OPINIÃO
05/06/2020 23:37 -03 | Atualizado 06/06/2020 09:58 -03

Em mais um ataque à imprensa livre, governo Bolsonaro está escondendo dados sobre coronavírus

Ao atrasar a divulgação de infectados e mortos por covid-19 para depois das 22h e retirar do ar painel de informações e documentos sobre a pandemia no Brasil, o governo agride garantia fundamental de acesso à informação, expressa na Constituição.

Reprodução/Ministério da Saúde
Painel de dados de covid-19, atualizado diariamente, "saiu do ar" nesta sexta-feira (5).

Não é novidade que o governo de Jair Bolsonaro trata a imprensa como inimiga. Persegue jornalistas, tenta desqualificar-nos de forma vil, ameaça veículos de comunicação e dissemina fake news para alimentar sua narrativa frequentemente avessa à realidade — e à ciência.

Como publicamos no fim de maio, hostilizar a imprensa se tornou uma política de Estado no Brasil de Bolsonaro. Entretanto, nesta semana, os ataques à imprensa livre parecem ter atigido o paroxismo.

O governo Bolsonaro está inadvertidamente escondendo dados sobre o novo coronavírus. Da imprensa e, por extensão, da sociedade brasileira, que devemos informar e à qual ele deve prestar contas.

Primeiro, foram os atrasos na divulgação do boletim diário de número de infectados e mortos por covid-19. Durante a gestão de Luiz Henrique Mandetta no Ministério da Saúde, esses dados eram liberados antes das 17h, horário da entrevista coletiva do núcleo de gestão de crise, que ocorria todos os dias. 

Ainda sob Nelson Teich, o ministério passou a soltar os números no fim do dia, por volta das 19h. Nesta semana, 22h passou a ser o horário oficial para a divulgação — depois do término dos principais telejornais, no horário nobre da TV brasileira, quando uma parcela expressiva da população está de olho no noticiário.

Não por acaso essa mudança ocorre na semana em que o Brasil atinge o estado mais crítico da doença por aqui, ultrapassando mil mortes por 4 dias seguidos e superando a Itália em número de mortos. E isso com o prognóstico da OMS (Organização Mundial da Saúde) de que o País ainda não chegou ao pico da pandemia.

Além disso, o Ministério da Saúde está retirando do ar diversos links com documentos e boletins importantes sobre o avanço da covid-19 no Brasil. Nesta sexta-feira (5), o painel de informações e gráficos com os números da doença e de mortes por estado está “em manutenção” (imagem acima).

Mais: no boletim enviado à imprensa hoje, deixou de constar o total acumulado de óbitos e infecções das 27 unidades federações e do País. A seguir, você pode comparar, respectivamente, o boletim enviado na quinta-feira e na sexta:

Divulgação/Ministério da Saúde
Neste boletim, constam os números totais tanto por estado quanto no País. Em vermelho, está o número de casos e mortes confirmadas nas últimas 24 horas.
Divulgação/Ministério da Saúde
Neste boletim, a única informação que consta é de casos e mortes confirmadas nas últimas 24 horas. Os números totais estão sendo omitidos.
O governo Bolsonaro está tentando mascarar a realidade dramática da pandemia no Brasil. Age com dolo para cercear o acesso à informação pública, sobre saúde pública, que deveria ser facilmente disponível à imprensa para reportar o tamanho (cada vez maior) do problema.Diego Iraheta — Editor-Chefe, HuffPost Brasil

A estratégia do governo de minar a transparência sobre o combate à covid-19 no Brasil inclui também:

• a redução na frequência das entrevistas coletivas, que agora são temáticas — o que implica que os jornalistas são impedidos de fazer perguntas sobre assuntos mais urgentes;

• a ausência perene do general Eduardo Pazuello, o ministro da Saúde interino, que simplesmente não presta contas sobre seu trabalho;

• a realização dessas coletivas no Palácio do Planalto, deixando claro que a central de comunicação sobre o coronavírus está na Presidência e não no Ministério da Saúde;

• a falta de análises e explicações dos técnicos nessas coletivas sobre o que mostram os números e a curva cada vez mais acentuada da covid-19 no Brasil;

• a ausência de respostas do Ministério da Saúde sobre as perguntas e pedidos de entrevistas e explicações enviados por jornalistas. A repórter do HuffPost Marcella Fernandes, que está incumbida da cobertura de saúde e ciência, ressalta que em 3 ocasiões diferentes, nas últimas semanas, o ministério ignorou solicitações de outro lado para reportagens.

Não resta dúvida, portanto, de que o governo Bolsonaro está tentando mascarar a realidade dramática da pandemia no Brasil. Age com dolo para cercear o acesso à informação pública, sobre saúde pública, que deveria ser facilmente disponível à imprensa para reportar o tamanho (cada vez maior) do problema.

Sem meias palavras: o governo está escondendo dados sobre o novo coronavírus. Assim, agride a garantia fundamental de acesso à informação, expressa na Constituição Federal, e atenta contra a cultura de transparência da administração pública — que todo governante precisa buscar e fomentar.

Ao omitir números e mais uma vez antagonizar com o jornalismo, Jair Bolsonaro e sua equipe tentam imprimir veracidade à sua narrativa de que ”é só uma gripezinha”. De que o isolamento social, principal prática recomendada no mundo todo por autoridades sanitárias para conter a disseminação do vírus, é “histeria”.

A gripezinha já matou 35 mil pessoas no Brasil. A histeria produziu 645 mil diagnósticos positivos de coronavírus no País.

O governo Bolsonaro está colidindo cada vez mais forte com a imprensa livre, que é um dos pilares da democracia. Mas nós não recuaremos na nossa missão de informar, investigar, descobrir, apesar das pedras no caminho.

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