LGBT
19/08/2019 19:02 -03 | Atualizado 22/08/2019 21:06 -03

Governo planeja suspender verba para filmes LGBT criticados por Bolsonaro em live

Presidente atacou produções com temática LGBT em live. "Não tem cabimento fazer um filme com esse enredo né?", disse.

Adriano Machado / Reuters
Semana passada, Bolsonaro disse que se a Ancine “não tivesse, em sua cabeça toda, mandatos”, já teria “degolado tudo”. 

O governo deve publicar nesta terça-feira (20) uma portaria suspendendo edital para a seleção de produções audiovisuais para TVs públicas. Lançado em 13 de março de 2018, edital com obras pré-aprovadas na categoria “diversidade de gênero” foi criticado nominalmente por Bolsonaro.

Em live no Facebook no dia 15 de agosto, o presidente atacou a produção de quatro obras audiovisuais com temáticas LGBT e diversidade sexual, que buscavam autorização da Ancine (Agência Nacional do Cinema) para captar recursos por meio da Lei do Audiovisual. 

Criticados pelo presidente, AfronteTransversais e Religare queer concorrem à chamada pública “RDE/FSA PRODAV” que visa selecionar produções para a programação da TV pública em canais como a TV Brasil. Os vencedores seriam financiados por meio do FSA (Fundo Setorial do Audiovisual).

A previsão é de que a suspensão do edital, que direciona verba a essas produções, tenha duração de seis meses, com a possibilidade de ser prorrogada por mais seis meses.

Na live do dia 15, Bolsonaro também firmou que a Ancine não vai liberar verbas para esses projetos e disse, também, que se a agência “não tivesse, em sua cabeça toda, mandatos”, já teria “degolado tudo”. 

A nova portaria também dá ao governo tempo para reformular o comitê gestor do FSA. Com isso, será possível garantir que haja maior controle dos projetos que recebem recursos públicos por parte do governo federal.

Após a declaração do presidente, a API (Associação de Produtores Independentes do Audiovisual) se pronunciou, afirmando que o ato do presidente visa “censurar arte, projetos audiovisuais e filmes”.

“Repudiamos tal atitude, pois entendemos que não cabe a ninguém, especialmente ao presidente de uma república democrática, censurar arte, projetos audiovisuais e filmes”, disse a organização por meio de nota. 

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Em live na semana passada, ao se referir a produção com diversidade sexual, o presidente disse que "não tem cabimento fazer um filme com esse enredo, né?”.

Ao citar as produções, Bolsonaro negou que sua ação é de censura. “Não censurei nada. Quem quiser pagar, se a iniciativa privada quiser fazer filme de Bruna Surfistinha, fique à vontade, não vamos interferir nisso daí”, disse.

“Mas fomos garimpar na Ancine filmes que estavam prontos para captar recursos no mercado. E outra, provavelmente esses filmes não têm audiência, não têm plateia, tem meia dúzia ali, mas o dinheiro é gasto. Olha o nome de alguns, são dezenas”, continuou o presidente em live no dia 15 de agosto.

Em seguida, citou produções como a série documental de cinco episódios Transversais, de Émerson Maranhão e Allan Deberton sobre transexuais no Ceará; Afronte, longa-metragem universitário de Bruno Victor Santos e Marcus Azevedo, sobre a vida de jovens homossexuais negros no DF, e citou Religare Queer e O Sexo Reverso, outras produções dentro da mesma temática.

Então, mais um filme aí, que foi pro saco aí. Não tem cabimento fazer um filme com esse enredo né?Jair Bolsonaro, em live semanal em seu perfil no Facebook.

“Um filme chama Transversais. Olha o tema: ‘Sonhos e realizações de cinco pessoas transgêneros que moram no Ceará’. Conseguimos abortar essa missão”, disse. Sobre Afronte, ele disse confessar que “não entendi nada”. 

E, em seguida, disse, ainda se referindo à produção do Distrito Federal, que este é mais um “filme que foi para o saco”.

“Olha, a vida particular de quem quer que seja, ninguém tem nada a ver com isso, mas fazer um filme mostrando a realidade vivida por negros homossexuais no DF, não dá para entender. Então, mais um filme aí, que foi pro saco, aí. Não tem cabimento fazer um filme com esse enredo né?”. 

As obras audiovisuais que o presidente disse “abortar” estão entre as finalistas da linha de “diversidade de gênero” do edital aberto em 2018 para produções que serão transmitidas por TVs públicas. 

Afronte, TransversaisReligare queer e O Sexo Reverso, concorrem à chamada pública “RDE/FSA PRODAV” que visa selecionar séries para a programação da TV pública em canais como a TV Brasil e é idealizado pela Ancine (Agência Nacional do Cinema), Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul (BRDE) e Empresa Brasil de Comunicação (EBC). 

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"Afronte", longa-metragem de Bruno Victor Santos e Marcus Azevedo, mostra a vida de jovens homossexuais negros no Distrito Federal.

Em resposta às falas do presidente, a equipe do filme Afronte publicou uma carta aberta em sua página do Facebook. Segundo o texto, os projetos citados por Bolsonaro “foram tratados de maneira leviana”. O filme já foi exibido no Festival Mix Brasil de Cultura da Diversidade e no Festival de Brasília.

O grupo ressalta que a Ancine “tem um papel importante na manutenção e no fomento do cinema no Brasil, e esse papel tem que ser exercido respeitando a liberdade artística e compreendendo que somos múltiplos”.

“Esse é o projeto que o Presidente está deliberadamente censurando, num total desconhecimento da forma como os editais funcionam e se excedendo ao que é de competência direta do executivo”, diz o texto.

A carta divulgada pela equipe, que também acusa Bolsonaro de censura,  disponibiliza um link com o filme, recomendando que o presidente assista. 

‘Não é a minha linha’, disse Bolsonaro sobre diversidade

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Peça publicitária do Banco do Brasil, em abril, foi vetada por Bolsonaro.

Em abril, Bolsonaro vetou campanha publicitária do Banco do Brasil voltada para o publico jovem com atores brancos, negros e LGBTs. A peça, que estava circulando desde 1º dia do mesmo mês, foi retirada do ar depois que chegou até ele. Delano Valentin, diretor de marketing do banco, foi demitido na ocasião.

O presidente chegou a dizer que não quer que dinheiro público seja utilizado em propagandas como estas, voltada para jovens e que retratava diversidade sexual e racial do País. 

“Quem indica e nomeia presidente do BB [Banco do Brasil], não sou eu? Não preciso falar mais nada então”, disse Bolsonaro na saída de um evento em Brasília. O presidente completou sua fala dizendo que “a linha mudou” e que “ninguém quer perseguir minoria nenhuma”.

“A linha mudou, a massa quer respeito a família, ninguém quer perseguir minoria nenhuma. E nós não queremos que dinheiro público seja usado dessa maneira. Não é a minha linha. vocês sabem que não é minha linha.”

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