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25/07/2019 12:25 -03 | Atualizado 25/07/2019 19:47 -03

Após prisão de hackers, Bolsonaro diz que ‘Brasil não é mais terra sem lei’

De acordo com a PF, o presidente também foi vítima de hackers. Para Bolsonaro, o caso é "um atentado grave contra o Brasil e suas instituições".

Adriano Machado / Reuters
Presidente pediu punição ao grupo hacker preso na Operação Spoofing.

O Ministério da Justiça informou, em nota divulgada nesta quinta-feira (25), que celulares do presidente Jair Bolsonaro também foram hackeados pelo grupo preso na última terça-feira (23) no âmbito da Operação Spoofing, da Polícia Federal. 

Na nota, o ministério afirma que “por questão de segurança nacional, o fato foi devidamente comunicado ao Presidente da República”. No Twitter, Bolsonaro confirmou que foi informado, criticou o ataque e enalteceu o trabalho da polícia. 

Um atentado grave contra o Brasil e suas instituições. Que sejam duramente punidos! O Brasil não é mais terra sem lei.Jair Bolsonaro, presidente

Em Manaus, o presidente disse que os harckers “perderam tempo” com ele. “Não estou nem um pouco preocupado se, por ventura, algo vazar aqui do meu telefone. Não vão encontrar nada que comprometa”, disse. 

Não há, porém, informações se dados do presidente contidos nos aparelhos foram acessados pelos suspeitos presos — Walter Delgatti Neto, Danilo Cristiano Marques, Gustavo Henrique Elias Santos e Suelen Priscila de Oliveira

Os quatro foram detidos após mandado expedido pelo juiz Vallisney de Souza Oliveira, da 10ª Vara Federal do Distrito Federal, cujo sigilo foi derrubado na quarta (24). No documento, além de mandar prender e fazer buscas e apreensões contra os suspeitos, o juiz acatou pedidos de quebra de sigilos bancário e telemático (de metadados) solicitados pela PF. 

Apontou ainda movimentações financeiras que ultrapassam R$ 600 mil, valor incompatível com a renda do casal Gustavo e Suelen, e disse que pode indicar recebimento de dinheiro de um patrocinador para realizar ataques cibernéticos. 

Na decisão, o juiz Vallisney afirmou também que há “fortes indícios” de que os investigados “integram organização criminosa para a prática de crimes e se uniram para violar o sigilo telefônico de diversas autoridades brasileiras via invasão do aplicativo Telegram”.

Nesta quinta, a Polícia Federal informou que Walter Delgatti Neto disse em depoimento que foi a fonte das reportagens divulgadas pelo The Intercept. Segundo a PF, ele disse que passou as mensagens de forma anônima e sem cobrança financeira ao jornalista Glenn Greenwald, fundador do site. 

Na quarta, em entrevista coletiva, a PF afirmou que mais de mil números telefônicos podem ter sido alcançados pelo grupo. 

“Algumas constatações que já foram possíveis em relação ao que nós vínhamos analisando previamente estão, aparentemente, se confirmando neste momento ―ainda não é nada muito certo― mas nós estamos estimando... Aproximadamente mil números telefônicos diferentes foram alvos deste mesmo modus operandi por essa quadrilha”, disse o delegado da Polícia Federal João Vianey Xavier Filho.

Os investigadores afirmaram ainda haver “fortes indícios” de que o celular do ministro da Economia, Paulo Guedes, tenha sido alvo do mesmo grupo. 

De acordo com o perito da PF Luiz Spricigo Júnior, os agentes encontraram no celular de um dos suspeitos um atalho com o nome de Guedes que indica que eles foram responsáveis pelo ciberataque contra o titular da Economia.

“Ontem pela manhã foi amplamente divulgado que o ministro Paulo Guedes havia sido hackeado e numa busca e apreensão no celular do indivíduo estava uma conta no aplicativo de mensagens vinculado com o nome Paulo Guedes. A gente tem que confirmar isso de forma pericial, mas é um forte indicativo de que a conta seja realmente a do ministro”, disse Spricigo.

Moro x The Intercept x mensagens

Alvo do grupo, o ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro, comemorou as prisões em sua rede social e associou o grupo ao site The Intercept Brasil, responsável por divulgar as mensagens. 

Essa conexão, no entanto, não foi citada na decisão do juiz que autorizou as prisões. 

Os responsáveis pelo The Intercept Brasil disseram, por sua vez, que não fazem comentários sobre as suas fontes. 

Em outro post, Moro demonstrou preocupação com os números apresentados pela PF, sobre a quantidades de ligações efetuadas pelos supostos hackers, conforme descrição contida na decisão do juiz Vallisney. 

Mais tarde, Moro comunicou às autoridades vítimas de ataque hacker que as mensagens serão destruídas. Em seguida, à jornalista Mônica Bergamo, o ministro do STF, Marco Aurélio Mello, disse que só a Justiça pode eliminar o material. “Cabe ao Judiciário decidir isso, e não à Polícia Federal”, afirmou. 

Um dos suspeitos presos, Walter Delgatti Neto era filiado ao DEM e teve sua expulsão determinada na manhã desta quinta-feira (25) pelo presidente do partido, Antonio Carlos Magalhães Neto, prefeito de Salvador. 

Em nota, ACM Neto disse que o ex-filiado descumpriu “deveres éticos previstos estatutariamente” e enfatizou que Delgatti “não tem participação ativa na vida partidária da legenda”.

“É importante ressaltar que o Democratas não pode se responsabilizar pelas atitudes dos milhares de filiados ao partido e que condenamos, de maneira veemente e dura, o cometimento de qualquer ato de irregularidade por quem quer que seja - filiado ao DEM ou outras legendas.”

Os diálogos 

Desde 9 de junho, o site The Intercept Brasil vem publicando diálogos atribuídos ao ex-juiz e a procuradores da força-tarefa da Lava Jato. A suspeita de Moro é de que essas conversas tenham sido hackeadas do seu celular ou do aparelho de integrantes do Ministério Público.

No material divulgado, com veracidade confirmada segundo o site, além do jornal Folha de S.Paulo e da revista Veja, há troca de mensagens que indicam interferência de Moro em diversos momentos da operação. É como se um árbitro atuasse em favor de uma das partes do processo — no caso, a acusação.

Tanto Moro quanto o procurador Deltan Dallagnol, porém, não confirmam a integralidade das conversas, mas também não negam com veemência.

Além de não negar, Moro diz que as conversas podem ter sido editadas e tiradas de contexto. 

O trabalho do ex-juiz está em xeque desde então. Ele já prestou esclarecimentos à Câmara e ao Senado Federal. Em ambas as Casas afirmou que não fez nada fora da lei, disse que é comum o juiz conversar com advogados e alegou que está sendo vítima de um ataque de criminosos que querem destruir a reputação da Operação Lava Jato.