OPINIÃO
11/04/2019 14:35 -03 | Atualizado 11/04/2019 14:35 -03

Danilo Gentili mereceu solidariedade de Bolsonaro. Evaldo Rosa, não

O fuzilamento de um pai de família por militares não foi capaz de gerar pesar no presidente da República.

Getty Editorial
Nesta quinta-feira (11), Jair Bolsonaro manifestou solidariedade por sentença desfavorável ao apresentador Danilo Gentili. 

Foi um fuzilamento. Mais de 80 tiros contra o carro onde estava uma família em Guadalupe, na zona norte do Rio de Janeiro. Militares confundiram-se. Achavam que se tratava do veículo de criminosos. Acabaram mirando e matando o músico Evaldo Rosa, pai, marido, inocente. Um cidadão de bem — como o presidente Jair Bolsonaro gosta de exaltar.

Mas esse cidadão de bem, assassinado por 9 integrantes do Comando Militar do Leste, não mereceu um tuíte presidencial. Nenhuma palavra de lamento, de solidariedade aos familiares pela perda, de melhoras ao sogro de Evaldo, Sérgio Gonçalves de Araújo, que também foi ferido pelos fuzis, pelos militares.

Nenhuma manifestação de pesar pública nem privada. Ao menos segundo o porta-voz da Presidência, Otávio do Rêgo Barros. Bolsonaro pediu pressa nas investigações, mas o “incidente” não gerou pesar dele pelo assassinato.

Esse silêncio do presidente sobre o “equívoco de integrantes das Forças Armadas” contrasta com sua habitual chuva de tuítes no dia a dia. Nesta quinta-feira (11), por exemplo, quem recebeu atenção do presidente em sua plataforma de comunicação favorita foi o apresentador Danilo Gentili, do SBT.

Um dia após Gentili ser condenado à prisão por injúria, o presidente da República fez questão de se solidarizar com o humorista. A sentença se deve a um vídeo publicado por Gentili em 2017, zombando da deputada federal Maria do Rosário (PT-RS), com quem Bolsonaro tem desavença histórica.

Este artigo não busca discutir o mérito da punição ao comediante — se é censura, cerceamento ao humor.

O que sobressai é o tratamento diferenciado a Evaldo e Danilo. Isso seguramente mostra o que é prioridade na agenda do presidente do Brasil.

A picuinha é que importa. Um erro crasso e fatal de militares não valeu um tuíte de repúdio ou de lamento. A morte de um inocente não mereceu pesar.

Evaldo foi esquecido por Bolsonaro.

Quantos outros cidadãos de bem, pais de família e inocentes serão esquecidos também?

ASSOCIATED PRESS
Carro de Evaldo Rosa, fuzilado por militares na zona norte do Rio de Janeiro.