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19/10/2019 08:00 -03

Como Bolsonaro deixou a ideologia de lado e mudou retórica sobre a China

País asiático, colocado pelo presidente na campanha no rol dos comunistas a serem combatidos, é o maior parceiro comercial do Brasil, com superávit de quase US$ 30 bilhões em 2018.

Alan Santos/PR
Presidente Jair Bolsonaro, durante recepção ao Presidente da China, Xi Jinping, em reunião informal dos líderes dos BRICS em junho de 2019.

A China está entre os inimigos comunistas que Jair Bolsonaro prometeu combater durante a campanha eleitoral de 2018. Ainda como candidato, o presidente chegou a dizer que o país asiático “não está comprando no Brasil, está comprando o Brasil”. Meses após tomar posse, o mandatário mudou o discurso e, na próxima semana, aterrissa em terras chinesas. Na sexta-feira (25), encontra-se com o presidente do país, Xi Jinping. 

A agenda denota uma tentativa de aproximação de Bolsonaro da antagonista de outrora. “Percebeu-se de forma mais clara que a China é um parceiro muito importante em termos econômicos. Qualquer governo vai precisar necessariamente da China. Isso não é uma opção”, avaliou ao HuffPost o coordenador de Análise e Pesquisa do Conselho Empresarial Brasil-China, Tulio Cariello. 

Presidente da Câmara de Comércio e Indústria Brasil-China, Charles Andrew Tang concorda com a análise e disse à reportagem que já esperava por essa mudança de comportamento de Jair Bolsonaro. “Quando ele era candidato e falava sobre a China, eu dizia que, ao se tornar presidente, ele iria entender que não são preferências pessoais e sim interesses da nação que vão ditar as regras [de comércio exterior]. E de fato, ele mudou o discurso, porque ele viu que o Brasil tem uma grande relação comercial com a China”, explicou Tang.

Só no ano passado, o país asiático importou do Brasil quase US$ 64 bilhões, segundo dados da OMC (Organização Mundial do Comércio) — o que gerou para o Brasil um superávit de US$ 29,5 bilhões.

Hoje, no agronegócio, a China é o principal destino de soja e importante comprador de carne brasileira. Por outro lado, há empresas de energia chinesas que investem no Brasil, além de outras tantas de tecnologia. Além disso, o país asiático já fez inúmeros empréstimos para o governo brasileiro.

De olho nesses dados, meses após tomar posse, Bolsonaro deixou de lado, ao menos no que diz respeito ao parceiro, a retórica ideológica, para adotar uma postura pragmática e objetiva. 

”É necessário que o Brasil trabalhe para ter uma agenda estratégica com visão de longo prazo. Na área econômica, a relação é tão intrincada que é impossível pensar em política externa que não tenha a China como parceiro estratégico. É uma questão de Estado”, completou Cariello. 

Adnilton Farias/VPR
Vice-Presidente, Hamilton Mourão, durante audiência com o Presidente da China, Xi Jinping, em maio de 2019, em Pequim.

Uma peça fundamental para amenizar o mal-estar que havia com a China, logo no início do governo, foi o vice-presidente, Hamilton Mourão. Enquanto Jair Bolsonaro ia pela segunda vez aos Estados Unidos, em maio, Mourão desembarcava na China. Após meses dizendo a interlocutores e em entrevistas a jornalistas que o Brasil não enxergava o país asiático como ameaça, mas como parceiro estratégico, o general voltou com o bônus de ter encontrado o presidente chinês, pacificado a relação e destravado alguns acordos comerciais. 

Em mais uma sinalização positiva para os chineses, o Brasil apoiou o candidato deles para a presidência da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação. 

A viagem de Jair Bolsonaro à China, a princípio, tende ser mais protocolar, para desfazer de vez qualquer clima ruim criado na campanha, e demonstrar disposição brasileira em manter os chineses como parceiros de longo prazo. 

Foi tamanha a indisposição criada com as declarações do presidente quando candidato à Presidência que houve reação de Pequim por meio de um editorial do jornal China Daily, por vezes usado pelo governo chinês como porta-voz, publicado logo após o segundo turno. Nele, o mandatário brasileiro é chamado de “Trump Tropical”, em referência ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. “Rejeitar a China, que Bolsonaro já descreveu como um parceiro excepcional, pode servir a algum propósito político específico. Mas o custo econômico pode ser duro para a economia brasileira, que acaba de sair de sua pior recessão na História”, destacou o editorial assinado em outubro de 2018.

Estreitar laços

Após a visita de Bolsonaro, que começa em 20 de outubro - ele passa pelo Japão primeiro -, está prevista a presença de Xi Jinping em Brasília em novembro para a 11ª Cúpula dos BRICS, o grupo de países emergentes formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul.

Para o presidente da Câmara Brasil-China, Charles Tang, a relação entre a China e os Estados Unidos, que vivem uma guerra comercial, não pode interferir na parceria brasileira com os chineses. “O Brasil não tem razão para não estreitar relação com uma grande nação como os Estados Unidos”, afirma, mas pondera: “Acho que todo brasileiro entende e o governo também entende que a economia brasileira e a chinesa são complementares. Já a economia brasileira e a americana são de competição”.

Tang avalia ainda que o Brasil pode se beneficiar das disputas entre os outros dois países. “Tenho pena dos americanos que durante décadas conquistaram confiança do maior mercado do mundo, que é o chinês, e tudo isso acabou em um minuto. E confiança é como um vaso: depois que quebrou, é muito difícil colar de novo. Embora a China vá ser obrigada a comprar dos EUA, necessita de um parceiro confiável. O povo não pode passar fome quando o Trump estiver de mau humor e isso se traduz em benefício a longo prazo para o Brasil, se o Brasil souber aproveitar”, conclui o presidente da Câmara de Comércio e Indústria Brasil-China.