POLÍTICA
25/01/2019 07:54 -02

Em Davos, Bolsonaro deixou a desejar no detalhamento de propostas

Presidente demonstrou a investidores intenção em fazer reformas, mas foi vago sobre elas, avaliam especialistas.

FABRICE COFFRINI via Getty Images

Sem a presença de líderes como Donald Trump, dos Estados Unidos, Theresa May, do Reino Unido, e Emmanuel Macron, da França, grande parte da expectativa do Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça, neste ano recaía sobre o novo presidente da 9ª maior economia do mundo - e a maior da América Latina.

Jair Bolsonaro, no entanto, retorna ao Brasil nesta sexta (25) sob a avaliação de especialistas de que não aproveitou bem o espaço, deixando de se aprofundar em medidas concretas a serem adotadas para acolher os tão aguardados investimentos.

O rápido discurso feito na abertura do evento apresentou aos investidores o que eles gostariam de ouvir: interesse em facilitar a abertura do País ao mundo dos negócios. No entanto, Bolsonaro frustrou a expectativa por novidades, por exemplo, na reforma da Previdência.

O presidente demonstrou intenção em fazer “as reformas de que precisamos e que o mundo espera de nós”, enalteceu o currículo de integrantes de sua equipe e destacou que o Brasil precisa avançar na “compatibilização entre a preservação do meio ambiente e da biodiversidade e o necessário desenvolvimento econômico”.

Houve insistência do presidente do fórum, Klaus Schwab, para que o presidente destrinchasse a estratégia, mas não houve resposta direta sobre como Bolsonaro pretende avançar nesses pontos próximos anos.

A falta de detalhamento de propostas, para o professor de Relações Internacional na FGV Guilherme Casarões, passou a impressão de que o discurso foi voltado para o público que já o segue. 

“O que vai ser decisivo para a recuperação econômica brasileira vai ser a capacidade que o Bolsonaro vai ter de mobilizar as forças internas para aprovar as reformas. O apoio estrangeiro é um elemento importante, mas não é o que vai definir seu potencial na recuperação da economia.”

Em entrevista à agência Bloomberg, Bolsonaro reconheceu que, de volta ao País, enfrentará dificuldades.

“Mas temos que enfrentar isso agora, não teremos outra alternativa. O Brasil tem que dar certo conosco. Senão a esquerda volta ao poder e, aí, não sabemos ao certo qual será o destino do Brasil. Talvez se transformar no regime que se encontra na Venezuela”, disse. 

O Brasil tem que dar certo conosco.Jair Bolsonaro

Especialistas ouvidos pelo HuffPost Brasil fizeram um balanço da primeira participação internacional de Bolsonaro como presidente, elencando seus acertos e erros em Davos. 

 

1. Discurso curto

A concisão do discurso de Bolsonaro pode ser considerada tanto um acerto quanto um erro, a depender da expectativa que se criava. Dos 30 minutos dispunha para falar, o presidente utilizou apenas 6, quando todos os holofotes estavam sob ele.

“A retórica objetiva é interessante e pode ser boa”, analisa Vinícius Müller, doutor em História Econômica e professor do Insper. Mas, segundo o especialista, foi exageradamente curta e pode ter gerado efeito contrário. “Pode ter deixado algumas dúvidas que dificultam entender o Brasil. De modo geral, ele mostrou disposição em arrumar o ele acha que precisa. Falou o que os investidores queriam ouvir, mas sem explicar como vai fazer.”

Para Casarões, ficou a impressão de que o presidente quis falar o mínimo possível para gerar poucas críticas. “Ele não foi capaz de mostrar com clareza a direção do País para os próximos 4 anos. Havia expectativa de demonstrações claras sobre o que ele está disposto a fazer, de que ele tentaria mudar a imagem do Brasil, aumentar a credibilidade, mas o discurso não trouxe esse ânimo. (…) Foi mais um sintoma de que falta clareza do que um decreto de óbito [do novo governo].”

 

2. Política interna X externa

Ainda para Casarão, também ficou a sensação de que o discurso foi voltado para o público interno, com sinalizações à bancada evangélica, aos ruralistas, aos simpatizantes de Olavo de Carvalho e à política de segurança pública. “Para quem não se importa e não entende direito as forças por trás do governo, a fala não fez sentido”, afirma.

No discurso, Bolsonaro diz que vai “investir pesado na segurança” para atrair turistas, agradece “à competência do produtor rural”, enaltece a implementação de uma política internacional sem “viés ideológico” e finaliza com “Deus acima de tudo”.

Müller acrescenta que um governo com posições muito fortes, sejam de direita ou esquerda, muitas vezes confundem a proposta de política externa com a interna. “Receio que a participação de Bolsonaro em Davos tenha carregado um discurso, que era, à princípio voltado à diplomacia econômica, mas que ficou apegado a política interna. Isso é muito comum na história, mas não é recomendável.”

 

3. Cancelamento da entrevista

Embora exista a avaliação de que o presidente se mostrou disposto a fazer as reformas que o País precisa, o cancelamento da entrevista coletiva, com a justificativa de que precisava de repouso por causa de sua saúde delicada (mas também de que a imprensa estava se comportando de forma “antiprofissional”), deixou um vácuo.

Para Müller, Bolsonaro perdeu a oportunidade de usar o tempo para suavizar suas aparentes contradições. “Pode ter sido uma tática, porque tem alguns elementos que são difíceis de explicar. Ele pode estar ganhando tempo, amadurecendo ideias, esperando para ver como vai ser a base dele no Congresso para falar de uma maneira pontual. (…) Mas a postura ambígua gera ruídos no mercado internacional. Ele poderia ter usado o tempo para esclarecer possíveis dúvidas.”

4. Reuniões bilaterais

Já Casarões ressalta que “o discurso vai ser esquecido daqui a um tempo e vão ficar os contatos que Bolsonaro efetivamente fez com os parceiros estrangeiros”.

“É cedo para dizer que o impacto vai ser positivo ou negativo. Vamos ter que esperar um pouco mais de tempo para ver o que foi construído com os investidores internacionais nos encontros a portas fechadas que Bolsonaro e, sobretudo, o [ministro da Economia] Paulo Guedes tiveram com os investidores.”

Além de líderes da América Latina, o presidente teve encontros com autoridades da Itália, Suíça, Japão, Ucrânia, África do Sul, Polônia, África do Sul, Holanda e República Tcheca.

Aqui a íntegra do discurso de Bolsonaro na abertura do evento.