OPINIÃO
25/09/2019 00:01 -03 | Atualizado 25/09/2019 08:32 -03

Bolsonaro usou palco da ONU para jogar apenas para sua plateia

"Faltou ao presidente, porém, explicar ao mundo, no ponto principal de seu discurso, a Amazônia, como o Brasil tem enfrentado as questões ambientais e como está apagando o fogo na região."

Drew Angerer via Getty Images

A estreia de Jair Bolsonaro na ONU (Organização das Nações Unidas) não surpreendeu. Embora o mandatário tenha afirmado que adotaria um tom de consenso, nada é tão a sua cara como o que se viu nesta terça (23) em Nova York, na abertura da Assembleia Geral das Nações Unidas. 

A fala belicosa, ideológica, recheada de recados, seguiu o estilo bolsonarista usual no dia a dia em Brasília: voltada para o seu eleitorado, sem profundidade em nenhum tema específico, com mais agressões que bandeiras brancas estendidas.

Sobraram ataques. Jair Bolsonaro falou em um desconhecido “recente socialismo no País”, que confundiu quem não acompanha os debates políticos no Brasil e não sabe que é costume do chefe de Estado abusar desse tipo de retórica.

Ele também tratou a questão ambiental brasileira como um problema existente devido a ataques ”à soberania” do País, numa referência indireta ao presidente francês, Emmanuel Macron. Para completar, voltou-se contra o representante indígena mais conhecido do mundo, o Cacique Raoni, que já esteve até com o Papa Francisco.

Faltou ao presidente, porém, explicar ao mundo, no ponto principal de seu discurso, a Amazônia, como o Brasil tem enfrentado as questões ambientais e como está apagando o fogo na região. Afinal, o governo enviou tropas federais para a floresta a fim de reforçar o escasso contingente dos estados da região Norte no esforço contra os incêndios.

Bolsonaro também não contou como o País está se preparando para enfrentar a temporada da seca do ano que vem, já que para ele - e fez questão de dizer isso em sua fala - as queimadas são comuns nessa época 

Para completar com chave de ouro, embora não menos comum, o capitão reformado do Exército mirou a imprensa internacional, à qual se referiu como “sensacionalista”, chamando de “falácias” as informações noticiadas.

Apesar de fazer parte da rotina do mandatário, o discurso de Jair Bolsonaro deixou “estupefatos” diplomatas do Itamaraty, que nunca viram um presidente brasileiro se comportar de forma tão “dura” e “pouco hábil” no plenário da ONU.

Ele mencionou o “início do processo de adesão à OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico)”. Mas a falta de diplomacia, os ataques gratuitos a líderes europeus que lhe renderam palmas irônicas da chanceler alemã Angela Merkel, podem aumentar a resistência internacional ao Brasil. 

Sem modular o discurso ao ambiente, Jair Bolsonaro jogou mais uma vez para sua plateia, mas dessa vez no maior palco mundial em que deveria ter aproveitado para abusar de oratórias conciliatórias, mesmo que não fizessem seu estilo.

Perdeu a chance de avançar e surpreender lideranças globais. Ao contrário, deu mais munição para os que defendem sanções e punições econômicas como única forma de rebater a política ambiental do governo brasileiro.