OPINIÃO
17/07/2019 06:00 -03 | Atualizado 17/07/2019 08:07 -03

Mimar os filhos com poder ou ser presidente da República: A escolha de Jair

Bolsonaro confunde papéis de pai e presidente e coloca em xeque discurso antissistema que o elegeu.

Divulgação/Facebook
O clã Bolsonaro, da direita para esquerda: Flávio, Jair, Eduardo e Carlos.

O Brasil de Bolsonaro não é só do presidente Jair. Uma família inteira está no comando do País. 

É o clã de Jair que dá as cartas em um governo marcado por controvérsias e com popularidade já decrescente.

A insistência de Jair em tornar o filho embaixador nos Estados Unidos é só mais um capítulo desta novela em que imperam os laços de família.

Eduardo é o favorito do pai para assumir a embaixada. Uma decisão inédita em democracias e alvo de merecidas críticas de senadores (não só da oposição), diplomatas, jornalistas que cobrem relações internacionais há décadas.

Ao confundir os papéis de pai e presidente, Bolsonaro repete a velha receita patrimonialista brasileira. O público se torna uma extensão do privado.

O Palácio do Planalto e a Esplanada dos Ministérios agora são quintal da família.

É o Brasil de Bolsonaros.

Eduardo frita hambúrgueres (ou frango frito). Fala inglês, espanhol. Tem “vivência internacional”; fez até intercâmbio. E é filho de Jair, o presidente. Logo, já pode assumir uma função que só diplomatas muito experimentados teriam condições de exercer.

Carlos tweeta. Se briga com o pai, deixa a conta de Jair inacessível. Seu método de fritura, com poucos caracteres, já eliminou militares do primeiro escalão do governo. Derrubou também aliado outrora fundamental para o PSL — Gustavo Bebianno. Ele é filho de Jair, o presidente. Logo, pode despachar como chefe de Estado no Twitter e fazer as vezes de RH do governo.

Flávio emudece. É o mais distante do governo, mas não deve ser coincidência. Seu nome está envolvido em suspeita de um esquema criminoso em seu antigo gabinete de deputado estadual no Rio. A investigação, aliás, foi suspensa ontem por decisão no STF (Supremo Tribunal Federal). Ele é filho de Jair, o presidente. Logo, pode minimizar o sumiço de Fabrício Queiroz, seu ex-assessor com movimentações milionárias e atípicas que envolveram a família Bolsonaro.

Essa postura de Jair, de dividir o poder entre seus filhos, é o que há de mais velho na política brasileira.

É uma prática oposta ao discurso que o elegeu: antissistema, adversário da corrupção, o outsider ainda que de dentro.

Os conselheiros palacianos tentam dissuadir o presidente da ideia de Eduardo embaixador. Entendem que a preferência pelo filho gera profundos questionamentos éticos — e de competência. Sobretudo para quem se diz inimigo de corruptos.

Pois é, já passou da hora de Jair escolher.

Ou continua mimando os filhos com poder e privilégios...

Ou se torna o único Bolsonaro do governo — e assume a responsabilidade e o decoro que seu cargo exige.

Será que o coração de pai vai continuar falando mais alto que o compromisso com a República e o País?