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18/07/2019 18:56 -03 | Atualizado 18/07/2019 20:23 -03

Bolsonaro diz que amizade de Trump e Eduardo 'não tem preço'

Em discurso pelos 200 dias de seu governo, presidente manda recado para presidente do Senado, onde será analisado nome do filho como embaixador dos EUA.

SERGIO LIMA via Getty Images
Jair Bolsonaro não desiste de ter seu filho como embaixador nos Estados Unidos.

Em mais uma demonstração de que não desistiu da indicação do filho Eduardo Bolsonaro para a embaixada dos Estados Unidos, o presidente Jair Bolsonaro voltou-se desta vez ao comandante do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), na tentativa de persuadir colegas senadores a aprovar o nome de Eduardo.

“Imagina se o [Mauricio] Macri [presidente da Argentina] tivesse um filho embaixador aqui? Eu atenderia agora ou pediria para marcar uma data futura?”, comparou o presidente na tarde desta quinta-feira (18), na última parte de seu discurso durante a cerimônia de 200 dias de seu governo no Palácio do Planalto.

Ao reafirmar que o filho já morou nos EUA, onde “fritou hambúrguer e entregou pizza”, Bolsonaro destacou que Eduardo, “uma pessoa comunicativa, se aproximou da família do presidente norte-americano [Donald Trump]”.

“Quando estive com ele, Trump fez questão de convidar o Eduardo para entrar [no salão oval da Casa Branca]”, contou Bolsonaro. O presidente fez duas visitas oficiais aos EUA neste ano e, em ambas, encontrou Trump. O filho o acompanhou na primeira oportunidade, em março, como presidente da Comissão de Relações Exteriores da Câmara dos Deputados. “A amizade que ele [Trump] e sua família têm pelo meu filho não tem preço. Além disso, o trabalho de quem é embaixador é ser cartão de visitas”, argumentou Bolsonaro.

Além das argumentações, o presidente demonstrou certeza de que o nome de seu filho será aprovado pelos senadores quando for analisado. A indicação só é formalizada quando uma mensagem presidencial for publicada no Diário Oficial da União (DOU).

Avaliando desgastes políticos, aliados ainda tentam fazê-lo rever sua decisão, embora o chefe permaneça impassível. Aproveitam o recesso legislativo para mostrar a repercussão negativa.

Bolsonaro, porém, fez questão de transmitir um recado de que pode acabar nomeando seu filho para comandar o Itamaraty. “Eu poderia chamar o Ernesto Araújo [Itamaraty] e dizer: ‘Muito obrigado’. E indicá-lo a embaixador [dos EUA] e meu filho vai ser ministro [no lugar dele]. Iriam dizer que ele [Eduardo] não tem competência para ser embaixador, mas [no Itamaraty] iria comandar mais de 200 embaixadores pelo mundo.”

Análise do nome de Eduardo Bolsonaro no Senado

Tão logo a mensagem do presidente seja publicada no Diário Oficial, a nomeação de Eduardo segue para análise do Senado, onde o governo tem maioria. Nesta semana semana, o líder na Casa, Fernando Bezerra (MDB-PE), disse ao HuffPost ter convicção de que a indicação do presidente não terá problemas em ser avalizada pelos senadores.

São duas etapas de votação: o primeiro passo é a Comissão de Relações Exteriores (CRE); em seguida, o plenário. As duas etapas ocorrem, conforme o artigo 52 da Constituição, por votação secreta.

Na CRE, o presidente, senador Nelsinho Trad (PSB-MS), indica um relator. Aliado de Bolsonaro, o líder no Senado do partido do presidente, PSL, Major Olímpio (SP), já demonstrou disposição de assumir a posição. Disse ao HuffPost ter posição favorável à nomeação de Eduardo Bolsonaro. Nessa comissão, o futuro embaixador é sabatinado e ocorre a primeira votação.

Apesar da maioria governista, porém, haverá resistências, não apenas da oposição. O clima nos corredores do Senado é de constrangimento. Embora base e oposição admitam a dificuldade de barrar o nome, querem levar o constrangimento ao máximo. “Vamos expor a situação ao limite, para desgastar ao máximo”, disse um senador de partido aliado ao HuffPost que preferiu não se identificar.

Nos bastidores, há conversas sobre abrir o voto, apesar da norma constitucional de que ele seja secreto. Seria uma imitação do que ocorreu na sessão em que Davi Alcolumbre foi eleito presidente da Casa, em 2 de fevereiro, na qual até o primogênito de Bolsonaro, Flávio (PSL-RJ), abriu o voto.

Na quarta (17), em entrevista exclusiva ao HuffPost, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), evitou se posicionar firmemente, mas disse que “não indicaria” parente para ser embaixador. Alcolumbre também não tem emitido opinião sobre o caso. Destaca, porém, que a indicação tramitará como outra qualquer, seguindo os prazos e ritos normais do Senado, sem privilégios.

Mensagem para eleitores

Na live que faz semanalmente na redes sociais, Bolsonaro voltou a falar da nomeação de Eduardo e foi taxativo: “Vou indicar, a não ser que ele não queira”. E ainda mandou recado aos eleitores: “Quem não quiser mais votar em mim, paciência. Vai ter coisas que eu vou desagradar vocês”.

O presidente reconheceu a disposição de “beneficiar” o filho, mas recuou logo em seguida afirmando que a indicação se deve ao desejo de intensificar o contato com os Estados Unidos. “Pretendo beneficiar um filho meu sim. Se eu puder dar um filé mignon para um filho meu, dou. Mas não tem nada a ver. Queremos aprofundar a relação com o maior país do mundo.”

Segundo o presidente, não houve nenhuma ação positiva de embaixadores brasileiros nos EUA nos últimos anos. “Sei que todo mundo que fez Itamaraty [diplomata] gostaria de ser indicado, mas me aponte uma boa ação dos embaixadores passados? O que fizeram pelo Brasil? Nada. Sabe por quê? Porque eram indicações políticas”, em referência às nomeações feitas por seus antecessores.