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09/09/2019 09:17 -03 | Atualizado 09/09/2019 09:35 -03

Bolsonaro e Doria travam guerra política de olho na Presidência em 2022

Presidente da República e governador de São Paulo protagonizam embates sequentes que antecipam disputa presidencial.

Adriano Machado / Reuters
Governador de São Paulo e presidente da República: o duelo de 2022 já começou.

Numa semana em que praticamente todos os dias se pôde ler notícias com os nomes do presidente Jair Bolsonaro (PSL) e do governador de São Paulo, João Doria (PSDB), na mesma página, ficou mais que claro que o clima de amizade que fez o tucano exibir uma camiseta com os dizeres BolsoDoria naquele 28 de outubro do ano passado, quando ocorreu o segundo turno, desandou. 

O distanciamento, com Doria cogitado há muito como possível candidato do PSDB em 2022, já estava previsto e seria até necessário em algum momento, uma vez que Bolsonaro pode vir a disputar a reeleição. Aliás, o capitão reformado tem dado cada vez mais indicações disso. 

Na quinta-feira (5), por exemplo, ao lançar o Programa Nacional das Escolas Cívico-Militares no Palácio do Planalto, falou em tom de brincadeira com o ministro da Educação, Abraham Weintraub: “Esse convênio, essa oportunidade, bastante ousada, eu acho. Espero que dê certo, para o segundo mandato, né. O seu discurso [de Weintraub] foi de candidato ali, eu percebi. Talvez cultive a partir de 23 [2023]”. Essas afirmações, com referências ao um possível segundo mandato, têm sido cada vez mais frequentes. 

O que não se imaginava, porém, é que tanto Doria quanto Bolsonaro fossem levantar tanto a voz um contra o outro. Ainda mais tão cedo. Ao mesmo tempo, já se medem as forças para a eleição municipal do ano que vem e quem terá os melhores apadrinhados. Ou seja, nem tão cedo, nem tão tarde assim. 

Bolsonaro e Doria: Ao ataque!

Embora os embates da última semana sejam menos “politicamente corretos”, como gosta de dizer o presidente — ele chegou a falar até em “ejaculação precoce” para se referir a Doria — e estejam mais frescos à memória, não são os primeiros. E pelo perfil de ambos os lados, inclusive, também não devem ser os últimos. 

Bolsonaro gosta de falar e repete que esse é seu jeito. Pessoas de seu núcleo afirmam que não adianta tentar “segurar a língua dele”. ”É da natureza dele. Aquele ali é ele. Não obedece a ninguém também”, disse ao HuffPost um amigo do presidente, segundo quem, apesar das indiretas, o mandatário não tem tratado de reeleição como um estratégia. “Ele solta essas. Mas não está planejando. Ele está governando.”

Já no PSDB, 2022 é coisa séria. Há estudos de redes em andamento, estratégias em debate e a percepção de que o partido precisa andar cada vez mais junto a partir de agora.

Interlocutores do governador de São Paulo afirmam que ele está pronto e disposto a comentar “cada absurdo que Bolsonaro disser”. “Se levantar a bola, o Doria vai aproveitar para cortar. É do jogo”, comentou um deputado aliado do tucano. Além, disso, claro, responderá a cada ataque. “Especialmente aos gratuitos”, completou o parlamentar, que esteve na semana passada com o virtual candidato à Presidência da República em 2022.

SIPA USA/PA Images
Camisa de "BolsoDoria" foi truque de Doria para bater Márcio França na disputa pelo governo de São Paulo em 2018.

O aliado de Doria se referiu à fala de Jair Bolsonaro na quarta-feira (4) ao jornal Folha de S. Paulo, que comparou Doria a “ejaculação precoce”. Para o presidente, o governador só teria chances nas eleições de 2026, mas está “morto” para o próximo pleito.

A declaração levou até a esposa do governador, Bia Doria, a se manifestar em seu Instagram. “Como mulher, mãe e primeira-dama do estado de São Paulo, repudio com veemência as declarações do presidente da República, que usa expressões chulas, que ferem e desrespeitam a família brasileira e a importância do cargo que ocupa”, escreveu.

