POLÍTICA
28/05/2019 08:31 -03 | Atualizado 28/05/2019 08:47 -03

Visão simplista da política fortalece discurso de Bolsonaro contra Congresso

Para especialistas, confusão popular sobre papéis dos três poderes é benéfica para o presidente, que adota "ambiguidade proposital" em seu discurso.

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Manifestantes foram às ruas nos 26 estados e no DF em defesa do governo Bolsonaro, muitos pedindo que o Congresso deixe o presidente trabalhar.

O comportamento do presidente Jair Bolsonaro em relação ao Congresso e às manifestações do último domingo deixaram clara sua estratégia de sinalizar, com ações, em uma direção e fazer declarações públicas em outra. Enquanto evita conversar com parlamentares e espalha, nos bastidores, mensagens que inflamam parte da população contra os outros poderes, Bolsonaro diz, nas redes sociais, que apoia “pautas legítimas e democráticas”.  

A tática, segundo especialistas, não é novidade do governo Bolsonaro, tendo sido adotada também por governos do PT, e ganha espaço principalmente por uma visão simplista que muitos ainda têm da política - a de que o presidente teria recebido um cheque em branco ao vencer as eleições.

Nas manifestações de domingo eram comuns cartazes com pedidos para que o Legislativo e o Judiciário deixassem o presidente governar - e para que os outros poderes respeitassem os votos em Bolsonaro. 

Ao HuffPost, o comerciante Reginaldo Barbosa, 56 anos, afirmou no protesto que foi até a Avenida Paulista pedir para que “deixem aquele que assumiu de fato fazer o que os 58 milhões de brasileiros colocaram fé”.

Bolsonaro havia compartilhado pelo WhatsApp, dias antes, um texto que dizia que o país é ingovernável sem conchavos. Na análise, o autor destaca que Bolsonaro tem sofrido resistência de corporações e alega que o Congresso o tem impedido de aprovar suas propostas.

“Que poder, de fato, tem o presidente do Brasil? Até o momento, como todas as suas ações foram ou serão questionadas no Congresso e na Justiça, apostaria que o presidente não serve para nada, exceto para organizar o governo no interesse das corporações”, diz o texto.

O cientista político Rui Tavares Maluf, professor da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, destaca que a confusão sobre o papel dos outros poderes - que, na verdade, funcionam como freios num sistema de pesos e contrapesos para garantir o funcionamento da democracia - foi muito incitada ao longo do século 20.

“Para a democracia, isso, de certa maneira, é um desserviço. É uma ambiguidade proposital”, diz Maluf. “Não estou dizendo que a democracia não deva ser alvo de provocação. É riqueza da democracia conseguir sobreviver com forças que lhe façam oposição abertamente.”

Na avaliação do especialista, por mais que, em alguns momentos, o presidente afirme que não apoia pedidos como o fechamento do Congresso (pedido por alguns poucos manifestantes), esses são movimentos convenientes para Bolsonaro se sentir fortalecido. 

“A Constituição exige que as autoridades atuem dentro do limite da competência, sejam responsáveis e não incitem quebra da lei, por isso ele não pode ser tão aberto em sua fala”, afirma Maluf. 

“Ele [Bolsonaro] tem que ter alguns cuidados. Por outro lado, não pode desapontar uma boa parte do seu eleitorado que tem essa visão muito simplificada do processo, de acreditar que rigorosamente o poder Executivo — o presidente—mandaria em tudo.”

Para o especialista, uma boa parte do eleitorado - e também  Bolsonaro - endossa uma “relação cesarista, bonapartista, do líder falando diretamente com o povo”. ”É algo que tanto a direita quanto a esquerda gostam muito”, diz. 

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Na avaliação do professor de ética e filosofia da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) Roberto Romano, quando o presidente endossa, como ao compartilhar o artigo sobre o “Brasil ingovernável”, este tipo de pensamento, está fazendo um apelo para impor sua visão, que flerta com ideias de um golpe de estado.

A estratégia, segundo Romano, lembra a de Getúlio Vargas quando foi eleito democraticamente e teve dificuldades com o Congresso e o STF para governar. Getúlio lançou então o bordão “Deixa o velho trabalhar”. “O que quer dizer que se considerava que o Congresso, as forças políticas, a Justiça estariam atrapalhando o programa do Vargas”, diz o especialista. 

Romano, contudo, ressalta o perigo desse discurso no momento delicado em que o País vive. “Temos uma economia que é uma das mais importantes do planeta em crise, desemprego monstruoso, déficit nas contas públicas, divergência nas últimas eleições que impedem o diálogo em posições opostas”, diz. 

Para ele, não é producente voltar à época do “Deixa o velho trabalhar”, onde a única resposta possível é combater o “mar de lama” e os “não-patriotas” que estariam querendo derrubar o presidente. 

Romano explica que o Congresso, em especial a Câmara dos Deputados, tem papel fundamental na democracia.

“Mesmo no regime militar existiu problema com o Parlamento. Mas por pior que seja o Congresso brasileiro, no século 20, ele foi o que menos tempo ficou fechado na América do Sul”, lembra.

“Ele não é apenas um instrumento inútil, de mercadoria política etc, ele tem uma função de representar as regiões para arrancar impostos de volta para essas próprias regiões.”