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20/11/2019 10:54 -03 | Atualizado 20/11/2019 11:03 -03

Para Bolsonaro, acabar com desmatamento é impossível por ser questão 'cultural'

Presidente foi questionado se conversou com ministro do Meio Ambiente sobre medidas de combate ao desmate, que cresceu quase 30% na Amazônia.

POOL New / Reuters
"Você não vai acabar com desmatamento. Nem com queimada. É cultural.", disse.

O presidente Jair Bolsonaro afirmou nesta quarta-feira (20) que não acredita ser possível acabar com o desmatamento e queimadas no Brasil já que, segundo ele, esta é uma questão “cultural”. 

Bolsonaro deu a declaração ao ser questionado por jornalistas na saída do Palácio da Alvorada. Repórteres perguntaram se o presidente conversou com o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, sobre dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) que acusam aumento da prática na Amazônia.

“Você não vai acabar com desmatamento. Nem com queimada. É cultural. Eu vi a Marina Silva criticando anteontem. No período dela tivemos a maior quantidade de ilícitos na região amazônica”, respondeu Bolsonaro.

 

O Inpe apontou que a área desmatada na Amazônia foi de 9.762 km² entre agosto de 2018 e julho de 2019, um aumento de 29,5% em relação ao período anterior ― entre agosto de 2017 a julho de 2018 ―, que registrou 7.536 km² de área desmatada na região. Este foi o maior nível da prática em 11 anos.

Os dados foram divulgados na última segunda-feira (18) e pertencem ao Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal por Satélite (Prodes), considerado o mais preciso para medir as taxas anuais. O Prodes é diferente do Sistema de Detecção de Desmatamento em Tempo Real (Deter), que mostra os alertas mensais e já sinalizava tendência de aumento do desmatamento.

Ricardo Moraes / Reuters
Visão aérea de um pedaço da região amazônica atingida por desmatamento.

Citada por Bolsonaro, Marina Silva foi ministra do Meio Ambiente do governo Lula, entre janeiro de 2003 a maio de 2008. Segundo dados do Prodes, neste período foram registrados dois recordes de desmatamento na região da Amazônia Legal: em 2004, quando foram desmatados 27.772 km² de floresta e, em 2003, quando foram 25.396 km². Estes dados foram entendidos com o segundo e terceiro piores índices, respectivamente.

A área desmatada no Brasil em 2004 correspondida a uma área equivalente a cerca de 3,1 milhões de campos de futebol do tamanho do Maracanã na floresta amazônica. Por este motivo, neste mesmo ano, foi lançado o Plano de Ação para a Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal (PPCDAm), onde está inserido o Sistema de Detecção do Desmatamento em Tempo Real (Deter) ― sistema de alerta que permite que o Ibama fiscalize áreas que tem sinais de degradação.

Em 2018, o número coletado pelo Prodes acusou que o desmatamento reduziu mais de 70%. No ano passado, a área desmatada foi de 837 mil campos. 

Na manhã de ontem, ao ser questionado ao chegar para uma cerimônia de troca da bandeira em frente ao Palácio da Alvorada, Bolsonaro chegou a dizer que o desmatamento era recorde “quando Dilma (Rousseff, ex-presidente) era ministra”, no que foi corrido por um assessor de que a ministra era Marina Silva.

“Não, não pergunta (para mim) não. Pergunta para o Ricardo Salles, que está ali” disse, referindo-se ao atual ministro do Meio Ambiente.

Ao ser perguntado se ele mesmo tinha conversado com Salles e se o governo iria anunciar alguma medida, o presidente afirmou que conversara sim, mas que havia sido uma conversa “reservada” e não iria revelar seu teor.

“Eu não posso conversar reservadamente com o ministro e abrir para vocês aqui”, disse. “Seria antiético. Nós não queremos publicidade de nada que fazemos, queremos solução.”

O governo tem sido cobrado por ambientalistas por não ter anunciado nenhuma medida efetiva junto com os dados, além de anunciar uma reunião com os governadores dos Estados da Amazônia Legal para hoje, quarta-feira.

 

Sobre valor do dólar a 4 reais 

Bolsonaro também respondeu que gostaria que a cotação do dólar estivesse abaixo de R$ 4 reais, mas ponderou que o comportamento da taxa de câmbio também está atrelado a fatores externos, como o embate de tarifas comerciais entre os Estados Unidos e a China.

“Nós gostaríamos de um dólar abaixo de 4 reais”, disse, acrescentando que a taxa de câmbio não reflete apenas questões internas. “O mundo está todo conectado. Qualquer problema lá fora tem reflexo no mundo todo, não é só aqui, não”, disse.

O dólar atingiu recorde histórico nominal para um fechamento nesta semana após encerrar a segunda-feira acima de R$ 4,20, e analistas dizem que até o fim do ano qualquer ajuste de baixa tenderá a ser limitado.

Mesmo com a correção na véspera, o dólar segue muito próximo da marca psicológica de R$ 4,20, patamar que para alguns analistas pode perdurar, devido à carência de perspectiva de relevante fluxo de recursos ao país até o fim do ano, num período sazonalmente já marcado por saída de moeda.

Na terça-feira, o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, afirmou que parte da explicação para o movimento recente de valorização do dólar frente ao real tem relação com o resultado do leilão de excedente da cessão onerosa.

Mas ressaltou que essa era uma parte da explicação. “Parte é global, parte é pré-pagamento. Tem muito exportador que também está segurando, importador que está segurando”, disse o presidente do BC. “São várias explicações.”

Na saída da residência oficial da Presidência, Bolsonaro também voltou a comentar sobre projetos para incentivar o desenvolvimento da indústria de telecomunicações, bem como o leilão das frequências para telefonia móvel 5G vai acontecer no próximo ano.

“Nós fazemos comércio com o mundo todo. Tem mais empresas se habilitando também. O que for melhor para o Brasil, tecnicamente e financeiramente a gente embarca”, afirmou.