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24/07/2020 11:31 -03

Bolsonaro oferece cloroquina para ema enquanto medicamento fica encalhado no país

Segundo a Folha, governo tem estoque parado de 4 milhões de comprimidos de cloroquina, remédio defendido por Bolsonaro contra a covid mesmo sem eficácia comprovada.

Adriano Machado / Reuters
Brazil's President Jair Bolsonaro holds a box of chloroquine outside the Alvorada Palace, amid the coronavirus disease (COVID-19) outbreak in Brasilia, Brazil, July 23, 2020.REUTERS/Adriano Machado

Parece piada, mas não é. Na tarde de quinta (23), o presidente Jair Bolsonaro, que já tinha saudado uma caixa de cloroquina, erguendo-a em frente a apoiadores em frente ao Alvorada, dessa vez resolveu sacar a caixa do medicamento e apontá-la para uma das emas do palácio – sim, uma ema, o bicho mesmo.

Fez isso em frente às câmeras, num escárnio que viralizou. A imagem tresloucada sintetizou a estupidez da defesa ferrenha que Bolsonaro faz do medicamento para o tratamento da covid-19 mesmo sem eficácia comprovada. Mais do que isso: da pressão que ele fez sobre seu governo e sobre o Ministério da Saúde, em especial, para que recomendasse a cloroquina até para o tratamento de sintomas iniciais da doença.  

O resultado dessa pressão se vê agora em um estoque encalhado de 4 milhões de comprimidos, segundo a Folha de S. Paulo. 

A reportagem diz que técnicos que fazem parte de um comitê de emergência que assessora o Ministério da Saúde em decisões sobre o novo coronavírus alertaram sobre o risco de o governo ficar com estoques parados de cloroquina. “Devido a atual situação não é aconselhável trazer uma quantidade muito grande, pois caso o protocolo venha a mudar, podemos ficar com um número em estoque parado para prestar contas”, diz documento que registra o encontro, obtido pela Folha. 

Reprodução/Facebook
Bolsonaro saúda uma caixa de cloroquina em frente a seus apoiadores.

Segundo o jornal, no início de julho, o governo federal tinha uma reserva de 4.019.500 comprimidos do medicamento, um pouco menos do que os 4.374.000 distribuídos até aquele momento.

Recentemente, foi revelado também que as 2 milhões de doses de hidroxicloroquina doadas pelos Estados Unidos para o Brasil estão encalhadas porque precisam passar por um processo de fracionamento e reembalagem.

A hidroxicloroquina norte-americana está guardada desde meados de junho, quando chegou ao Brasil, em um depósito do centro de logística do ministério no aeroporto de Guarulhos. 

Ueslei Marcelino / Reuters
Não foi a primeira vez que Bolsonaro interagiu com as emas. Na última semana, ele foi alimentar uma delas e foi bicado.

O medicamento foi enviado em embalagens de 100 comprimidos, e precisa ser dividido nas doses em que devem ser distribuídas aos pacientes ―frascos de 6 ou 12 comprimidos― e reembaladas em ambiente específico, sob acompanhamento de farmacêuticos.

A ideia era repassar os custos do fracionamento aos Estados, mas a maior parte dos governos estaduais não chancela o uso da hidroxicloroquina contra a covid-19 e não tem planos de gastar recursos já escassos com um medicamento que não será usado no enfrentamento à pandemia.  

Enquanto isso, Bolsonaro, que está com covid-19 e diz estar usando o medicamento, segue exaltando caixinhas de cloroquina em frente a apoiadores e emas. Fazendo seu showzinho particular enquanto 84 mil pessoas já morreram no país. 

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