O governador ironizou: “O Lula também falava isso em 2016 e eu ganhei a eleição no primeiro turno. De eleição eu entendo que tenho acumulado vitórias que podem ser bem avaliadas”. 

De acordo com uma fonte que conversou com o HuffPost e esteve em uma conversa com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, “faltou vocabulário” para relatar esses acontecimentos ao tucano. 

Os dois no jogo

A polarização encampada por Bolsonaro, na verdade, interessa também a Doria, que faz questão de se posicionar como time adversário — à sua maneira entretanto. 

Na quinta (5), por exemplo, o virtual candidato pelo PSDB condenou as declarações de Bolsonaro sobre a alta comissária da ONU (Organização das Nações Unidas) e ex-presidente do Chile, Michelle Bachelet, e seu pai, Alberto Bachelet, preso, torturado e morto em 1974 pelo regime militar no país. 

No dia anterior, Jair Bolsonaro havia criticado em seu Facebook o trabalho de Bachelet na ONU, depois que ela disse que o Brasil não é uma democracia plena. 

Para Doria, o presidente cometeu uma “indelicadeza” reprovada pela esquerda e pela direita chilena. “Bolsonaro fez uma indelicadeza com Michelle Bachelet. Não se faz isso com ninguém, ainda mais com uma ex-presidente da República. Ele [Jair Bolsonaro] pode recuar e pedir desculpas. Não foi um gesto bom. Tanto é que ele foi condenado no Chile pela opinião pública.”

O governador paulista fez questão de frisar ainda que a forma como o mandatário age não contribui para “construir uma imagem positiva do Brasil no mercado internacional”. “Tomo a liberdade de sugerir ao presidente Bolsonaro: cuide mais do País, cuide mais do seu povo. 60 milhões de pessoas votaram no presidente Bolsonaro com a esperança de que ele pudesse mudar o Brasil. Mas não será com brigas e palavrões que nós vamos construir uma imagem positiva do Brasil no mercado internacional”, completou o tucano. 

Sequência de ataques

Em 29 de agosto, Jair Bolsonaro já havia investido contra o governador de SP, quando disse que ele estava “mamando” nos governos petistas. Ao falar da compra de jatos executivos pelo apresentador Luciano Huck durante uma de suas lives semanais no Facebook, disparou: “João Doria comprou também. Explica aí. Só peixe. Amigão da Dilma e do Lula. Eu vejo o Doria falando de vez em quando: ‘minha bandeira jamais será vermelha’. É brincadeira. Quando ele estava mamando lá, a bandeira era vermelha como foiçasso (sic) e martelo sem problema nenhum”.

Em 2010, Doria financiou, por meio da Doria Administração de Bens, uma aeronave de R$ 44 milhões no BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social). Em nota, disse que o banco financiou a compra de 135 jatos executivos para a empresa, sem irregularidades. 

O possível presidenciável estava na Alemanha e evitou polêmicas: “Nunca precisei mamar em teta nenhuma. Não entro nessa. Quero Lula e Dilma distantes, se possível, do Brasil”. 

Jogo duplo

Apesar das respostas, Doria sabe que precisa manter uma relação institucional com Bolsonaro. Afinal, o presidente da República e o governador do estado mais rico do País necessitam conviver. Além disso, trata-se também de uma questão orçamentária. São Paulo é motor do País e não é dependente da União, mas também não pode ficar totalmente à mercê.

O governador de São Paulo mandou recolher das escolas estaduais, na terça (3), material didático que fala de identidade de gênero. Neles, explicam-se conceitos de sexo biológico, identidade de gênero e orientação sexual, além de trazer orientações sobre gravidez e doenças sexualmente transmissíveis.

Coincidência ou não, menos de meia hora depois o presidente Jair Bolsonaro também usou as redes sociais para dizer que determinou ao Ministério da Educação a redação de um projeto de lei para proibir a abordagem de questão de gênero em escolas do ensino fundamental. 

É uma afinidade de pensamento e postura que demonstra que, atualmente, a disputa política mais importante está concentrada em apenas um dos polos ideológicos do País.