Você acaba com o comércio no Brasil, que em grande parte é feito na informalidade. É feito um caos muito maior do que pode ocasionar esse vírus aqui no Brasil”, destacou o presidente também na entrevista à rádio Bandeirantes.